Carmen Maria Machado é uma autora multipremiada, assim como este Na casa dos sonhos, cujo original foi publicado em 2020. Em Portugal, já tinha sido publicado O corpo dela e outras partes, que levou com uma chuva de elogios da crítica e do público. Ambos os livros têm selo da Alfaguara e ambos foram traduzidos por Tânia Ganho. Com tudo isto em cima da mesa, seria natural que a expectativa sobre Na casa dos sonhos fosse alta.
Neste livro, que é de memórias, a autora foca-se numa relação sua com uma mulher que, em teoria, é carismática. Menciona-se a teoria porque ao longo de mais de 300 páginas não se vê a prática. É comum, nas publicações coetâneas que versam o “eu”, que a ligação emocional de quem escreve mate tudo o que há à volta – no caso, mata a figura do leitor, que anda ali meio perdido, sem saber com que contar, sem saber bem quem é o quê, sem saber bem porque é que lhe são atirados alguns toques da intimidade alheia.
Grande parte do livro versa sobre questões de sexualidade, com a autora a fugir da história que quer contar para fazer considerações alargadas, que destoam no texto, que dificilmente passam de generalizações e que dispersam a atenção de quem lê. No cerne, está a volatilidade da namorada da autora/narradora, que fica clara para o leitor, embora os motivos lhe sejam estranhos. No meio de tanta prosa, a pessoa-personagem nunca fica bem construída. Nunca conseguimos adentrar-nos no que pensa, no que sente. As irrupções de fúria parecem nascer por geração espontânea, não se entende bem o crescendo, e há demasiados espaços em branco que a prosa não só não preenche como não instrumentaliza para que o leitor possa preencher.
Em capítulos curtos, quase em flashes, a autora opta por uma estrutura fácil, em que a segunda pessoa no presente do indicativo predomina. À medida que as páginas vão caindo, saltam à vista os comentários sexuais despropositados. Destoam na prosa, destoam no seguimento da ideia, destoam até na utilização da linguagem. São os únicos momentos em que a autora recorre ao vernáculo. De resto, mete-nos na cama com ela e a namorada, mas não percebemos bem o que estamos lá a fazer.
Livro: “Na Casa dos Sonhos”
Autora: Carmen Maria Machado
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara
Páginas: 336
A cama é demasiado pequena para nós os três, e à medida que lemos a autora descobre-se com o lençol e nós queremos cobrir-nos com um cobertor noutra divisão da casa – talvez até noutro prédio. É que a intimidade que nos é atirada é uma espécie de auto-devassa, de extimidade. Não serve para nada – não compõe a personagem, não nos permite conhecer ninguém melhor, não tem qualquer papel na acção. Está ali só para marcar presença, e o leitor fica a saber que a narradora gosta disto ou daquilo sem saber o que fazer com essa informação que tem nas mãos.
Ao longo da leitura, os comentários reincidentes sobre “queerness” são aborrecidos, com a autora a procurar a diferença, a espetá-la no texto com um martelo. Há até um mecânico que “repara nos níveis insuportáveis de queerness”, que é uma marosca para dizer que ele vê com desconforto duas mulheres aos beijinhos, mas a autora prefere ir pela generalização, pelo estranhamento, pela imposição de uma conclusão ao leitor – ao invés da história clara que permitirá a quem lê concluir o que entender. Claro que tudo isto atinge o seu expoente máximo quando a autora inventa a homossexualidade de um leão dos desenhos animados.
Mencionando um “desfile de vagabundos vaidosos e efeminados” (p. 76), eis o Scar do Rei Leão, esse que matou o irmão Mufasa e convenceu o sobrinho Simba de que tinha nas mãos o sangue do pai. Tal não bastará para o fazer vilão, a ele que queria dominar a savana com as hienas e que deixou toda a pradaria à fome. Claro que não: se Scar era tão mau, não havia, pela óptica da autora, como não ser efeminado ou “queer”. Ora, mesmo sendo ele tão perverso, ela não deixa de o “adorar”. Repare-se nisto: “embora eu reconheça o problema intelectualmente, o sistema de códigos, a maneira como a vilania e a queerness se tornam uma espécie de estenografia uma da outra, não consigo deixar de adorar esses vilões queer ficcionais” (p. 76).
Talvez seja a primeira vez que alguém usa a palavra “estenografia” para comentar o Rei Leão – quanto mais a recém-inventada orientação sexual de umas das personagens –, mas o que mais espanta é que se pegue numa teoria e se tente meter a realidade lá dentro. Ora, todo o livro é isto. Em vez de descrever – ou escrever, vá – uma relação, temos um sistema de análise escarrapachado, com notas de rodapé que encaminham o leitor para uma bibliografia escusada, e em que a autora diz e repete, meras páginas depois de dizer que os mauzões da Disney são gays, que, pasme-se, “queer não é sinónimo de bem ou de puro ou de certo”. É de uma infantilidade que faz doer o pâncreas, e a autora continua neste registo, sempre a afastar o leitor da história que, em teoria, tinha para contar e que motiva o livro – daí o título.
Cedo na leitura se percebe que a experiência é e será constrangedora, com uma autora que, aqui e ali, parece confundir o papel com o divã. O que mais perturba, além da relação desestruturada, mal explicada, que não permite a empatia do leitor, é que a generalização não amansa, ficando o leitor a perguntar-se se Carmen Maria Machado sabe contar uma história – ou sequer se tem uma para contar. É que, em vez de mergulharmos no que nos promete a sinopse (a violência, a autópsia de uma relação), saltamos de generalização em generalização, com a autora a ir buscar teorias que transformam a história – o cerne do livro – num pretexto. Assim sendo, parece que o livro quase passava bem sem ela. Aqui e ali, vamos assistindo a partes do referido abuso, de uma relação tóxica, mas tudo nos sabe a coisa ao longe, porque nos momentos em que a autora nos põe perto só nos consegue afastar. Continuamos sem saber quem é uma e outra. Continuamos sem perceber o que fazer com a intimidade alheia.
De resto, fora os momentos em que o vernáculo destoa, a prosa é limpa e escorreita, embora a estrutura do livro fique a dever muito a tudo o que vinha prometido ou seria esperado. Na casa dos sonhos é, por isso, mais um caso em que a auto-ficção se perde: focado no trauma, no ego, no umbigo da autora, esqueceu-se que do outro lado há alguém a ler.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico