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O "O Vencedor É" na Rádio Observador e também no YouTube, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Gonçalo Doutel Sebado. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar de sondagens, das medidas que o governo ontem anunciou para apoio aos portugueses neste tempo em que estamos a bater recordes no que toca ao preço dos combustíveis. Ainda vamos falar da relação entre o presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco, e o líder do Chega, André Ventura. Mas Judite França, vamos começar pela questão das sondagens, olhando para o trabalho de recolha e comparação que fizemos aqui no Observador, a vida não está muito fácil para PSD e para Luís Montenegro.

Não está nada. Foram 35 vezes em segundo lugar ou mesmo em terceiro. Esse tal estudo que falavas, que foi feito em colaboração com Ricardo Reis, que é especialista em sondagens da Universidade Católica, é uma tendência que se agudiza em 2026, mas deixa-me também ir às sondagens que saíram nos últimos dias, porque também não são nada animadoras pra AD. Surge em terceiro lugar nos três estudos de opinião que foram divulgados nos últimos dois dias. Por exemplo, a segunda tracking poll da CNN Portugal, que tinha estreado no início de setembro, mostra uma distância ainda maior a favor do PS, de José Luís Carneiro. Portanto, os socialistas continuam em primeiro lugar e a subir. O Chega também sobe, a coligação AD cai. Pitagórica, o PS sobe, o Chega está muito próximo e a AD em terceiro e em queda. Olhando de forma transversal, de facto, mesmo quando a pergunta é quem seria o melhor primeiro-ministro, Carneiro agora está em 32% dos inquiridos e Luís Montenegro está praticamente colado, mas a descer. André Ventura vem aí, vem em terceiro lugar com 21%. Agora, à pergunta: mas há margem pra recuperar? Há sempre margem pra recuperar quando as eleições não estão marcadas. É evidente que essa é sempre a convicção por parte do governo e do parte do PSD, de que a coligação voltará a vencer e, portanto, há uma desvalorização das sondagens. Mas a verdade é que hoje o Expresso dizia uma coisa muito interessante, que é a direção do partido que começou por desprezar José Luís Carneiro como adversário, bem-entendido, já há vozes na cúpula social-democrata a reconhecer que tem peso político, que há peso político no atual líder do PS e que tem vindo a destacar-se nas sondagens. E, portanto, este reposicionamento acentuou-se sobretudo depois das eleições presidenciais e da vitória de António José Seguro na segunda volta. E o PSD, que tinha centrado o combate político em André Ventura, passou a olhar com outros olhos pra líder do Partido Socialista.

Gonçalo, que leitura fazes deste olhar muito abrangente sobre as sondagens das últimas décadas?

Eu acho que são um bom ponto de partida, mas talvez possam também ser vistas como um paliativo que o próprio governo quer entendê-lo como tal. É um governo até mais pro início da legislatura, não há eleições à vista e, portanto, todos esses dados ou todos esses factos vão ser utilizados e estão a ser utilizados para, de alguma maneira, fazer esquecer o fato de há uma tendência evidente nas sondagens, nas tracking polls, que têm saído nas últimas semanas, que é a AD está em terceiro lugar. E isto deveria preocupar o governo, porque não é normal. Um dos dados que vem no trabalho feito pelo Observador nessa comparação de sondagens é que, de facto, só é comparável com Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, Pedro Passos Coelho. Ora, convém lembrar que o momento econômico, a situação econômica do país é incomparavelmente melhor hoje do que era nessas alturas e, portanto, o governo não se pode agarrar a isso. E eu acho que a tracking poll de ontem da CNN, mais do que os dados grandes sobre quem é o primeiro, o segundo, o terceiro, eu acho que a forma como dá mais dados sobre idades, habilitações literárias, zonas do país, etc, devia fazer preocupar a AD. O Chega é o primeiro partido dos 18 aos 54 anos. Ou seja, não é uma franja pequena, é no fundo a força de trabalho deste país. Ou seja, a população ativa e os estudantes universitários votam, ou se hoje fossem as eleições, votariam no Chega como primeira força política. E isto deveria preocupar o governo, porque a mim me parece que o governo está absolutamente focado em recuperar os pensionistas, mas os pensionistas também têm uma condição biológica, que é que são os mais velhos e, portanto, é um eleitorado, não quero ser muito bruto, mas é um eleitorado que não tem futuro. Ou seja, a AD, o governo deveria claramente centrar e apostar a sua mensagem, o seu discurso e as medidas que propõe para estes segmentos de eleitorado. Houve outros dados sobre as zonas do país que me pareceram muito interessantes.

Então já lá vamos.

Ok.

Vamos, porque quero fazer ainda uma segunda ronda sobre isso e quero ouvir também o Alexandre sobre estes dados.

Eu podia dizer que são sondagens e valem o que valem.

O que vale a sondagem das urnas.

Exato. Mas fora de brincadeira, gostaria de desvalorizar um bocado tudo isto, porque confesso que não vi com pormenor o estudo comparativo da sondagem ao longo dos 35 anos, particularmente por uma razão: porque as sondagens dizem sempre o seguinte: podem dizer algo ligeiramente diferente, mas nunca o contrário disto, depende da pergunta, mas é: se as eleições fossem hoje, como é que você votaria?

E a esta hora.

Exatamente, como é que votaria, neste caso, em 2029 ou outra coisa qualquer. Isso é importante. Portanto, olhar pra sondagens dá 30, dá 20 é particularmente fora. Se esteve 35 vezes em segundo lugar ou terceiro, a AD, pelo que percebo, pelo menos num ano, até ganhou as eleições, então isso também confirma a teoria de que as sondagens têm que ser relativizadas na sua importância. Sobre estas em concreto e sobre a Tracking Poll, em particular, a da Intercampus é feita a 600 pessoas, é uma amostra muito pequena. A Tracking Poll é uma amostra pequeníssima. O que me parece muito importante é ter a noção de qual é a dimensão da amostra que estamos a falar. Dentro dessa amostra, o dado que o Gonçalo referia parece-me importantíssimo, e já vamos falar dele também, relacioná-lo com as medidas anunciadas pelo governo. Aliás, como o Gonçalo já fez em parte e muito bem. Agora, a Tracking Poll, que continua a ser tratada como uma sondagem, mede, neste caso, nas mudanças de uma semana pra outra, 201 entrevistas. São 200 pessoas que foram entrevistadas numa semana. São três milésimas da população e eu acho horrível.

Há casamentos com mais pessoas.

Sem dúvida. Eu acho horrível que tenhamos chegado a um momento, mas não há nada a fazer, é querer parar o vento com as mãos, achar que isto vai mudar, mas em que tenhamos chegado ao ponto em que é isto que nós medimos, em que tenhamos uma obsessão tal em estar constantemente a medir a temperatura da água e, portanto, a ver isto, a olhar pra 200 pessoas e ver nisto uma grande oscilação. Estamos a olhar pra um pelo do animal, basicamente. Mas é o que temos e é a democracia.

Repare a metáfora, isso é porque estamos no pelo do cão.

Estamos no pelo do cão, é verdade. A vender o pelo do cão.

E são caros.

É verdade, são caros. O que também é interessante, seria outra questão. Já fiz esta analogia, mas continua a parecer-me boa, é da democracia direta, isto não é democracia direta, é democracia indireta. Estamos na democracia indireta e isto convida a governar pro direto. E não é bom pra ninguém.

Concordas com Cavaco Silva sobre o ruído?

Totalmente. Aliás, estão aqui vocês, não me deixam mentir sobre o quanto eu tenho falado do ruído ultimamente nestes programas.

É verdade. O que é certo é que estes dados influenciam a forma como se governa e a oposição também.

Sim, claro. Eu percebo o que tu queres dizer com a amostra, sendo que a amostra do Tracking Poll vai acumulando.

Exatamente, são 800, mas por isso não é uma sondagem.

É verdade.

A poll troca todas as semanas.

Troca todas as semanas. Aquilo é uma soma de quatro semanas.

Soma, ou seja, não troca.

Soma, mas para a semana só mudam 200. Vais olhar e vais ver o que está ali de diferente, vai ser 200, porque vai sair a quinta semana e entra a nova semana, em que entrevistaram 201 pessoas.

Tal e qual, é isso. Mas isto para dizer o quê? Mesmo com o barômetro da Intercampus, que também tem uma amostra, não vou dizer pequena, porque as amostras das sondagens têm sido isto ou pouco mais do que isto.

Há umas mais robustas.

Tens umas de 800, mil e tal. As da Católica costumam ter 1200.

Mas são muito mais esparsas, não é?

Exato.

Portanto, aquilo que nós temos aqui é claramente uma tendência. Se olharmos pra todas as sondagens.

Exatamente. É isso.

Em todas está em terceiro lugar. Eu acho que Luís Montenegro não se vai reger por aqui, sinceramente. Aliás, se se regesse, via que lhe tinha corrido mal, porque as medidas que foram anunciadas, foram anunciadas antes disso.

É que é isso, é impressionante. É que pra todos os efeitos, a Tracking Poll, ainda que sejam só 200 pessoas, foi na semana em que ele anunciou um bónus pras pensões e uma baixa de IRS, e mesmo assim desceu.

E o Gonçalo tinha ainda outros dados que queria destacar.

A mim parece-me que os dados regionais também são muito interessantes, porque durante muito tempo, ou até há pouco tempo, achava-se que o Chega era um partido delimitado a zonas, passe a expressão, depauperadas do país, que eram feudos do Partido Comunista, etc. E a verdade é que nesta Tracking Poll, o Chega é o segundo no Norte, no Centro, na Grande Lisboa, em Setúbal, no Sul e nas ilhas, e é o primeiro, com 34%, o PS e o PSD aparecem depois com 19, naquilo que são as cinturas, os anéis da periferia de Lisboa, portanto, no Oeste e Vale do Tejo. E isto deveria, de facto, preocupar. Preocupar a AD. Eu acho que o governo é percepcionado como mais do mesmo do que era António Costa, e falaremos disso mais à frente, sobre as medidas em concreto. O Nuno Gonçalo Pais escrevia um texto esta semana a propósito de Passos Coelho e quem tem medo de Passos Coelho, e respondia à pergunta que era: mais importante do que saber o como ou o quando, é o pra quê Nós sabemos qual é a ideia de Passos Coelho do país. Nós não temos uma ideia de Luís Montenegro e isto não é mobilizador. Não pode ser percepcionado, porque não é percepcionado pelo eleitorado, qual é a ideia de Luís Montenegro para o país, para estas pessoas que trabalham, que estudam e que procuram casa.

Mesmo que essas pessoas não parem para refletir nisso. Não sentem isso, é isso que estás a dizer?

Não. Eu detesto o termo.

Às vezes nós paramos para refletir sobre a política, a vida. Nós andamos aqui nesta bolha 24 horas por dia. As pessoas, como se costuma dizer, têm uma vida normal, não se prendem muitas vezes.

Nós também temos uma vida normal.

Temos. Mas queria perceber se, na tua opinião, achas que as pessoas que não fazem parte desta bolha não percepcionam isso quando a liderança política devia apostar nessa de transmitir uma ideia que tem para o país. É isso?

Certo, mas isso também faz parte do talento de quem governa. E eu acho que neste caso Luís Montenegro não tem esse talento, falta-lhe essa capacidade de liderança, essa visão, etc. E eu concordo com o Alexandre, é evidente que isto vale o que vale, quer dizer, são sondagens, não há eleições no horizonte, etc. Mas há uma tendência e o governo não deveria ignorar essa tendência. Aliás, Salvador, é na capa do Sol de hoje, pareceu-me muito curioso o título da capa desta semana, que dizia: "Primeiro-ministro impõe estilo Trump na comunicação do governo". Ou seja, há uma preocupação no governo sobre a forma como o próprio governo é percepcionado. Todos os ministros têm que, para poderem ir dar uma entrevista, passar pelo crivo de São Bento. E, portanto, há uma efetiva preocupação sobre o controle da narrativa, o controle das percepções, etc. Porque o governo há de olhar para isto e ficar preocupado, porque já nem o milho que atiramos às galinhas dos IRS e das pensões serve para contrariar esta tendência. E, portanto, não sei, talvez Luís Montenegro tenha outro tipo de coelhos na cartola, se calhar vem no Orçamento de Estado, não sabemos, mas deveria preocupar-se.

Coelhos na cartola, se tu fosses ao Cavaco dizer isso, iam logo fazer leituras sobre o que tu querias dizer. Mas não, eu percebo, claro que sim. Mas não sei, Ricardo, totalmente de acordo com o Gonçalo. E é um problema, não sei se é falta de talento de Luís Montenegro desse ponto de vista, se é uma estratégia, isto é, ele é bastante talentoso na gestão do dia a dia, de facto, acho eu. Mas tem isso, veio com a mesma abordagem do António Costa, que é isto, que é o dia a dia. Portanto, de facto é difícil de saber. É muito prático, ou seja, eu não sei se Passos Coelho conseguiria governar no cenário atual. Eu tenho francas dúvidas sobre como é que conquistavas os eleitores com o tipo de medida que Passos Coelho teria de impor.

Crescimento em que estás.

Sim, exato. E vê-se o comportamento do Chega em temas como a reforma laboral ou a Segurança Social, Deus nos livre de lá tocar. Ou se é para tocar, é para baixar a idade da reforma.

Tens uma nota?

Não.

Mas talvez a própria posição do Chega em relação à Segurança Social e ao tema das pensões, outro dos dados da Tracking Poll é sobre a fidelidade do voto. O PSD, a AD, mantêm apenas 60% dos eleitores que votaram em 2025. O Chega mantém 90%. Ora, se o Chega domina no universo dos 18 aos 54, quererá ir buscar eleitorado onde não domina. E, portanto, se calhar a mensagem é até coerente. É irresponsável, o mais possível, mas se calhar é coerente.

Mas não ambiciona essa maioria.

Não estou a criticar isso. Repara, pelo contrário.

Vamos à tua nota? Eleitoralmente faz todo o sentido, mas justamente o Chega percebe o que é que o eleitorado quer ouvir. Passos Coelho, se fosse para campanha, não ia prometer esse tipo de coisa, por isso duvido que tivesse um bom resultado.

Eu dou um oito a Luís Montenegro, acho que ainda tem tempo de recuperar.

Ainda está a começar o primeiro período.

É isso, estamos no arranque do ano letivo.

E a tua nota?

Eu também vou para uma negativa não muito má, para um oito.

Falamos da vitalidade política do PSD e do primeiro-ministro Luís Montenegro. Agora, olhamos para a manifestação prática do exercício de poder, para as medidas que ontem foram anunciadas de forma solene às 20h. Sandro Borges, recebeste bem este pacote de medidas?

Eu vou receber pouco, considerando a minha idade e etc, o que faço. Mas recebi com agrado do ponto de vista formal. Isto é, fazendo uma apreciação técnica, da nota técnica sobre o assunto. Acho que o governo tem sido inteligente na gestão da sua comunicação.

Esta manhã havia um debate no Parlamento sobre o custo de vida.

Havia um debate de urgência pedido exatamente pelo PS sobre o custo de vida e ontem tinha havido Conselho de Ministros para aprovar as medidas já pré-anunciadas no debate da moção de censura. E acho, francamente, que o governo tem sido inteligente nisso. Não sei se é à Trump ou não. Penso que não precisa de ser aqui nessa referência do Sol que o Gonçalo fazia, mas também ainda não li o artigo e poderei perceber melhor o ângulo. Mas obviamente todos os governos ou qualquer partido têm de se preocupar com a forma como comunica. Não o fazer é desastroso. E o governo sempre se preocupou, parece-me que ultimamente tem escolhido uma estratégia melhor, porque é impossível deixar sempre o palco para o Chega, que de facto é muito bom a gerar factos políticos. Sempre, continuamente gera um facto político. Ou é a moção de censura, ou é a comissão parlamentar de inquérito, ou é o pedido de demissão, ou é outro facto qualquer, ou é a guerra com o PS sobre medidas que o PS apresentou

Para todos os efeitos, muito antes e repetidamente, até à loucura. Mas até nisso André Ventura teve a habilidade de criar um facto político com o PS. Consegue sempre dominar o topo das notícias. E nesse sentido, o governo foi muito hábil. No dia eu não percebi, confesso, só percebi depois. No dia da moção de censura, quando o governo anunciou logo estas duas medidas principais, o bónus aos pensionistas e uma descida do IRS, eu achei desnecessário e até fútil, no sentido em que se querias deixar uma moção de censura cair sozinha e mostrar que ela não tinha pernas para andar, por que estavas a tentar desviar as atenções?

Alguns telejornais, pelo menos, abriram com o anúncio.

Fizeram, mas a notícia seria sempre derrota do Chega na moção de censura. Eu acho que o verdadeiro reason why de anunciar naquele dia tinha a ver com a marcação de terreno já para a semana seguinte, em que o PS e o Chega iam chegar à frente outra vez com a questão da descida dos impostos dos combustíveis e do IVA zero no cabaz, até porque estávamos a perceber que havia uma margem orçamental para isso. E portanto, o governo delimitou logo isto e anunciou ontem o que já tinha anunciado. Fez também bem na forma como colou ambos ao facilitismo, sem precisar de nomear desta vez, sem precisar de dizer que o PS é igual ao Chega, um argumento que nunca me pareceu funcionar, mas explicar a consistência destas medidas, a comparação com o resto das medidas da Europa, lembrar o que aconteceu em 2009, e até da convicção com que mencionou. Isto é, em outros momentos o governo tem sido mais errático. Aqui, bem ou mal, o governo tem sido profundamente consistente na ideia de que o IVA zero seria uma má medida e de que do ponto de vista do ISP, tem de facto devolvido às pessoas, na descida do ISP, o que poderia ganhar a mais no IVA aí. E já decidiu o que vai fazer com o que lhe sobra em IVA a mais com a subida da inflação. E portanto, podemos e vamos discutir se são as medidas corretas, mas decidiu e tirou esse poder à oposição.

Vamos ver como o Gonçalo acolheu. Como é que acolheste, Gonçalo?

Acolhi bem. Eu genericamente concordo com o que o Alexandre disse, na questão de voltar a trazer para o PSD o argumento das contas certas. Eu acho que isso é um bom ativo. Acho que o governo só fez uma parte, que foi responder a questões muito imediatas, escudar-se nas limitações da diretiva europeia para a redução do IVA nos combustíveis, que são evidentes, e portanto o próprio Chega sabe isso. Sabe que o IVA dos combustíveis tem que ter a taxa normal, não a taxa reduzida. Portanto, se calhar devíamos era estar a discutir qual deveria ser a taxa normal. Faz sentido manter 23% em geral, para tudo? Espanha tem 21%. As medidas em si acho que são um bom paliativo, mas não são suficientes. Estas medidas são apresentadas num contexto em que se espera um aumento da inflação, que já vimos subir em agosto. A questão da subida das taxas de juro pelo BCE é a maior prova de que, de facto, vem aí uma crise de inflação. E não é por um problema de excesso de procura, é por um problema de falta de oferta. E o governo o que faz com estas medidas, que no final do dia ajudam, mas é aumentar essa mesma procura, ou seja, é dar mais disponibilidade aos consumidores para irem gastar mais. Se o objetivo é reduzir o consumo, porque no final do dia é isso que se pretende com a inflação, que as pessoas de facto gastem menos, eu não sei se isto é o mais apropriado. Dito isto, vamos ver, e eu tenho muita expectativa para perceber se o Orçamento de Estado deste ano integrará o contexto geopolítico e macroeconômico em que estamos, na questão dos combustíveis, da guerra do Irão, etc., ou não. Ou seja, se vai ser um Orçamento de Estado meramente contabilístico e politicamente desvirtuado ou vazio como foi o do ano passado, e eu acho que isso seria um erro, repetir a receita do ano passado, só para garantir que ele passa. O país tem que discutir, e eu acho que o governo devia tomar adiante disso, tem que discutir por que não há empresas grandes em Portugal. Por que temos coisas tão anacrônicas como derramas estaduais? Por que temos tantos incentivos a que não haja empresas grandes em Portugal, que são as que pagam mais salários, são as mais produtivas, são as que têm melhores níveis de produtividade, são as que investem mais, etc. E o problema do país, o problema das pessoas, é que ganham mal, ganham pouco. E acho que aí o PSD ainda não perdeu a sua costela liberal ou de direita. Os salários não aumentam por decreto, nem por obra e graça de qualquer santo. Os salários aumentam quando aumenta a produtividade, e isso ocorre nas empresas grandes. O país tem de criar os incentivos para que as empresas paguem mais. E para pagarem mais, têm que ter mais escala. E para ganhar escala, há uma série de entropias fiscais, administrativas, que têm que acabar.

As empresas têm que se fundir.

As empresas têm que se fundir.

Mas há uma enorme resistência também.

Judite, por que há uma enorme resistência?

São PMEs.

Não, claro, mas por quê? Há muitas empresas grandes que para não pagarem derramas, acabam por se desagregar em várias, apesar de ter o mesmo controle, precisamente para poupar uns tostões nas derramas. O sistema tem que acabar com todos estes incentivos perversos à não existência de empresas grandes, que são as que pagam melhores salários. E o problema do país, no final do dia, tem que ver com os maus salários que as pessoas recebem.

Judite.

Sem dúvida, eu acho que o ponto é esse e tudo aquilo que nós andamos a discutir é marginal.

Claro.

Porque um bónus pros idosos, uma redução de IRS mínima é marginal, de facto. Eu acho que isto vai chegar muito pouco ao bolso dos consumidores e acaba por se perder pelo caminho. Isto já para não falar na isenção do IVA nos alimentos, já para não falar disso, da outra vez viu-se bem que não foi parar aos consumidores. Esta questão dos bónus aos pensionistas faz diferença pra quem tem pensões baixas, mas a lógica da medida ser one off, não se repetir, de alguma forma parece caridade. E não acho que seja a lógica certa. Acho que houve uma questão bem feita por Luís Montenegro ontem, que foi basicamente com aquela solenidade toda apresentar uma coisa que já se conhecia. Escolher as 20h para uma comunicação ao país.

O discurso foi bom.

Foi. Do ponto de vista técnico, foi bom. Exatamente.

Mas antigamente, quando tu ouvias: "O primeiro-ministro vai falar às 20h."

Claro, era uma crise institucional.

Aconteceu alguma coisa.

Muitas vezes o Luís Montenegro gosta de improvisar e não corre bem.

E eu acho que fez bem em recordar a troica e as contas certas, e encostar o PS e o Chega para quem quer-

O dito facilitismo.

Sim, e pode levar o país à bancarrota se os deixarmos. E acho que isso foi inteligente da parte do Luís Montenegro. De resto, o anúncio de medidas não serviu pra nada, porque não há nada que não fosse já sabido de antemão.

Queres dar alguma nota, Judite?

Eu vou dar um 11 ao Luís Montenegro.

E tu, Gonçalo?

Eu repito o 11.

Antes de irmos ao seu tema, Alexandre.

Eu diria só, até roubando um pouco o meu tema, do ponto de vista da substância, é onde vejo o problema e é interessante a análise que o Gonçalo fazia às sondagens e a quem está a votar ou não no Chega, se está de facto a classe trabalhadora. Porque um solteiro que ganhe € 1 mil, o célebre mileurista, vai receber € 12. Um pensionista que tenha uma pensão de € 1.600, vai receber € 100. Isto não faz sentido.

Uma vez.

Sim, uma vez, mas os € 12 é no total do ano pro tipo que ganha € 1 mil. Portanto, o trabalhador mileurista, que é grande parte deste país e a pessoa que tem que lidar com rendas de casa que custam o que ele ganha, ganha com estas medidas € 12. Um pensionista que ganhe € 1.600 vai receber 100, porque é uma pessoa que, não é que € 1.600 seja uma fortuna, mas é um bom rendimento, sobretudo pra quem já está em casa, em princípio, tem os filhos criados, terá uma casa, não tem que enfrentar o problema dos combustíveis todos os dias pra sair pra trabalhar e voltar. Portanto, este é o problema. Eu sinto que, no fundo, o governo é muito atento à questão das eleições. O governo continua a governar, a saber que a qualquer momento, que todos os anos pode haver eleições. É isto que continua a fazer. E nisso parece obcecado em segurar os pensionistas, o que foi importante numa determinada altura pro PS ter recuperado terreno. Mas pode, de facto, estar a negligenciar totalmente o eleitorado trabalhador. A minha nota, apesar de tudo somado, em forma e conteúdo, é 12 pro Luís Montenegro.

Vamos ao teu tema. Aguiar Branco e o consulado de Aguiar Branco.

Diz?

O consulado de Aguiar Branco.

O consulado de Aguiar Branco, na sua relação específica com o Chega. Porque hoje, mais uma vez no Parlamento, aconteceu uma coisa que já vem acontecendo nas últimas semanas pra quem tem reparado, que parece bastante mais ainda do que anteriormente. O Chega também está apostado em desgastar a imagem do presidente da Assembleia da República. E por qualquer coisa que aconteça, acusá-lo de estar a proteger o sistema e de estar feito com amigos e com qualquer coisa.

Acho que nunca se disse tanto do presidente da Assembleia da República.

É inacreditável. Se fossem pessoas normais ou com uma vida normal, como o Ricardo dizia há pouco, isto obviamente era quase todos os dias motivo pra um processo por difamação. Mas como são deputados, isto não pode acontecer. Fica tudo à luz do regimento e aparentemente o regimento permite. Aguiar Branco tem uma atitude extraordinária, e é essa que eu quero pontuar. Este tem uma paciência de santo, tem imenso fair play e acho que tem, do meu ponto de vista, até aqui, bastante inteligência na forma como lida com o assunto.

Ao contrário de Augusto Santos Silva.

É isso. Exatamente, é que é um enorme contraste com Augusto Santos Silva e com Ferro Rodrigues, e que não sei como conseguiram, em alguns casos, acusar esta semana Aguiar Branco de ter cometido um erro terrível ao perseguir o Chega por ter rejeitado um pedido de comissão de inquérito, que ele já tinha pedido para reavaliar, já tinha dito ao Chega: "Se isto ficar assim, não vai passar." O Chega teve a oportunidade de alterar, alterou pouco, pelos vistos. E nesse dia, André Ventura acusou o presidente da Assembleia da República de estar a proteger amigos e interesses, de alimentar a podridão do sistema. Disse que a Assembleia da República estava sequestrada num momento qualquer em que Pinheiro de Azevedo tomou conta do corpo de André Ventura.

É uma coisa que chateia, estar sequestrado.

Chateia, exato. Essa vida histórica arrebenta. Aqui está. Aborrece.

O Cristina Rodrigues do Chega chegou a dizer na vigência desta semana, que insinuava que o próprio Aguiar Branco poderia estar envolvido nos esquemas de Luís Neves.

Exato, aqui está.

Deu um passo mais à frente.

Mais à frente, porque de facto o que André Ventura diz é que ele estava a proteger amigos e interesses pra impedir aquela comissão parlamentar de inquérito.

A tua nota, Alexandre.

A minha nota é necessariamente breve e já não sustento o resto do tema, mas foi minha culpa, foi como eu geri os meus minutos. É um 16 pra Aguiar Branco.

Um 16 pra Aguiar Branco. Amanhã é sábado, mas lá por ser fim de semana, não para o vencedor. E o vencedor é nas manhãs 360 de fim de semana, um pouco mais tarde, às 10h30. Amanhã com Eunice Lourenço e o Luís Rosa.