Morreu Augusto Alves da Silva, um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, aos 62 anos. A sua morte deu-se no dia 11, mas a família só o revelou este fim de semana, como avançou a RTP, adiantando também que foi vítima de doença prolongada.
Segundo a agência Lusa, o velório terá lugar esta terça-feira, a partir das 11h00 nas capelas funerárias da Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa, seguindo depois o funeral para o cemitério do Alto S. João. No entanto, a família ressalva que, por desejo do próprio Augusto Alves da Silva, a cerimónia será reservada apenas para a família e amigos próximos.
A Coleção de Arte Contemporânea do Estado e a Museus e Monumentos de Portugal reagiram numa publicação conjunta nas redes sociais, lamentando a morte de “um dos mais prestigiados e reconhecidos fotógrafos portugueses”.
Na mesma nota, destacam o “desenvolvimento de projetos de carácter documental e de pensamento crítico, que marcaram o panorama artístico e acompanharam a história e o contexto sóciopolítico em que foram criados”, assim como o caráter icónico da sua fotografia, que refletia as suas preocupações de pendor social e político.
Prova disso, recorda o Público, foi o trabalho que fez em colaboração com o curador e hoje diretor adjunto do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT) Sérgio Mah em 2003 a propósito da Cimeira das Lajes, quando Portugal auxiliou os países envolvidos na invasão do Iraque no pós-11 de Setembro ao ceder a famosa base aérea açoriana. Tal facto foi considerado pelo fotógrafo a esse mesmo jornal como “o momento mais triste da história portuguesa depois do fascismo”.
Nascido em 1963 em Lisboa, Augusto Alves da Silva chegou a estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, mas deixou esse curso para se dedicar à fotografia. A sua formação na área fez-se em Londres, com uma licenciatura na London College of Printing e um mestrado em Slade School of Fine Arts — em ambas as instâncias, fê-lo enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.
Desde a sua ascensão nos anos 90, destacou-se como um dos mais importantes artistas, que não trabalhando exclusivamente com a fotografia, foi nesse meio que executou alguns dos trabalhos mais marcantes no contexto artístico português dos últimos vinte anos.
Escrevendo para o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, em Lisboa, a curadora Emília Tavares caracteriza o trabalho de Augusto Alves da Silva como tendo “uma estética que o aproxima da escola documental de Dusseldorf”, assim como “uma disciplina formal que explora o realismo analítico e crítico, as suas obras refletem sobre grandes temas civilizacionais e existenciais, mas também sociais e políticos, através do classicismo dos géneros da paisagem e do retrato”.
Ao longo do seu percurso, expôs em mostras coletivas e individuais em espaços nacionais como o Museu do Chiado, o Centro Português de Fotografia, a Culturgest, o Centro Cultural de Belém, a Fundação Carmona e Costa e o Museu de Serralves, que lhe dedicou uma exposição retrospetiva em 2009. Além disso, consagrou-se internacionalmente ao ver o seu trabalho no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, na Chisenhale Gallery, em Londres ou no Fotomuseum Winterthur, na Suíça, entre outros. Em 2004 fez parte da representação portuguesa na 9ª Bienal de Arquitetura de Veneza ao integrar o coletivo Metaflux.
Além de ter sido nomeado para o Prémio União Latina em 1997, foi um dos finalistas do Prémio de Fotografia do Citibank Private Bank em 1999 e, em 2006, do Prémio BES Photo — essa fotografia, Rainbow, encontra-se hoje no acervo do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.
Esse, de resto, é um de muitos onde a obra de Augusto Alves da Silva se encontra espalhada, como no da Ar.Co, do Banco Espírito Santo, do Centro Português de Fotografia, da Coleção Berardo, da Coleção António Cacheira (exposta no Museu de Arte Contemporânea de Elvas), da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, da Fundação PLMJ e do Museu de Serralves, entre outros, havendo também peças suas na acima referida Coleção de Arte Contemporânea do Estado.
Além dos acervos nacionais, também tem obras no país vizinho, como no Centro de Fotografia de Universidade de Salamanca, na Coleção Arco, na Coleção Helga de Alvear, no MEIAC – Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo e na Fundació Foto Colectania.
Nos últimos anos, Augusto Alves da Silva viveu e trabalhou em Tremês, em Santarém.