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"Chad Powers": na realidade é absurdo, na ficção é um "touchdown"

Este artigo tem mais de 6 meses

A série falha em repetir o fenómeno "Ted Lasso" porque não é esse o objetivo. É, isso sim, uma paródia brilhante a um certo tipo de narrativa de entretenimento. Para ver na Disney+.

Glen Powell faz maravilhas na pele do "pretty white boy" Russ Holliday e enquanto Chad Powers tem um braço de sonho e é o quarterback que os Catfish desejavam há décadas
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Glen Powell faz maravilhas na pele do "pretty white boy" Russ Holliday e enquanto Chad Powers tem um braço de sonho e é o quarterback que os Catfish desejavam há décadas

Glen Powell faz maravilhas na pele do "pretty white boy" Russ Holliday e enquanto Chad Powers tem um braço de sonho e é o quarterback que os Catfish desejavam há décadas

Os jogadores de futebol americano estão sujeitos à análise de muitos dados. É algo a que são expostos desde tenra idade e que os define — não enquanto “jogadores”, mas enquanto “talentos”. Ou seja, muito antes de chegarem à universidade, já são analisados segundo vários parâmetros que servem também para consulta futura de quem muitas vezes nem os viu jogar e toma decisões com base numa folha de excel.

Pode-se dizer que isto é frio e que os dados geram preconceito, porque não medem aquilo que não se pode medir. Os norte-americanos têm uma palavra para isso, como se cada pessoa fosse apenas um acumular de dados: “intangibles”. Intangível, aquilo que não pode ser medido, aquilo que alguém é, ou pode dar, para lá de um sem número de métricas. Há muitos jogadores com “intangibles”, pois há. O que seria do mundo, do jogo, do desporto, se não houvesse.

As séries de televisão também têm esses “intangibles”. Pode-se enfiar tudo numa sinopse, tudo tem uma fórmula, há uma série de regras que é preciso cumprir, tipos de público que é preciso satisfazer — ou almejar satisfazer —, mas também há fatores que ultrapassam a lógica ou a combinação de lógicas. Chad Powers é uma série que, na base, tenta simular um Ted Lasso. Só que há algo na visão e na linguagem que a leva para lá de uma comédia de desporto.

Repetir Ted Lasso é algo que tem sido tentado. Falta comédia leve e boa de trinta minutos no streaming e o desporto é algo que agrada a muitos e que potencia uma série de situações. Problema: não há assim tanta boa ficção em volta do desporto. Ted Lasso foi uma anomalia, a Apple TV+ tentou replicar a coisa neste ano, com Owen Wilson em Stick (tem alguma graça, mas não toca no mesmo nervo) e agora a Hulu/Disney+ arriscam a sorte.

[o trailer de “Chad Powers”:]

Ted Lasso nasceu de uma personagem que Jason Sudeikis criou para um promo da NBC para a Premier League. Chad Powers é uma criação humorística de Eli Manning, ex-quarterback dos New York Giants (ganhou dois Super Bowl), para a ESPN, na qual usava uma prótese e inscrevia-se em treinos de captação de equipas universitárias. A ideia agradou a Glen Powell, o ator, e Michael Waldron, produtor e argumentista de Rick and Morty (e com muitos créditos na Marvel, entre os quais o argumento do próximo Avengers). Ambos resolveram levar Chad Powers para a televisão com a seguinte ideia: e se um quarterback com uma carreira falhada tentasse uma nova com outra identidade? É a partir desta ideia que nasce a personagem que Glen Powell protagoniza.

Um dos “intangibles” é mesmo o ator. Glen Powell tem feito carreira entre a ação e a comédia. Nos últimos anos ganhou outro estatuto, com Top Gun: Maverick, Twisters, Hit Man e já este ano com Running Man. Em princípio, não precisaria de complementar a agenda com ideias de comédia, mas fê-lo, correndo o risco e dando, em simultâneo, o tom de credibilidade que Chad Powers precisa. Tal como o Ted Lasso de Jason Sudeikis, esta ideia de Chad Powers precisa de uma interpretação que vá para lá daquilo que é óbvio. Glen Powell é uma cara bonita, sim, e dá uso a disso — já lá vamos —, mas também se sabe dispor a que se riam dele. É de louvar que aconteça, até pelos tempos em que não aconteceu.

Na série, antes de Chad Powers, há Russ Holliday. Holliday é o arquétipo do quarterback talentoso com que a NFL e os média norte-americanos sonham. Atlético, talentoso, bonito e com aquela qualidade que não se diz mas que é verdade: pretty white boy. A série começa aí. Última jogada do jogo, Ross tem nas mãos a decisão do jogo (está empatado), resolve não passar e arranca para uma corrida triunfante a caminho do touchdown. Faz aquela jogada de sonho, da qual se falará durante anos e anos, só que, quando está quase quase a chegar à endzone — onde se cumpre o grande objetivo da jogada —, deixa a bola cair imediatamente antes da meta. Estúpido? É. Pouco credível? Ainda há poucos dias aconteceu num jogo real da NFL. Bola no chão, bola viva, os adversários apanham a bola e correm na direção contrária. Marcam eles o touchdown.

Russ olha incrédulo para as projeções vídeo. As coisas já são más, tornam-se piores quando magoa o miúdo “make a wish“ com cancro que espera ansiosamente por um autógrafo. Salto para o futuro e Russ não teve uma carreira na NFL. Quando o conhecemos, conduz um Cybertruck (a ausência de carreira no desporto abriu-lhe outras oportunidades, como bem explica nessa cena) e está contentíssimo porque acaba de assinar um contrato com a XFL (liga paralela à NFL, na qual ninguém liga patavina). Não vamos explicar porquê, mas isso também não corre muito bem.

Chad Powers de um lado, Russ Holliday do outro. Em comum? Um Glen Powell que está com a cotação no máximo

Sem a carreira de sonho, a viver em contínuo aqueles segundos em que destruiu tudo (passa a vida a ouvir relatos e a ver vídeos do momento), Russ está preso ao que poderia ter sido, enquanto se assume como sonho auto-destruído. É aqui que entra Chad Powers: Russ decide fugir, leva material do pai (Toby Huss, que trabalha em cinema e tem uma quantidade absurda de equipamento prostético em casa) e vai tentar uma nova vida com os Catfish de South Georgia (equipa inventada).

A proposta é absurda, claro. Até porque, para manter Chad ativo, Russ não pode levar com água na cara — destruiria a prótese — e tem de inventar toda uma nova identidade, documentos incluídos. É preciso saltar a facilidade com que isso acontece e aceitar o gozo que é Chad Powers: muito menos uma série de desporto e muito mais uma série — ou uma temporada — de seis episódios sobre segundas oportunidades.

E eis outro “intangible”. Chad Powers é uma comédia em volta do desporto, apanha bem os pequenos pormenores do futebol universitário — algo que escapará a quem desconhece essa realidade, mas não se morre por causa disso — e nunca aborrece em nenhum momento. Mas também é mais do que isso, é um gozo sobre a fórmula das segundas oportunidades. E se isso não é tangível de imediato, vai ficando à medida que a série se desenrola, sobretudo no episódio final, quando a ideia de segundas oportunidades é esticada ao limite, para lá da credulidade.

Como sucedâneo de Ted Lasso, satisfaz, mas é muito melhor como paródia de um formato televisivo que é transversal a géneros: o das novas tentativas, dos regressos, do “agora é que vai ser”. Glen Powell faz maravilhas na pele do tal pretty white boy Russ Holliday e enquanto Chad Powers tem um braço de sonho e é o quarterback que os Catfish desejavam há décadas. Vale muito a pena ver. Até porque há poucas comédias boas e esta só tem seis episódios.

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