Os jogadores de futebol americano estão sujeitos à análise de muitos dados. É algo a que são expostos desde tenra idade e que os define — não enquanto “jogadores”, mas enquanto “talentos”. Ou seja, muito antes de chegarem à universidade, já são analisados segundo vários parâmetros que servem também para consulta futura de quem muitas vezes nem os viu jogar e toma decisões com base numa folha de excel.
Pode-se dizer que isto é frio e que os dados geram preconceito, porque não medem aquilo que não se pode medir. Os norte-americanos têm uma palavra para isso, como se cada pessoa fosse apenas um acumular de dados: “intangibles”. Intangível, aquilo que não pode ser medido, aquilo que alguém é, ou pode dar, para lá de um sem número de métricas. Há muitos jogadores com “intangibles”, pois há. O que seria do mundo, do jogo, do desporto, se não houvesse.
As séries de televisão também têm esses “intangibles”. Pode-se enfiar tudo numa sinopse, tudo tem uma fórmula, há uma série de regras que é preciso cumprir, tipos de público que é preciso satisfazer — ou almejar satisfazer —, mas também há fatores que ultrapassam a lógica ou a combinação de lógicas. Chad Powers é uma série que, na base, tenta simular um Ted Lasso. Só que há algo na visão e na linguagem que a leva para lá de uma comédia de desporto.
Repetir Ted Lasso é algo que tem sido tentado. Falta comédia leve e boa de trinta minutos no streaming e o desporto é algo que agrada a muitos e que potencia uma série de situações. Problema: não há assim tanta boa ficção em volta do desporto. Ted Lasso foi uma anomalia, a Apple TV+ tentou replicar a coisa neste ano, com Owen Wilson em Stick (tem alguma graça, mas não toca no mesmo nervo) e agora a Hulu/Disney+ arriscam a sorte.
[o trailer de “Chad Powers”:]
Ted Lasso nasceu de uma personagem que Jason Sudeikis criou para um promo da NBC para a Premier League. Chad Powers é uma criação humorística de Eli Manning, ex-quarterback dos New York Giants (ganhou dois Super Bowl), para a ESPN, na qual usava uma prótese e inscrevia-se em treinos de captação de equipas universitárias. A ideia agradou a Glen Powell, o ator, e Michael Waldron, produtor e argumentista de Rick and Morty (e com muitos créditos na Marvel, entre os quais o argumento do próximo Avengers). Ambos resolveram levar Chad Powers para a televisão com a seguinte ideia: e se um quarterback com uma carreira falhada tentasse uma nova com outra identidade? É a partir desta ideia que nasce a personagem que Glen Powell protagoniza.
Um dos “intangibles” é mesmo o ator. Glen Powell tem feito carreira entre a ação e a comédia. Nos últimos anos ganhou outro estatuto, com Top Gun: Maverick, Twisters, Hit Man e já este ano com Running Man. Em princípio, não precisaria de complementar a agenda com ideias de comédia, mas fê-lo, correndo o risco e dando, em simultâneo, o tom de credibilidade que Chad Powers precisa. Tal como o Ted Lasso de Jason Sudeikis, esta ideia de Chad Powers precisa de uma interpretação que vá para lá daquilo que é óbvio. Glen Powell é uma cara bonita, sim, e dá uso a disso — já lá vamos —, mas também se sabe dispor a que se riam dele. É de louvar que aconteça, até pelos tempos em que não aconteceu.
Na série, antes de Chad Powers, há Russ Holliday. Holliday é o arquétipo do quarterback talentoso com que a NFL e os média norte-americanos sonham. Atlético, talentoso, bonito e com aquela qualidade que não se diz mas que é verdade: pretty white boy. A série começa aí. Última jogada do jogo, Ross tem nas mãos a decisão do jogo (está empatado), resolve não passar e arranca para uma corrida triunfante a caminho do touchdown. Faz aquela jogada de sonho, da qual se falará durante anos e anos, só que, quando está quase quase a chegar à endzone — onde se cumpre o grande objetivo da jogada —, deixa a bola cair imediatamente antes da meta. Estúpido? É. Pouco credível? Ainda há poucos dias aconteceu num jogo real da NFL. Bola no chão, bola viva, os adversários apanham a bola e correm na direção contrária. Marcam eles o touchdown.
Russ olha incrédulo para as projeções vídeo. As coisas já são más, tornam-se piores quando magoa o miúdo “make a wish“ com cancro que espera ansiosamente por um autógrafo. Salto para o futuro e Russ não teve uma carreira na NFL. Quando o conhecemos, conduz um Cybertruck (a ausência de carreira no desporto abriu-lhe outras oportunidades, como bem explica nessa cena) e está contentíssimo porque acaba de assinar um contrato com a XFL (liga paralela à NFL, na qual ninguém liga patavina). Não vamos explicar porquê, mas isso também não corre muito bem.
▲ Chad Powers de um lado, Russ Holliday do outro. Em comum? Um Glen Powell que está com a cotação no máximo
Sem a carreira de sonho, a viver em contínuo aqueles segundos em que destruiu tudo (passa a vida a ouvir relatos e a ver vídeos do momento), Russ está preso ao que poderia ter sido, enquanto se assume como sonho auto-destruído. É aqui que entra Chad Powers: Russ decide fugir, leva material do pai (Toby Huss, que trabalha em cinema e tem uma quantidade absurda de equipamento prostético em casa) e vai tentar uma nova vida com os Catfish de South Georgia (equipa inventada).
A proposta é absurda, claro. Até porque, para manter Chad ativo, Russ não pode levar com água na cara — destruiria a prótese — e tem de inventar toda uma nova identidade, documentos incluídos. É preciso saltar a facilidade com que isso acontece e aceitar o gozo que é Chad Powers: muito menos uma série de desporto e muito mais uma série — ou uma temporada — de seis episódios sobre segundas oportunidades.
E eis outro “intangible”. Chad Powers é uma comédia em volta do desporto, apanha bem os pequenos pormenores do futebol universitário — algo que escapará a quem desconhece essa realidade, mas não se morre por causa disso — e nunca aborrece em nenhum momento. Mas também é mais do que isso, é um gozo sobre a fórmula das segundas oportunidades. E se isso não é tangível de imediato, vai ficando à medida que a série se desenrola, sobretudo no episódio final, quando a ideia de segundas oportunidades é esticada ao limite, para lá da credulidade.
Como sucedâneo de Ted Lasso, satisfaz, mas é muito melhor como paródia de um formato televisivo que é transversal a géneros: o das novas tentativas, dos regressos, do “agora é que vai ser”. Glen Powell faz maravilhas na pele do tal pretty white boy Russ Holliday e enquanto Chad Powers tem um braço de sonho e é o quarterback que os Catfish desejavam há décadas. Vale muito a pena ver. Até porque há poucas comédias boas e esta só tem seis episódios.