Quando chega ao tribunal para o início de um julgamento, Teresa Dias Costa não costuma ter um lugar reservado para ela. Foi assim nos trabalhos anteriores e também no julgamento que opõe a dupla de cantores Anjos à humorista Joana Marques — os primeiros pedem uma indemnização de mais de um milhão de euros devido a um vídeo satírico que a segunda fez com uma atuação dos irmãos Nélson e Sérgio Rosado.
“Mandámos um email, mas não chegámos a obter resposta, portanto tive de me desenrascar”, conta a ilustradora que tem estado a fazer o live sketching (desenhando ao vivo e ao minuto) do caso para o Observador.
Nas sessões, que começaram a 17 de junho, em Lisboa, não é permitido fazer vídeos ou tirar fotografias, por isso Teresa sente “algum gozo ter esta espécie de segredo para contar a toda a gente”. “Estou neste sítio [tribunal] e tenho de tentar comunicar da melhor maneira que eu puder qual é que é o ambiente do que se está a viver ali.”
Começa por tentar perceber qual é a atitude do juiz, se se sente ou não à vontade com ela na sala. “Quanto mais eu for invisível, mais funciona a meu favor. Neste julgamento fui falar com o oficial de justiça e perguntei se era possível, em vez de estar sentada nas últimas filas onde está a imprensa, ficar sentada no primeiro banco da frente. É onde normalmente estão as testemunhas, mas tem estado vazio.”
A cada sessão espera pela vez de entrar na sala, como qualquer cidadão que queira assistir, mas no tribunal já todos sabem o que vai fazer. “Já ninguém leva a mal que eu, a meio das sessões, me vá sentando numa ponta ou na outra da sala para ver diferentes pormenores.”
Fazer ilustrações ao vivo e ao minuto num julgamento não é uma novidade para Teresa Dias Costa. Já o tinha feito nos julgamentos de Diana Fialho [em 2019 condenada por matar a mãe adotiva], Rosa Grilo [condenada em 2023 pelo homicídio do marido] e do caso BES [que começou no final de 2024].
No caso de Rosa Grilo, a arguida escolheu ser julgada por um júri, e não pela juíza. “Houve um grupo de pessoas que foram chamadas para ter uma opinião sobre aquilo que ela tinha feito, mas que não deviam ser fotografadas obviamente para preservar a sua segurança e a sua privacidade. Eu não ia lá para desenhar a cara daquelas pessoas, mas nós queríamos representar, de alguma maneira, este julgamento de um homicídio que estava a ser à americana, com este grupo todo de pessoas que iam tomar uma decisão importante sobre um caso que era polémico.”
No julgamento que coloca frente a frente Anjos e Joana Marques — e que recomeça na segunda-feira, 30 de junho —, as testemunhas encaram o juiz e sentam-se de costas para a ela e para a restante sala. “As pessoas não se sentem muito incomodadas com o meu trabalho, neste caso mal percebem. Contudo, no julgamento do BES tive até reações muito positivas. Os advogados iam falando comigo durante os intervalos, iam comentando, queriam ver. Houve um ou dois que chegaram a dar-me os cartões deles para lhes poder mandar os desenhos que eu tinha feito.”
A quantidade de desenhos que faz numa sessão não está delineada à partida, mas saber exatamente quantas testemunhas vão depor ajuda a estruturar um plano. “No segundo dia do julgamento dos Anjos contra a Joana Marques, nós sabíamos que as esposas deles iam falar, mas que também ia falar a produtora musical e ia falar um dos representantes de uma farmacêutica que tinha cancelado um contrato de patrocínio com eles, etc. Desses aí, eu sabia à partida a quais é que daria prioridade se fosse preciso escolher.”
Teresa encara o live sketching como uma notícia. “Começo pelo esqueleto. Se tiver de comunicar só uma linha, qual será? As silhuetas das pessoas. Depois consigo dar ambiente? Procuro as sombras e a luz. Passo para a cor: onde estão os padrões, etc. Vou construindo o desenho assim.”
▲ O live sketching demora apenas alguns minutos, mas é sempre um trabalho único
Se o objetivo for desenhar a testemunha, foca-se nela. Se não for possível, concentra-se nas reações de quem está a ouvir. “Como é que a Joana Marques tem estado no tribunal? Está séria? Está descontraída? Está tensa? Os Anjos, quando estão a ouvir as próprias mulheres, como é que estão a reagir? Estão a repetir a emoção que elas estão a comunicar ou estão a reagir com surpresa? Há outras maneiras de comunicar a atenção da sala, sem ser só através desta testemunha que está de costas para mim.”
Acontece algumas vezes ter de recomeçar um desenho e o passo fulcral para que isso seja evitado é identificar logo à partida qual será o elemento de maior dificuldade. “Se há uma pessoa que tem de ser reconhecida ou vejo que a expressão vai ser difícil, tento começar exatamente por aí para, se vir que não está a correr bem, apagar e começar outra vez.”
Tenta desenhar sempre de forma digital, no iPad, para ir enviando os desenhos à consoante os termina. “Da mesma maneira que o liveblog vai sendo publicado à medida que o julgamento vai acontecendo, os desenhos também podem ir saindo assim, dependendo da velocidade com que eu trabalho.”
Na mala vão também uma ficha tripla, uma powerbank e o Plano B: um bloco de papel de aguarelas, aguarelas e canetas.
Confessa que o stress de ter de ser rápida acaba por libertá-la. “Se me deres oito horas para fazer uma ilustração, vou chegar ao fim e se calhar ainda vou ficar insatisfeita com aquilo que fiz. No live sketching, se tiver dez minutos, o desenho tem de estar terminado nesse tempo, para o bem e para o mal. Ao fim de alguns desenhos eu começo a perceber que estou contente com aquilo porque é uma espécie de rascunho e, dentro das condições em que foi produzido, posso estar orgulhosa daquilo que fiz. É bom improvisar e não deixar o meu crítico interior meter-se ao barulho”, garante.
TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR
Neste julgamento, Teresa Dias Costa está a encarar o trabalho quase como se estivesse na faculdade. “Sinto que desenhar é como tirar apontamentos, portanto eu também vou ouvindo aquilo que se está a dizer para o que estou a registar refletir aquilo que está a ser dito.”
A ilustradora garante que não sentiu nenhum condicionamento no seu trabalho, mas foi percebendo ao longo dos dias que ela própria podia ser visada. “Por muito que a acusação dos Anjos seja de danos financeiros causados pelo vídeo que a Joana Marques fez, também é um caso sobre liberdade de expressão e é um caso de liberdade de expressão artística. Portanto, eu poderia igualmente ser processada por este trabalho que estou a fazer.”
Também as críticas são algo que foi aprendendo a lidar com o tempo, por isso entendeu a piada feita pela própria Joana Marques numa partilha recente do Instagram. “Ela pegou num vídeo que eu tinha partilhado e disse: ‘Ah, a camisa até está gira, mas o nariz não me favorece’. Muitas vezes as pessoas não se veem daquela maneira, reparam em todas as linhas ou nos pormenores que lhes fazem mais confusão. Aqui foi dito como piada, mas consigo entender que nós somos os nossos maiores críticos.”
Uma arquiteta que nunca quis ser arquiteta
Nasceu em Lisboa a 20 de maio de 1991, mas a infância foi passada em Abrantes, para onde os pais se mudaram depois de casarem. Quando era miúda sempre desenhou, mas acredita que não tinha mais ou menos jeito do que qualquer outra criança da mesma idade. “Acho que jogou a meu favor ter crescido numa casa que era muito criativa no geral. O meu pai sempre desenhou comigo, era uma coisa que fazíamos juntos. Já a minha mãe, não desenhava, mas era muito criativa. Lembro-me de, a certa altura, termos um caixote gigante durante meses lá em casa. Fizemos dele um autocarro, com um x-acto cortamos portas e janelas, fizemos um painel com um volante.”
O lado artístico foi muito estimulado em Teresa. Tanto ela como a irmã, três anos mais nova, frequentaram aulas de música e de ballet. O pai é arquiteto e como, no momento de escolher um curso, Teresa não sabia bem o que queria fazer profissionalmente, seguiu o exemplo do pai e mudou-se para Lisboa para estudar na FAUL (Faculdade de Arquitetura de Lisboa).
“Já sabia que não era aquilo que queria fazer, mas sabia que queria trabalhar na parte criativa. Durante o curso fui fazendo algumas coisas ligadas ao desenho, como uma disciplina de ilustração infantil com o Bernardo Carvalho do Planeta Tangerina”, recorda.
Escolheu Arquitetura, e não Belas Artes, porque lhe interessou o “lado mais científico, matemático e próximo da engenharia”. Trabalhou como arquiteta durante um ano — o mínimo para entrar na Ordem dos Arquitetos, tendo neste momento as quotas suspensas, mas podendo sempre regressar.
TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR
Quando se mudou para Lisboa para estudar já sabia que não pretendia regressar a Abrantes. “Os meus pais têm muita família em Lisboa, a nossa vida sempre foi feita entre os dois sítios. Além disso, fiz muitos campos de férias por todo o País e tinha amigos do Porto e de Lisboa, havia alguma curiosidade de estar numa cidade grande, com uma maior oferta cultural.”
Teresa sempre ouviu o pai, arquiteto, dizer que só aprendeu realmente a desenhar quando ingressou no curso de Arquitetura. “É uma coisa que toda a gente pode aprender. Acho que o problema é que nós, muitas vezes, só aprendemos a desenhar se soubermos lidar com a frustração de desenhar mal. Muitas vezes as pessoas não conseguem lidar com isso, não insistem, e acabam por desistir.”
Na faculdade teve uma cadeira que a influenciou muito e que a obrigava a ir para a rua desenhar. “Íamos andando de um lado para o outro, por toda a Lisboa, e fazíamos desenho de velocidade. Hoje vejo que os desenhos que fiz agora do julgamento para o Observador, de querer representar algo com alguma rapidez, vêm dessa cultura de ensinar desenho.”
Percebeu que não queria ser arquiteta, mas que podia ser muitas outras coisas — e todas ao mesmo tempo. Em 2019 juntou-se ao Co.lab (um content lab que nasce da colaboração entre a agência digital Fullsix e o Observador), onde se dedica também ao design e à publicidade. “Acho que nunca vou ser uma pessoa que goste de fazer só uma coisa, portanto o meu tempo vai-se dividindo entre esta agência de publicidade, fazer live sketching e fazer ilustração.”
Nas paredes de casa convivem sobretudo trabalhos de outros ilustradores. Porém, também lá está emoldurado um convite de casamento que fez há uns anos para uns amigos. “É uma mesa posta e, olhando para trás, continua a fazer sentido revisitar esse desenho.”
Na estante também está um livro infantil que ilustrou. Chama-se O Esconderijo de Avecasta, é um projeto da Fundação Maria Dias Ferreira e tem texto de Conceição Godinho — recebeu uma menção honrosa no concurso internacional de ilustração Jungle Illustration Awards.
TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR
Quando a pergunta é se há pessoas mais fáceis de desenhar do que outras, Teresa é sincera: “Espero que não me levem a mal, mas gosto mais de desenhar pessoas com traços mais feios ou acentuados. Uma pessoa bonita normalmente tem feições faciais que são muito equilibradas, portanto tendem a ser traços genéricos. Quando a pessoa tem um nariz enorme, umas orelhas completamente descaídas ou o cabelo é de uma textura completamente inesperada, há traços aí que são muito mais interessantes de explorar, são coisas que saltam à vista.”
No que toca a figuras públicas que estão afastadas da ribalta durante algum tempo, o desafio passa por aceitar que as pessoas não vão reconhecer a figura ou vão dizer que não está minimamente parecida.
“No caso BES, tanto o Ricardo Salgado como o Passos Coelho estavam muito diferentes. As últimas fotos deles tinham sido tiradas há anos. Tive até amigos meus a dizerem-me que eles estavam muito envelhecidos ou diferentes nos desenhos. Mas era normal, eu estava a desenhar a pessoa naquele momento. Há este distanciamento entre aquilo que a maior parte do público tem na sua cabeça do que esta pessoa era e daquilo que é agora.”
O live sketching não se limita a julgamentos. Teresa Dias Costa pode fazer o mesmo tipo de trabalho em casamentos ou eventos corporativos. Muitas vezes, as ilustrações são feitas em papel para que os retratados possam levar a ilustração para casa. “É um trabalho único feito naquele momento que nunca poderá ser repetido e isso também é especial.”