Morreu Giorgio Armani, designer italiano e nome incontornável da Moda, avança a imprensa internacional. Tinha 91 anos. A elegância do pronto-a-vestir intemporal é das marcas mais associadas ao criador que acabara de dar um derradeiro passo, bem mais afetivo que estratégico. Na semana passada, Giorgio adquiriu um dos clubes noturnos mais emblemáticos da Europa. Foi na histórica Capannina di Franceschi, em Forte dei Marmi, uma estância balnear exclusiva na costa da Toscânia onde mantinha o seu refúgio, que Armani conheceu, nos idos de 60, o amigo íntimo e co-fundador da marca, Sergio Galeotti. A compra deste símbolo da Dolce Vita italiana, a poucos dias do seu adeus definitivo, foi decisão tomada com o coração mas, como sempre, um sábio prolongamento do universo Armani, onde durante mais de 50 anos o timoneiro soube fundir tradição, moda e património. A partir do verão de 2026, estimava-se que o clube passasse a funcionar sob a liderança do designer, tal já não será possível mas veremos como será mantido agora o seu legado.
Giorgio e o parceiro Sergio Galeotti junto com o staff Armani, nos primeiros anos da marca milanesa © Getty Images
Dir-se-ia que trabalhou sobre a sua estética discreta, cartão de visita absoluto do saber fazer e vestir italianos, até aos últimos suspiros. A idade avançada tornava-se evidente a cada nova aparição em cena depois de mais um desfile, mas nunca deixou de pensar, planear e atuar. “Com infinitas condolências, o grupo Armani anuncia o desaparecimento do seu criador, fundador e motor incansável: Giorgio Armani. O Sr. Armani, como sempre foi chamado com respeito e admiração por funcionários e colaboradores, morreu serenamente, rodeado pelos seus entes queridos. Incansável, trabalhou até os últimos dias, dedicando-se à empresa, às coleções, aos diferentes e sempre novos projetos existentes e aos que haveriam de vir.”, escreveu a sua casa de moda no Instagram. “Ao longo dos anos, Giorgio Armani criou uma visão que se estendeu da moda a todos os aspetos da vida, antecipando os tempos com extraordinária clareza. Liderou uma curiosidade inesgotável, atenção ao presente e às pessoas. Neste caminho criou um diálogo aberto com o público, tornando-se uma figura amada e respeitada pela capacidade de comunicar com todos. Sempre atento às necessidades da comunidade, empenhou-se em muitas frentes, especialmente em relação à sua amada Milão”, continuam ainda, adiantando que o corpo do designer estará em câmara ardente no Armani Teatro, na via Bergognone, e que a pedido do próprio o funeral terá um carácter privado.
O seu último desfile aconteceu em 8 de julho de 2025, em Paris, com a apresentação da coleção Armani Privé Haute no calendário da alta-costura. O designer já não surgiu em público como habitual, devido a doença, mas supervisionou remotamente todo o processo. “Noir Séduisant”, assim definiu o momento, contou com uma coleção em vários tons de preto, enfatizando a elegância e o fascínio do estilo noturno, dentro do seu registo bem conhecido. Armani falhara já os desfiles primavera/verão de 2026 em Milão, realizados em junho deste ano, alegando também razões de saúde após uma breve estadia no hospital. O seu defeito, assumir, era o desejo de controlar cada ponto, cada detalhe, uma obsessão que deu frutos.
Nascido a 11 de julho de 1934 em Piacenza, uma cidade no norte de Itália, irmão do meio, Giorgio garantia ter herdado da mãe o rigor e o gosto pelo essencial. “Estas são duas coisas que andavam de mãos dadas na situação económica da minha família na altura. Nós não tínhamos dinheiro, por isso a necessidade tornou-se uma atitude.” Estudou Medicina durante três anos na Universidade de Milão, depois esteve dois anos no exército e foi colocado no Hospital Militar de Verona. Ainda foi vitrinista, vendedor e designer de roupa masculina e trabalhou para Nino Cerruti durante uns anos. O mesmo Cerruti que anos mais tarde não pouparia nas palavras para classificar o talento do então subordinado. “Ele ter-se-ia destacado da multidão de qualquer forma”, chegou a dizer à Time. “Homens como Armani são tão raros que, quando emergem, até os cegos reparam neles.”
Uma imagem da coleção outono 1977 de Armani © Getty Images
O aspeto fit e o tom bronzeado tornar-se-iam ícones posteriores da sua imagem pessoal. A sua marca própria nasceria em 1975, tinha o designer 41 anos, não sem antes ter aprendido o mister do ponto zero. Em “Made in Milan”, o breve documentário de 1990 em que falava com Martin Scorsese, Armani recordava como trabalhou numa fábrica têxtil para mergulhar em pleno no mundo dos tecidos. “Lembro-me de salas enormes cheias de teares que nunca paravam de funcionar, e barulho e pessoas que pareciam surdas. Embora estivessem a conversar, parecia que não se ouviam. Foi um trabalho muito duro e nunca pensei que me apaixonaria por ele. Pouco a pouco, tornou-se uma paixão. Um centímetro de tecido, empurrado debaixo da mesa pelo pé de alguém, tornou-se um ato de irreverência para com a pessoa que o havia criado.”
O primeiro desfile teve como palco o Palace Hotel, em Milão. “Lembro-me que pusemos os padrões nos tecidos com marcadores. As coisas não foram espetaculares, para ser sincero”, confessou o designer por ocasião dos seus 90 anos. Mas com uma mudança de banda sonora e lenços na cabeça diz que acabou por ser “um lindo final que salvou a situação”. De novo, o envolvimento determinante do parceiro na vida e no trabalho, Galeotti, que morreria de sida em 1985, deixando um vazio e um desgosto no designer. Foi dele a sugestão musical que operou a grande mudança no resultado final dessa estreia.
A grande fórmula da moda de Armani destacou-se pelo alívio concedido aos fatos masculinos, ao nível da estrutura, e por estender esse registo aos figurinos no feminino. Enquanto as silhuetas dos cavalheiros descontraíam, o power dressing entrava em cena para amparar as mulheres de trabalho e o ambiente fervilhante dos anos 80, uma revolução nos uniformes que lhe valeu o epítome de “alfaiate sexy”. A sofisticação de Hollywood preparava-se para o casamento com a alfaiataria burilada a partir do velho continente, marcando uma trajetória de sucesso na moda mas sobretudo empresarial. E quando não souber o que vestir, basta percorrer os feeds das redes sociais e procurar inspiração no senhor certo. Como definiu a atriz italiana Antonia Dell’Atte, “Armani era essência. Estilo. Sensualidade. Não vulgaridade. Com ele aprendi a mover-me, mas também a discrição, o silêncio”.
Clássicos, prontos para todas as décadas, e com aparições retumbantes no cinema, ligação histórica que o criador foi mantendo ao longo dos anos. Desde que vestiu Richard Gere no filme que lançou a sua carreira, American Gigolo (1980), as roupas do designer italiano continuaram a ser estrelas do ecrã seja criando um guarda-roupa inteiro, como em Os Intocáveis (1987), ou vestindo apenas uma determinada personagem. Ficam registados em filme os looks de Kevin Costner em O Guarda-costas (1992), Brad Pitt e George Clooney em Ocean’s 13 (2007) ou Christian Bale em O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012). Curiosamente, nos primeiros anos de labor intenso, Giorgio estava tão focado nas suas criações que nem se apercebeu da importância que teve para o nome o facto de em 1978 Diane Keaton ter recebido o único Óscar da carreira, por Annie Hall (1977), vestida de Armani. “Quando eu era jovem, os filmes eram minha verdadeira educação”, chegou a confessar o designer. “Muito mais do que aprendi na escola, eles moldaram minha imaginação, minha cultura e meus gostos.”
Do showbizz para a capa da prestigiada Time, admitia que o maior trampolim chegou em 1982, quando foi capa. Atrás dele, surgia uma mulher vestida de forma prática e elegante, com uma espécie de gabardina e uma blusa. O título resumia a equação vencedora: “Giorgio’s Gorgeous Style”. Da descontração das ruas para os momentos especiais, Armani é também sinónimo de sonho, brilho, passadeiras vermelhas e eventos sociais para a posteridade, num registo marcante sem ruídos desnecessários. Vestiu celebridades em cada um destes momentos, e aplicou o seu nome até a uniformes desportivos e à seleção nacional italiana, qual embaixador oficial do país da bota. Giorgio era até presidente da equipa de basquetebol Olimpia Milano.
Em 2019, em modo red carpet nos Fashion Awards, com Roberta Armani, Cate Blanchett, e Julia Roberts
Com um percurso singular na Moda, deixa um império que vai muito além do guarda-roupa, seja ele prático e confortável ou glamouroso e digno de uma red carpet. E sobretudo esta carteira de ativos permaneceu todos estes anos nas suas mãos. Armani é hoje nome de hotel, museu, várias linhas de vestuário e difusão (que não se livraram de recentes polémicas sobre os processos de confeção), produtos de perfumaria e beleza e outros artigos — em 1996, o lançamento de Acqua di Gio foi dos momentos mais retumbantes no segmento, um marco no último meio século e um ritual de passagem para qualquer cavalheiro que se prezasse.
Quando chegou ao 90, Armani já decidira que depois dele a empresa iria pertencer a uma fundação e que ficaria também em mãos de uma parte da família e de algumas pessoas externas. Sempre discreto sobre a vida pessoal, sem descendência, há muito que o designer depositava boa parte das operações em duas sobrinhas, Silvana Armani e Roberta Armani. A juntar ao elenco de confiança, Leo Dell’Orco, o atual companheiro e braço direito na direção criativa da marca. Naquela que terá sido a sua derradeira produção, o designer tinha acabado de ser capa do suplemento How to Spend It, do Financial Times, para mais uma imagem ao seu estilo e uma retrospetiva de carreira ao fim de cinco décadas de atividade.
Mesmo que as vendas e os lucros tenham diminuído nos últimos anos devido a uma reestruturação e racionalização do portfólio o Grupo Armani continua entre as empresas de moda privadas mais lucrativas da história. Com 2,45 mil milhões de euros em receitas e lucros operacionais de 215 milhões de euros em 2023, sem incluir licenças, o Business of Fashion enquadra como os números foram também objeto de uma especulação cada vez mais intensa sobre se o designer seria de facto o único acionista da empresa, se poderia finalmente nomear um sucessor ou apontar para uma venda. Em outubro de 2024, ao jornal italiano Corriere della Sera revelou que ponderava retirar-se ao fim de dois ou três anos. Dias depois, voltou atrás nas declarações e disse que estava apenas a brincar.