Não há outra personagem da literatura de terror que tenha sido interpretada por mais actores no cinema e na televisão (e até no teatro) do que o Conde Drácula de BramStoker, de Bela Lugosi a Nicolas Cage, de Christopher Lee a John Carradine e Udo Kier, do pioneiro Max Schreck  a Klaus Kinski a Jack Palance, David Niven, Frank Langella, Louis Jourdan, Gary Oldman, Leslie Nielsen, Claes Bang ou Bill Skarsgard, entre muitos, muitos outros. Os filmes com Drácula são tantos – até há versões pornográficas, hetero e homossexuais -, vindos de tantas cinematografias e em registos, épocas e contextos tão diversificados, que davam para preencher em exclusivo a programação da Cinemateca durante um ano, e ainda sobravam para o ano seguinte.

E continuam a ser feitos. Vimos recentemente Renfield de Chris McKay, como Nicolas Cage no papel do Conde e contado do ponto de vista do seu servo homónimo, interpretado por Nicholas Hoult; e o Nosferatu de Robert Eggers, com Bill Skarsgard no vampiro. Radu Jude acaba também de rodar Drácula, uma desconstrução da personagem e do seu mito passada na Transilvânia dos nossos dias e vista por olhos romenos, que competiu no Festival de Locarno. Enquanto não se estreia em Portugal, chega hoje às salas Drácula: Uma História de Amor, de Luc Besson, também escrito e produzido pelo autor de Vertigem Azul, O 5º Elemento e Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

[Veja o “trailer” de “Drácula: Uma História de Amor”:]

No tom, nos ambientes e na definição da personagem principal, Drácula: Uma História de Amor está muito distante das fitas com Bela Lugosi e das produções clássicas da Hammer com Christopher Lee, e muito próximo da versão de Francis Ford Coppola com Gary Oldman, Drácula de Bram Stoker (1992), que Besson refere directamente, nas atmosferas do castelo do Conde e em especial na caracterização física e comportamental do vampiro, interpretado por Caleb Landry Jones. Também ele um príncipe valáquio amaldiçoado para a eternidade por ter blasfemado contra Deus (e assassinado um sacerdote), e tal como o Drácula de Oldman, um monstro perdidamente apaixonado, que sofre há séculos com a morte da mulher, Elisabeta, e a reencontra 400 anos mais tarde, reencarnada em Mina Harker (Zoë Bleu num duplo papel). O amor, mais do que o terror, é o que importa aqui.

[Veja uma entrevista com Luc Besson:]

Embora preserve algumas das linhas gerais da história original de Stoker, Luc Besson, aproveita aqui a sua tripla condição de produtor, argumentista e realizador, que lhe dá liberdade suficiente para reescrever, alterar e recompor vários aspectos e situações daquela, eliminar personagens, criar novas e fazer compósitos de outras. É o caso do veterano e (quase) sempre imperturbável padre caça-vampiros interpretado por Christoph Waltz, que é parte Van Helsing pela sua abordagem científica ao fenómeno do vampirismo; ou da Maria de Matilda De Angelis, uma Renfield feminina, sofisticada e sexualmente muito afoita. Já o Jonathan Harker de Ewens Abid é apenas um pião das nicas.

[Veja uma entrevista com Caleb Landry Jones:]

A acção é transferida da Londres vitoriana para a Paris de finais do século XIX, após a tradicional abertura nos Cárpatos, onde decorre uma sequência que Ken Loach não desdenharia ter filmado: Drácula, que precisa de muito sangue fresco para rejuvenescer e poder viajar em busca da sua amada, consegue entrar num convento de freiras e transforma-o num self-service para a sua sede de séculos. Outra das boas ideias de Besson é transformar o salvamento final de Mina Harker no castelo de Drácula numa operação militar em que participa o exército romeno, com artilharia e tudo. Mas o maior atrevimento do realizador francês é a revisão do final da história, que além da noção de sacrifício por amor, introduz o tema da redenção cristã, em que ninguém até aqui tinha pensado.

[Veja uma entrevista com Christoph Waltz:]

Envolvido numa opulenta banda sonora assinada por DannyElfman, Drácula: Uma História de Amor é, formalmente, gótico-kitschy, e bastante contido em termos de violência explícita e de esparramar de sangue (tirando a sequência da luta com uma Maria em fúria vampiresca), tendo uma atmosfera geral e vários elementos que sabem a banda desenhada (BD). Luc Besson é leitor de BD e além do citado Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, já filmou um dos álbuns da série As Aventuras de Adèle Blanc-Sec, de Tardi, As Múmias do Faraó, do qual parecem ter saído directamente as gárgulas que servem o Conde Drácula.

[Veja aspectos da rodagem:]

Como seria de esperar num filme que arrisca e se atreve tanto, nem tudo funciona bem em Drácula: Uma História de Amor. Em particular os flashbacks alambicados em que o vampiro anda pelo mundo em busca dos ingredientes para o perfume afrodisíaco (perfeitamente dispensável) que lhe vai permitir tornar-se irresistível às mulheres, e percorre as cortes da Europa em busca da reencarnação de Elisabeta, e a trincar pescoços para criar “associados”. E alguns torcerão o nariz à interpretação de Caleb Landry Jones, muito assente na maquilhagem (seis horas de trabalho por dia) e na voz, que ecoa, forte e inevitavelmente, a de Gary Oldman na fita de Coppola.

No final de duas horas bastante azafamadas, e tudo passado ao crivo, esta nova iteração de Drácula na tela tem suficientes ousadias narrativas, ideias inesperadas e pontos de interesse, bem como substância cinematográfica, para justificar que lhe cravemos os dentes com gosto.