O couro retorcido imita as cordas e nós usados para ancorar os barcos. A inspiração é na navegadora irlandesa Grace O’Malley, também chamada “rainha dos piratas” no século XVI, famosa por ser uma das únicas mulheres a velejar com os homens. “Chegou a rapar a cabeça para ficar parecida com um homem e mostrou-se sempre muito forte. Foi uma inspiração, porque quero que as pessoas se sintam empoderadas ao usarem os nossos sapatos”, explica ao Observador Danieli Bergin, a designer brasileira por trás da marca irlandesa Bróg, um dos 12 destaques escolhidos entre novos criadores de todo o mundo para integrarem a área de Designers Emergentes da MICAM, a maior feira de calçados internacional, realizada em Milão de 7 a 9 de setembro.
▲ A brasileira Danieli Bergin criou a Bróg na Irlanda -- mas a produção é em Vila Nova de Gaia
MARIA ELISA FERR
Bróg é uma palavra céltica que quer dizer sapato. O formato do acento, típico irlandês, está aplicado na sola e na parte de cima de todas as peças da marca, que tem como valores a elegância, a tradição irlandesa e o empoderamento. “Moro na Irlanda já há quase 20 anos. E sempre fui apaixonada por moda. Fiz alguns cursos no Brasil, fiz um curso em Londres, na Central Saint Martins. Tive a oportunidade, na verdade, de trabalhar com um artesão italiano, e foi aí que tudo começou. Aprendi bastante sobre todo o processo de produção, como fazer um salto, como fazer uma sola. E tudo começou na Itália, há uns cinco anos. Mas a minha marca iniciou há dois anos na Irlanda”, conta Danieli.
A nova coleção apresentada no evento tem sapatos em pele em que “as tiras e o nó dão suporte para o pé, da mesma forma com que a navegadora ancorava os barcos”. Artigos que têm como público final clientes irlandesas, mas não só. Fora da Europa, o meu maior público é dos Emirados Árabes. Fomos para Abu Dhabi no começo do ano e a marca foi bem vista, valorizam muito um novo design, querem ser os primeiros a lançar o produto, gostam da inovação”, destaca Danieli.
Outros detalhes assinatura dos sapatos são as peças metálicas, assimétricas, posicionadas nos bicos e saltos. “Escolhemos fazer os moldes em ABS, que é um material plástico mais resistente, duro, mas leve. E este material é lacado com uma película bem fina de ferro. O sapato com ABS é muito mais leve, gera um conforto e praticidade. Também temos duas camadas de espuma, para dar conforto”, descreve a designer, que produz numa fábrica em Vila Nova de Gaia. “Viajo com frequência para o Porto, geralmente fico dois dias para ver como está a produção”, conta. “A qualidade dos sapatos portugueses é muito boa. Já cheguei a fazer alguns testes na Espanha e identificámos que a qualidade para artigos premium label de Portugal é a melhor opção. Temos uma relação muito boa com a nossa fábrica no momento. É uma fábrica grande, produz mil pares de sapatos por dia, mas a qualidade é justamente o que estávamos à procura.”
A febre do estilo coreano
Entre os 12 designers escolhidos há duas coreanas, o que reflete a febre que começa pelo K-Pop e invade as redes sociais com tendências de beleza, design e moda. É o caso de Soo JinKim, da Then, marca que já é um sucesso nas redes sociais, principalmente entre as it girls coreanas. Entre as peças virais estão botas oversized até os joelhos e sapatilhas estilo bailarina. Mas o ADN da marca está mesmo nos entrançados na diagonal. “Inspiro-me na arquitetura e na natureza”, explica a designer, que começou a carreira na moda numa marca de roupas internacional. “Em 2018 os meus designs de sapatos foram vendidos para Nova Iorque numa grande quantidade e então pensei que seria um bom momento para lançar a marca”, conta-nos. Calçado feito à mão na Coreia, mas que já chegou ao mundo todo. “Em setembro estive em Paris para a minha primeira exposição e foi quando conheci muitos italianos que gostaram dos meus designs. Na última semana abri uma pop up no Marais, em Paris. Também estou a vender uma linha numa loja em Londres e tenho outra coleção nos EUA.”
▲ A ,Then e a Nuosmiq são as duas marcas coreanas escolhidas pela organização da MICAM
MARIA ELISA FERR
Alguns metros ao lado, a Nuosmiq expôs algumas das suas coleções sustentáveis. Sapatos com saltos feitos com tampas de garrafas plásticas recicladas e o tecido de uniformes de bombeiros são algumas das soluções apresentadas pela designer e fundadora da marca, Hee Sung Qim. “Trabalhei numa empresa de calçados na Coreia por 10 anos. Antes o trabalho era o oposto, comprávamos os materiais e depois que o produto estava pronto descartávamos o resto. Mas depois de alguns anos a trabalhar assim, quis transformar o meu trabalho em algo com consciência. Então foquei neste tipo de produto mais sustentável”, explica ao Observador. Além da matéria prima reciclada, a marca doa 1% dos lucros para uma organização não governamental e colabora com outras iniciativas ambientais na Coreia, incluindo formações sobre como criar produtos com materiais mais sustentáveis. Já a nível de design, o estilo segue a moda coreana, com loafers, sabrinas estilo boneca e botas pesadas.
Formas femininas em sapatos
Vindo da Nigéria, Chukwuma Ekwerike trouxe a sua Wuman para a MICAM. A marca, fundada em 2013, nasceu de uma inspiração artística do designer ainda na faculdade, que nada tinha a ver com moda. “Sempre quis me expressar, sou um artista e adoro criar, desenhar e escrever. Na universidade estudava medicina, e tinha muito interesse nas aulas de anatomia. Vi-me no meio do curso a desenhar muito as formas femininas. E então, aos poucos, os desenhos transformaram-se em formas mais abstratas e decidi expressar-me através dos têxteis”. Ekwerike passou a criar roupas que transmitiam a sua arte. “A minha primeira intenção não era vender mas quando as pessoas começaram a ver-me com as minhas roupas começaram a perguntar onde comprei ou quem fez, e eu dizia que tinha sido eu.”
▲ A Wuman, da Nigéria, tem calçados sem género inspirados nas formas femininas
MARIA ELISA FERR
Nos sapatos, a forma feminina é bastante presente, traduzida em moldes que servem tanto homens quanto mulheres, com tecidos variados e cores vivas. “Tenho muito que me inspira. Música, cultura, conversas, coisas que observo, mas as formas femininas permaneceram comigo, como fonte de inspiração, por muito tempo.” Calçado feito à mão na Nigéria, mas que também chegam, aos poucos, ao resto do mundo. “Estar na MICAM é uma grande oportunidade. Passei o dia todo a falar, gostei muito. Como marca de moda vendemos para a Itália, Kuwait, tivemos pop-ups em Paris e Estocolmo”.
O Observador viajou até Milão a convite da APICCAPS — Associação Portuguesa de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos.