As lutas pela independência é um dos aspetos explorados pela exposição “50 — independentes: Arte e Liberdade nos Países Africanos de Língua Portuguesa”, que será inaugurada este sábado em Lisboa, mostrando percursos destas nações e dos seus artistas.

Este foi um dos aspetos destacados, em declarações à Lusa, pelo curador da exposição, Carlos Cabral Nunes, nascido em Moçambique, salientando que este evento é uma forma de assinalar os 50 anos de independências das ex-colónias portuguesas, cuja luta, sublinhou, libertou também Portugal do Estado Novo.

“Eu acho que quem fez esse processo de luta de libertação libertou-nos a nós também, em Portugal, de uma ditadura. Porque a ditadura, se calhar, não teria caído como caiu, se não tivesse havido um movimento de oposição, no caso armada, àquele sistema repressivo em que todos nós no fundo vivíamos. Portanto, a luta de libertação acaba por nos libertar também a nós“, explicou.

A exposição, que será inaugurada 12 de julho — data da independência de São Tomé e Príncipe — explora três períodos: a resistência ao colonialismo, os processos de luta pela independência e, por último, “as dinâmicas contemporâneas que exploram questões como a diáspora e os cruzamentos culturais num mundo globalizado”.

Para o cofundador da Perve Galeria, espaço em Alfama, no centro histórico de Lisboa, que acolherá a exposição, esta é uma forma de “reflexão sobre a herança partilhada e os percursos culturais distintos que moldam as identidades de cada um dos países [africanos de língua oficial portuguesa] e dos artistas que neles se formaram”.

Os artistas africanos, disse à Lusa, devem ser apresentados “sem paternalismos” e devem ser dignificados pelo seu trabalho e só depois pelas suas circunstâncias.

“Eu acredito que é possível criar-se uma grande obra — e a História de Arte prova-o — independentemente das condições objetivas que a pessoa tem para o fazer”, afirmou.

Segundo Cabral Nunes, desde a primeira exposição da Perve Galeria, fundada há 25 anos, que têm trabalhado com arte dos “países de língua portuguesa“, e desta vez a exposição surge enquadrada no ano em que assinalam 50 anos das independências da maioria das ex-colónias portuguesas em áfrica.

Sobre o porque deste trabalho em Portugal, o cofundador da Perve Galeria referiu que “[estes artistas africanos] tinham um trabalho muito valioso e interessante, mas infelizmente tinham pouca ou nenhuma expressão em termos de mercado de arte”.

“Nós achámos que de facto caberia a Portugal – porque está inserido num contexto mais aberto e internacional, o europeu e da União Europeia – fazer esse trabalho”, disse.

O especialista em arte particularizou o trabalho da artista plástica moçambicana Reinata Sadimba, de origem maconde [um grupo étnico presente no norte de Moçambique e sul da Tanzânia conhecido pela sua arte], que colabora com a Perve Galeria desde a fundação da mesma.

“Desde a primeira exposição, por exemplo, que trabalhamos com a Reinata Sadimba, que é quase uma artista paradigmática, que com 15/16 anos começou a ajudar na luta armada“, explicou.

Esta artista não fala português, nem inglês, no entanto “conseguiu, através da sua obra, chegar a algumas das mais importantes coleções do mundo e isto sem qualquer outra ferramenta que não a sua expressão artística! Isso é extraordinário!”, declarou.

O seu trabalho estará presente na exposição juntamente com artistas e profissionais, que também já colaboraram e outros que ainda colaboram, com a Perve como Ana Silva, Bertina Lopes, Ernesto Shikhani, João Ayres, José Chambel, José Eduardo Agualusa, Malangatana, Manuel Figueira, Manuela Jardim, Mário Macilau, Pancho Guedes, Ricardo Rangel, Teresa Roza d’Oliveira e Valter Hugo Mãe.

A exposição acontece em parceria com a Casa da Liberdade — Mário Cesariny e irá ocorrer entre 12 de julho — data da independência de São Tomé e Príncipe — e 23 de agosto.