Ator, realizador, fundador de um dos mais reputados festivais de cinema do mundo (tenhamos aqui em conta a importância de Sundance na indústria, sobretudo nos circuitos, agentes e produções independentes), ativista ambiental, galã, eterno ideal de beleza aparentemente inevitável e nunca preocupada, lenda de filmes que continuam a fazer história, de cada vez que uma nova geração os encontra. Tudo resumido, em duas palavras: Robert Redford, que morreu esta terça-feira, 16 de setembro. Tinha 89 anos. A informação foi avançada pela agência que o representava, detalhando apenas que morreu enquanto dormia na sua casa no Utah, noticiou o New York Times.
Ainda em formato síntese: Perseguição Impiedosa, Butch Cassidy and the Sundance Kid, (ou Dois Homens e um Destino, respeitando a tradução e muito menos a pose) Os Rivais, O Nosso Amor de Ontem (ou The Way We Were e a magia de em 1973 ver Redford e Streisand juntos, ainda hoje agradecemos por isso) A Golpada, O Grande Gatsby (e as opiniões contraditórias que gerou), Os Homens do Presidente, África Minha, Proposta Indecente (e o sucesso comercial que alcançou), Peões em Jogo, Regra de Silêncio. Títulos que fizeram de Redford uma estrela e que fez porque era uma estrela. Títulos que Redford transformou em cânone e que o alavancaram a seguir outros enredos. Filmes que traduzem a visão americana de uma estrela de cinema consciente do país que levava para o ecrã: uma América construída pela vontade, pela força que podia ser física, imposta, mas que também se servia mais subtil, manipulada, construída nos bastidores. Com o valor da imagem sempre muito presente — o que a “gente bonita” consegue, o que um bom vendedor alcança, o que um bullshitter profissional traduz em resultados. Acima de tudo, com classe. Aliás, com mais classe (leia-se beleza, sem meias palavras) do que qualquer um outro, numa altura em que mesmos os mais sexy dos atores eram sempre rudes. Redford era o classicamente perfeito.
▲ "Dois Homens e um Destino" (com Paul Newman, 1969) e "A Golpada" (1973)
Mas também se revelou um clássico rebelde contra o que seria mais expectável de uma estrela como ele próprio era. Como realizador, lançou-se em 1980, quando filmou Gente Vulgar, com Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Judd Hirsch e Timothy Hutton: a viagem de uma família rumo à tragédia, após a morte de um filho e a iminente desgraça de outro. Outra vez, a América mais privada a servir de montra para o país vasto que Redford parecia amar e questionar na mesma medida. Se muitos insistiram na inevitabilidade de vendê-lo como sex symbol, sobretudo entre as décadas de 60 e 70 e na passagem da TV para o cinema, Redford foi resistindo (nem sempre com muito esforço ou grande sucesso, convenhamos) até onde as evidências permitiam, ganhou a luta assim que a voz conquistada assim permitiu — mais ainda quando tomou as rédeas da realização. Nesse mesmo filme de 1980, vai aos Óscares e ganha quatro, incluindo Melhor Filme (contra Touro Enraivecido, de Martin Scorsese, atentemos ao desplante em causa) e Melhor Realizador.
Duas Vidas e Um Rio, Quiz Show, O Encantador de Cavalos, A Lenda de Bagger Vance, A Conspiradora: quando dirigia, lá estava ele, a ser insistentemente americano, nas famílias de caminhos tortuosos, na sociedade construída em frente à televisão, na herança dos cowboys fundadores ou na política, difícil, agressiva, inexoravelmente sedutora. Pouco dado a facilidades que outros formatos lhe poderiam garantir enquanto realizador, oscarizado, célebre por todas as razões, este americano insatisfeito pegou num festival de cinema que já existia e em Park City, Utah, deu-lhe o nome de Sundance, virando-o contra a própria Hollywood que o criou, dando espaço a quem não o tinha, sendo assumidamente independente e construindo um valor raro no circuito cinéfilo mundial (de tal forma que o sucesso evento, com correspondente pressão nos números, do público às marcas, o deixou desconfortável com o caminho feito). A prioridade que dava à revelação de documentários, muitas vezes sobre temas desconfortáveis, difíceis e fraturantes, continua a ser matéria de referência e reverência.
▲ "Os Homens do Presidente (com Dustin Hoffman, 1976) e "África Minha" (1985)
De volta ao Utah: ali tinha morada há décadas, tradicionalmente associado à Igreja de Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o estado mormon, como é tantas vezes chamado. Foi precisamente com uma mormon que casou, Lola Van Wagenen, em 1958. Deixou assim a Califórnia onde nasceu (em 1936, registado como Charles Robert Redford), onde foi mais ou menos gandim, na companhia dos filhos de gente que já ia mandando nas coisas do espectáculo, de gente que lhe foi dando primeiros papéis primeiras hipóteses, como as que foi recolhendo na Broadway. Foi também aqui que em 1963 conquistou o lugar principal em Barefoot in the Park, de Neil Simon. Em 1965 estreia-se no cinema ao lado de Natalie Wood, em Inside Daisy Clover, de onde saiu com uma nomeação para um Globo de Ouro. Quatro anos depois, era ele o rapaz Sundance, ao lado de Paul Newman e o resto foi como tinha de ser.
Ainda com Lola Van Wagenen: teve quatro filhos, dois dos quais morreram. Em meados da década de 80, divorcia-se. Novo casamento só em 2009, com Sibylle Szaggars, artista que conheceu em Sundance, também ela dedicada ao ativismo ambiental. Escrevemos “também”, mas se não chamassem “ativista” a Redford ele agradeceria, diria que não o era, recusaria o título e continuaria os mais distante possível de qualquer tipo de mediatismo. Mas digamo-lo: era um ativista ambiental, desiludido que ficou, desde cedo, com as poucas possibilidades que eventuais posições políticas tinham de concretizar algum tipo de mudança. Já em 1970 lutara contra uma auto-estrada de seis faixas no Utah. Lutaria contra centrais elétricas a carvão, seria membro do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais durante décadas, deu voz a documentários sobre a defesa do planeta, fundou em 2005 o Redford Institute, com o filho, James (que haveria de morrer aos 58 anos, em 2020).
▲ "Proposta Indecente" (com Demi Moore, 1993) e "Peões em Jogo" (2007)
Em 2013 foi um homem sozinho em luta contra um náufrago, em Quando Tudo Está Perdido (quase sem diálogos, numa produção que levou Redford, aos 75 anos, a passar boa parte da rodagem num tanque de água gigante). E entre os últimos papéis de Robert Redford contam-se os que desempenhou em Nós ao Anoitecer, com Jane Fonda (2017) e O Cavalheiro com Arma, realizado por David Lowery (2018). Deixou a representação ao mesmo tempo que perdeu a capacidade física de assegurar um trabalho bem feito, ainda que tenha insistido para lá do que era suposto na função, consequências de finanças problemáticas, com a marca Sundance a complicar as contas, mais do que torná-las vantajosas. Redford negociou, renegociou, fez render direitos, desistiu da cadeia de salas de cinema que planeava e vendeu mesmo o seu Sundance Mountain Resort.
Na nota que confirmou a morte de Robert Redford aos media, poucos detalhes. Não foi indicada causa de morte. Morreu em casa, “em Sundance nas montanhas de Utah — o local que ele amava, rodeado daqueles que amava” .