O título do novo documentário da Netflix tem um ponto de interrogação — e por um bom motivo. No final de A Verdade Sobre Jussie Smollett? cada um dos espectadores será uma espécie de membro do júri de um julgamento e terá de decidir se, perante os factos, as suposições e as contradições, Jussie Smollett é uma vítima, alvo de um crime racial, ou um criminoso, responsável pela encenação da própria agressão.
Os factos remontam a 29 de janeiro de 2019: acabado de aterrar em Chicago, o ator — que na altura interpretava a personagem Jamal na série Empire — terá chegado a casa e percebido que não tinha nada para comer. Apesar do nevão na cidade e das temperaturas geladas, saiu do apartamento e acabou a comprar uma sanduíche num balcão do franchise Subway. No caminho de regresso foi interpelado por dois homens encapuzados que o insultaram com comentários racistas e homofóbicos (o ator é negro e assumidamente gay) e o agrediram, deixando-lhe uma corda ao pescoço.
Este é o relato inicial de uma história que se tornou viral. O apoio e a indignação vieram de todos os lados (incluindo do presidente Donald Trump e de figuras públicas negras e ativistas) numa altura em que os crimes raciais estavam a aumentar nos EUA. Problema: rapidamente as autoridades revelaram que os suspeitos do ataque eram Ola e Bola Osundairo, figurantes na série Empire, conhecidos de Smollett. Teriam sido contratados pelo ator para simular uma agressão. O objetivo seria o ator transformar-se no rosto da luta contra os crimes raciais.
O ator acabou acusado de mentir à justiça e de não colaborar. Fez um acordo com a procuradoria para não ser processado para, pouco depois, ser novamente acusado. Foi julgado e condenado — cumpriu seis dias dos 150 da pena. Em 2024 o Supremo Tribunal anulou a condenação, mas não exonerou Jussie Smollett, que continua a manter a sua inocência. Diz ele que a polícia de Chicago (com um historial bastante negro também) é corrupta e tentou incriminá-lo, fazendo um acordo com os irmãos Ola e Bola Osundairo em troca de imunidade num caso de posse de armas.
[o trailer de “A Verdade Sobre Jussie Smollett?”:]
A história dá muitas voltas, umas mais estapafúrdias do que outras. Há entrevistas de quem defenda um lado e de quem defenda o outro. O próprio Jussie Smollett é entrevistado, assim como a advogada que o defendeu. Do outro lado estão agentes da Polícia de Chicago e os dois irmãos que garantiram ter sido pagos pelo ator para encenarem o ataque. Há ainda depoimentos de uma produtora britânica e de uma jornalista freelance, duas mulheres que quiseram investigar para lá das provas apresentadas em tribunal. No final pode haver inúmeras conclusões, mas aqui fica o que descobrimos com A Verdade Sobre Jussie Smollett?.
A corda: arma do crime ou adereço?
Quando a polícia chegou ao apartamento de Jussie Smollett, este ainda envergava a corda que os agressores lhe teriam posto à volta do pescoço — como se fossem enforcá-lo. Os agentes pediram ao ator que a retirasse. Ele obedeceu dobrando a corda e colocando-a cuidadosamente em cima do balcão da cozinha. Para os agentes, esse foi um sinal de alerta.
“A minha família é do sul profundo do Alabama [um estado historicamente racista e local de linchamentos], portanto vi algumas coisas enquanto crescia. Não conheço muitas pessoas negras que, se tivessem um nó à volta do pescoço, o deixassem lá. Iam tratá-lo com desdém e repulsa”, diz Eddie Johnson, superintendente da polícia na época dos factos.
Em resposta a isto, no documentário Jussie Smollett diz que retirou a corda do pescoço logo após a agressão, mas que voltou a colocá-la antes da chegada dos agentes para demonstrar o que tinha acontecido.
O saco com a sandes que o ator tinha ido comprar também estava intacto, mesmo depois da suposta agressão, de o ator ter ficado caído no chão e de ter sido regado com lixívia, denunciam os detetives envolvidos no caso.
O que escondia no telefone?
O ator não quis entregar o telefone às autoridades quando estas o solicitaram. A polícia achou estranho e foi aí que a falta de colaboração de Smollett se transformou num problema sério. O ator garante que só não entregou o dispositivo porque “não queria divulgar o consumo de drogas”. E sobre isso nada mais é dito, a não ser que teria pedido esteroides aos irmãos Ola e Bola.
Polícia pouco credível
Má conduta, abusos de poder, venda de droga, etc — tudo isto cabe no historial da polícia de Chicago. Quatro anos antes do caso de Smollett, as autoridades tentaram fazer desaparecer imagens das câmaras dos uniformes dos agentes que mostraram um rapaz de 17 anos, Laquan McDonald, a ser alvejado 16 vezes
Os dois casos não têm comparação possível, mas este episódio é recuperado para apontar o dedo à polícia da cidade. Também Eddie Johnson, superintendente em 2019, foi despedido posteriormente por beber durante o horário de trabalho, lembra o documentário.
Um acordo com a polícia?
“Chegaram-me imagens que não era suposto eu ter visto, que não era suposto vocês verem”, diz Abigail Carr, produtora britânica que se interessou pelo caso. Refere-se a um vídeo captado numa sala da esquadra onde os irmãos Osundairo foram inicialmente detidos. Além deles os dois, estão presentes a advogada de ambos e alguns detetives. Todos parecem discutir os moldes de um acordo.
Qual o interesse das personagens Osundairo?
Bola Osundairo descreve-se como modelo, pugilista e “um ser humano extraordinário em todos os aspetos”. O irmão, Ola, diz ser ator e instrutor de fitness. Os irmãos já tinham cadastro e, mesmo assim, a casa onde viviam estava cheia de armas. Essa terá sido, segundo uma das teorias, a moeda de troca perfeita: a polícia não avançava com uma acusação e selava os registos anteriores (não convinha a aspirantes a atores terem um passado duvidoso) se os Osundairo dissessem que Jussie Smollett os tinha contratado para o ataque. E os dois homens nem estranharam assim tanto o pedido para simular um ataque, já que, dizem eles, “achamos que era assim que se fazia em Hollywood”.
▲ Os irmãos Ola e Bola Osundairo terão recebido 3500 dólares para agredir o ator
Courtesy of Netflix
Para que era o cheque de 3500 dólares?
Jussie Smollett passou um cheque de 3500 como pagamento aos irmãos. Isso ninguém nega, o que difere é o motivo. Os Osundairo dizem que o valor serviu para pagar a falsa tareia, enquanto Smollett garante, “com vergonha”, que o dinheiro serviria para pagar esteroides para queimar gordura abdominal que eram ilegais nos EUA e que os irmãos trariam da Nigéria (para onde viajaram convenientemente no dia após a agressão).
Um vídeo com 10 segundos em falta
Duas testemunhas corroboram o relato de Jussie Smollett. A primeira, uma vizinha, teria passeado os cães umas horas antes e avistado um homem na rua, caucasiano, “com uma corda a sair-lhe do bolso”. A segunda testemunha, Anthony Moore, era segurança no hotel Sheraton e uma das rondas dele terá coincidido com o momento em que dois homens passam a correr pela rua — o segurança terá virado a lanterna para a cara de um deles, que era caucasiano. As câmaras de vigilância do interior do hotel mostram efetivamente Moore a dirigir-se para a porta, mas quando esta é aberta, o vídeo avança inexplicavelmente dez segundos, altura em que o homem em fuga já se vê mais à frente. Se Moore viu ou não claramente a cara do suposto agressor nunca saberemos.
E um vídeo que mostra um homem branco em fuga
A produtora inglesa Abigail Carr e uma jornalista do Maine, Chelli Stanley (ambas creditadas no documentário como produtoras consultoras) descobriram imagens supostamente inéditas. Nelas, garantem, vê-se “claramente um homem branco” em fuga. A conclusão não é assim tão linear: o vídeo não é nítido, a imagem tem grão e jurar, a pés juntos, qual o tom de pele do homem que surge no ecrã não passa de mera suposição. O próprio Anthony Moore, que terá visto nitidamente a cara do agressor, caucasiano, diz que o homem é negro quando lhe é mostrado o vídeo.
Há mais alguma pista baseada nos relatos das testemunhas?
Nada. Numa das noites mais frias da cidade de Chicago, com as ruas cobertas de neve, e às duas da manhã, havia muito poucas pessoas no exterior. Diz a polícia que só existem dois homens vestidos de preto vistos nas diversas câmaras de segurança e que só houve uma viagem de táxi registada na zona. Os passageiros seriam os irmãos Osundairo.
O que aconteceu aos intervenientes?
Os irmãos Ola e Bola preparam-se para editar um livro sobre a história, dizem eles — cujo nome não se recordam. Há até uma espécie de bloopers onde são captados a tentar dizer o título correto.
Já Jussie Smollett, que durante muito tempo foi conhecido pelo papel em Empire, é agora primeiramente associado a este acontecimento — e não é este documentário que demonstra a sua inocência no meio desta trapalhada toda. Entretanto, tem um novo álbum de R&B e prepara-se para competir no programa Special Forces: World’s Toughest Test, do canal Fox.