O cineasta iraniano Jafar Panahi recebeu das mãos de Juliette Binoche a distinção mais importante do Festival de Cannes. O norueguês Joachim Trier ficou com o Grande Prémio e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi duplamente recompensado num palmarés que abrangeu os filmes mais importantes.

Foi a Palma mais desejada na Croisette e Juliette Binoche, presidente do júri, esteve à altura desse desejo: Jafar Panahi, de 64 anos, nome maior do cinema contemporâneo, venceu a Palma de Ouro da 78ª edição com uma das obras mais importantes que se apresentaram a concurso. “Un simple accident” segue os dilemas de uma homem que reconhece num condutor de automóvel, pai de família igual a tantos outros, o torcionário que o brutalizou na prisão. As memórias da tortura ainda bem vivas conduzem então a um plano de vingança que não divide apenas as personagens: fica também ao juízo da consciência de cada espectador.

É um filme notável, uma Palma de Ouro justíssima. Panahi conseguiu este sábado um feito raro: depois da conquista do Leão de Ouro de Veneza por O Círculo (2000) e do Urso de Ouro de Berlim por Taxi (2015), entrou esta noite no seleto grupo de cineastas que venceram o prémio máximo dos três mais importantes festivais de cinema do mundo. “A minha vida só faz sentido a fazer filmes e só quero fazer aqueles que acho que são necessários”, contou o cineasta ao Observador.

No palco do Grand Théâtre Lumière, o discurso de Panahi perante uma plateia de mais de 4000 pessoas foi contundente: “Chegou o momento de pedir a todos os iranianos espalhados pelo mundo que coloquem de lado os seus problemas: o mais importante hoje é o nosso país e a sua liberdade. Que ninguém nos dite o que é preciso dizer, o que é preciso vestir, o que se pode e não se pode fazer.” Recorde-se que o filme acabado de chegar ao olimpo do cinema foi rodado à revelia das autoridades iranianas e baseado em histórias e pessoas que Panahi conheceu quando esteve na prisão. Chegou este ano a Cannes como um homem livre, pela primeira vez em muitos anos. O que lhe acontecerá depois desta Palma de Ouro?

Dois outros filmes distinguiram-se na cerimónia: Sentimental Value, drama familiar do norueguês Joachim Trier, com uma ótima interpretação de Stellan Skarsgård (foi o crowd pleaser desta edição) venceu o Grande Prémio, o segundo mais importante do festival. Já O Agente Secreto, novo trabalho do cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho e um dos nossos preferidos, foi duplamente distinguido, algo que só raramente tem acontecido em Cannes nas últimas décadas. Kléber ficou com a Melhor Realização, Wagner Moura foi o Melhor Ator.

Thriller político, “O Agente Secreto” passa-se na cidade do Recife de 1977, durante um carnaval sangrento em que está em cartaz Tubarão, de Spielberg e há outros tubarões nas ruas. O filme jamais nomeia a ditadura militar. Evoca antes uma “época cheia de pirraça” num momento da história do Brasil em que o país está dominado pela opressão.

Na categoria de interpretação feminina, saiu premiada a francesa Nadia Melliti, de 23 anos, estudante sem qualquer experiência anterior como atriz. Hafsia Herzi encontrou-a numa rua de Paris e convidou-a para fazer um teste para a personagem principal de La petite dernière. E assim nasceu Fatima, jovem muçulmana e lésbica que se envolve em conflitos familiares e crises de fé.

Em “noite iraniana” na Croisette, fica uma nota de simpatia para o Prémio do Júri a um dos filmes mais arriscados de Cannes, “Sirât”, do galego Oliver Laxe, que dividiu a honra com “Sound of Falling”, da alemã Mascha Schilinski.

Portugal teve o seu momento de glória ontem, com o reconhecimento da atriz Cleo Diára pelo seu trabalho em “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho, na competição da secção Un Certain Regard.

CANNES 2025 – Palmarés

PALMA DE OURO

“Un simple accident”, de Jafar Panahi (Irão/França/Luxemburgo)

GRANDE PRÉMIO

“Sentimental Value”, de Joachim Trier

(Noruega/Alemanha/Dinamarca/França/Suécia)

MELHOR REALIZAÇÃO

Kleber Mendonça Filho por “O Agente Secreto” (Brasil/França/Alemanha/Países Baixos)

MELHOR ARGUMENTO

Jean-Pierre e Luc Dardenne por “Jeunes mères”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica/França)

MELHOR ATOR

Wagner Moura por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho

(Brasil/França/Alemanha/Países Baixos)

MELHOR ATRIZ

Nadia Melliti por “La petite dernière”, de Hafsia Herzi (França/Alemanha)

PRÉMIO DO JÚRI (EX-AEQUO)

“Sirât”, de Oliver Laxe (Espanha/França)

“Sound of Falling”, de Mascha Schilinski (Alemanha)

PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI

“Resurrection”, de Bi Gan (China/França/EUA)

CAMÉRA D’OR (MELHOR PRIMEIRA OBRA)

“The Presidents’s Cake”, de Hasan Hadi (Iraque/EUA/Qatar)

UN CERTAIN REGARD – MELHOR FILME

“La misteriosa mirada del flamenco”, Diego Céspedes (Chile)