Era uma temporada em que o Sporting apostava muito para fazer história, foi uma das temporadas com mais alterações técnicas e de momentos da história (pelo menos recente), acabou como uma das temporadas mais conseguidas da história. O argumento do Last Dance leonino preparado depois do título de 2023/24 foi tudo o que não se esperava, com vários capítulos inesperados como a saída de Ruben Amorim em novembro, uma experiência de seis semanas falhada com João Pereira ou a autêntica razia de lesões que fustigou o plantel (e que obrigou às chamadas de vários jogadores da equipa B, além de adaptações como Zeno Debast a meio), mas chegou ao fim com o bicampeonato 71 anos depois e uma dobradinha 23 anos depois. Ao longo de toda a história, o clube de Alvalade conseguiu apenas por sete vezes ganhar Campeonato e Taça na mesma época – e esta foi apenas a segunda em que os leões conseguiram bater o Benfica na final do Jamor.

De forma quase natural, a continuidade de Rui Borges é uma “não questão”. Além de ter assinado contrato até 2026, o técnico ficou com mais um ano de ligação ao Sporting depois de ter conquistado o Campeonato, conforme estava previsto no contrato assinado quando chegou de Guimarães, sendo aposta para 2025/26 de forma natural depois não só das conquistas desportivas mas também dos rasgados elogios deixados por Frederico Varandas, presidente dos leões, na receção à equipa na Câmara Municipal de Lisboa.

“Já ouvi muitas vezes dizer que é de Mirandela mas deixe-me dizer-lhe: é-me indiferente se é de Mirandela, da Praça de Londres ou de Cascais. O que me interessa é sua capacidade de liderança e de competência. Também já o ouvi dizer que nunca estudou… Nunca estudou mas é licenciado e doutorado em caráter, nobreza e valores. E mais… Pode dar muitas lições e explicações a pessoas que nunca conquistaram nada na vida, mas que se acham alguém por falarem numa televisão. Tenho de lhe tirar o chapéu pela capacidade como se adaptou fora da sua ideia de jogo. Adaptou-se e venceu”, salientou o líder verde e branco, quase que carimbando uma continuidade que estava garantida com ou sem Taça de Portugal.

Já em relação ao plantel, aí, as certezas perdem exatidão. O primeiro mercado de transferências que não contará com a participação de Hugo Viana, que entretanto assumiu a direção desportiva do Manchester City, coloca alguns dilemas não só a Frederico Varandas mas também aos novos timoneiros desse pelouro, com Bernardo Palmeiro, diretor geral, e Flávio Costa, diretor do scouting, à cabeça de todas as operações que, no plano meramente teórico, não serão muitas mas terão o condão de dotar o plantel de outra profundidade entre características que permitam também a Rui Borges manter o 3x4x3 ou recuperar o 4x3x3 (ou 4x4x2).

O que vai fazer girar grande parte das peças? Viktor Gyökeres. 1) Sai ou não sai?; 2) Por quanto sai?; 3) Quando sai? Os leões têm alvos identificados no mercado europeu e sul-americano para reforçar um ataque que nunca será o mesmo perante as características muito próprias que o sueco oferece, estão dispostos a fazer um investimento forte para garantir que Conrad Harder continua a ter o espaço de crescimento para se tornar o 9 indiscutível do Sporting sem queimar etapas (e essa é a principal ideia em relação ao avançado dinamarquês de 20 anos em termos internos). Fotis Ioannidis, internacional grego do Panathinaikos que foi o alvo número 1 sem sucesso no verão de 2024, está nessa short list mas não parece agora ser a prioridade.

Apesar de ter uma cláusula de rescisão de 100 milhões de euros, é provável que Gyökeres possa sair por um valor a rondar os 65/70 milhões de euros fixos mais cláusulas por objetivos (que poderão depois aproximar o montante final dos três dígitos caso sejam alcançados), a que se juntam depois os 73 milhões já assegurados por Geovany Quenda e Dário Essugo com um ano de empréstimo do ala pelo Chelsea. Ou seja, e apenas com a saída do avançado, a “obrigatoriedade” de venda de ativos para equilíbrio das contas está cumprido. O que altera depois o ataque ao mercado? Se uma saída do dianteiro, a confirmar-se – e em Alvalade é um dado quase assumido que o estranho seria nenhum clube avançar para o melhor marcador de 2024 que terminou como segundo classificado da Bota de Ouro de 2024/25 –, acontecerá até ao final de junho ou mais no final do mercado em agosto, tendo em conta que haverá pelo meio Mundial de Clubes.

Ainda assim, poderá haver mais saídas, por questões contratuais, por escassez de minutos ou por falta de rendimento. Hidemasa Morita, médio japonês de 30 anos que está há três anos em Alvalade, vai entrar no último ano de contrato com os leões, recusou a abordagem para prolongar o atual vínculo por entender que deve seguir a carreira noutras paragens e, caso não mude de ideias, poderá sair caso chegue uma proposta pouco abaixo dos dez milhões. Mais: perante aquilo que foi dando ao clube e à equipa, o Sporting admite ficar com o nipónico mesmo saindo a custo zero em 2026. Jeremiah St. Juste, central neerlandês de 28 anos, está num plano idêntico, podendo ser vendido já neste mercado tendo em conta que tem apenas mais um ano de contrato. No caso de Matheus Reis, o defesa brasileiro de 30 anos deverá negociar a renovação.

Já Franco Israel poderá ficar ou sair mediante as oportunidades que surjam, tendo em conta que perdeu a posição para Rui Silva, que se consolidou como número 1 da baliza verde e branca. O uruguaio tem contrato até 2027 mas, no atual contexto, veria com bons olhos um outro projeto que lhe garanta mais minutos. Já Biel, que chegou no mercado de janeiro do Bahia por oito milhões de euros, demora a convencer, não teve uma adaptação fácil ao país e à equipa e pode também não fazer parte do plantel em 2025/26 com uma garantia: fique, saia a título definitivo ou seja emprestado, a ideia é no mínimo recuperar o investimento.

Principal objetivo entre todas as permanências: manter grande parte da estrutura principal, mesmo sabendo que podem surgir sondagens e aproximações tentadoras mas que podem “bater” na cláusula de rescisão. Entram nesse lote Ousmane Diomande, Gonçalo Inácio, Morten Hjulmand, Francisco Trincão e Pedro Gonçalves, entre outros. A esse juntam-se as duas primeiras contratações já garantidas e anunciadas oficialmente pelos leões: o médio internacional georgiano Kochorashvili, contratado ao Levante por 5,5 milhões de euros (mais dois por objetivos), e o avançado brasileiro Alisson Santos, que chegou da U. Leiria por empréstimo do Vitória e que custou pouco mais de dois milhões de euros, estando já integrado no grupo de trabalho verde e branco. No entanto, haverá mais caras novas a chegar nas próximas semanas a Alvalade.

Uma das posições que contará com reforços será o lado direito da defesa, depois de vários alvos que, por uma ou outra razão, não chegaram em janeiro, casos de Alberto Costa ou Andrés Garcia. Georgios Vagiannidis, lateral direito do Panathinaikos, é uma possibilidade forte caso os gregos não façam um pedido excessivo pelo passe mas não é a única hipótese para a posição. Haverá também a chegada de mais um médio mesmo com Kochorashvili confirmado no plantel de 2025/26 e de um avançado, como supracitado. Tudo para dotar o plantel de mais opções do que o atual, tendo em conta as dificuldades que a equipa teve numa altura com maior número de lesionados, e para colocar o tricampeonato nacional como objetivo sem ter de “abdicar” das restantes competições em que o Sporting vai entrar, a começar pela Supertaça em agosto.