O Tribeca Festival Lisboa fechou a programação para a segunda edição, marcada para decorrer entre 30 de outubro a 1 de novembro, aumentando assim para três dias de programação.
A iniciativa — que replica em Portugal o festival originário de Nova Iorque numa parceria com o grupo Impresa e a Câmara Municipal de Lisboa — volta a ter o Hub Criativo do Beato como epicentro, mas agora com novas salas nas imediações deste local, como a The Theater, no Teatro Ibérico, e The Chapel, na capela do Convento do Beato.
Entre as derradeiras confirmações — anunciadas num evento decorrido esta quinta-feira no Hub Criativo do Beato, sem direito a perguntas dos jornalistas — estão a presença da atriz Edie Falco, particularmente conhecida pelos seus papéis nas séries Os Sopranos e Nurse Jackie, e a realizadora e produtora Ava DuVernay, responsável por filmes como Selma e Origin, assim como pela série When They See Us.
Marcam ainda presença a atriz mexicana Veronica Falcón, particularmente conhecida pela sua atuação em séries como Ozark, Queen of the South e Perry Mason e o ator Ed Westick, que se popularizou através da série Gossip Girl. Estas novidades juntam-se às já reveladas nos últimos meses, como a presença das atrizes Kim Cattrall e Meg Ryan e do ator Giancarlo Esposito, assim como de Joaquim de Almeida e Daniela Ruah.
No que toca a filme, foram anunciadas mais três exibições a decorrer durante o festival. Um dos grandes destaques é Eleanor the Great, estreia da atriz Scarlett Johansson na realização e que conta com June Squibb no papel principal. Apresentam-se ainda em estreia If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstein, com Rose Byrne, Conan O’Brian, Danielle Macdonald e Christian Slater no elenco, e All We Cannot See, filme do cineasta venezuelano Alberto Arvelo e que foi parcialmente realizado em Portugal.
Já tinha sido anunciada a estreia de Bugonia, o novo filme de Yorgos Lanthimos, assim como sessões de Dreams, de Michel Franco, Honeyjoon, de Lilian T. Mehrel, e The Best You Can, de Michael J. Weithorn. In the Hand of Dante, a mais recente obra de Julian Schnabel, será exibido na Opening Night, a 29 de outubro, sendo que o realizador norte-americano também vai marcar presença no festival.
A organização do evento refere que, ao todo, serão exibidas 18 produções ao longo do certame, 12 de origem internacional e seis de cariz nacional. Entre as últimas constam longas-metragens como Match, de Duarte Neves, A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, Além do Horizonte — A Travessia, de Fernando Vendrell, e o documentário Feel the Magic: Ticha Penicheiro — Against All Odds, de André Braz, sobre a basquetebolista portuguesa.
Na apresentação desta quinta-feira foi também anunciado o programa de conversas a decorrer não só no palco Lisboa Stage by MEO, mas também no palco The Auditorium by Vilamoura. No que toca ao primeiro, Kim Cattrall e Daniela Ruah discutem o seu percurso longe do seu país de origem em “No Fixed Address: A Life in Global Storytelling”, Giancarlo Esposito e Edie Falco juntam-se ao ator português Albano Jerónimo para “The Weight of a Character”, onde conversam sobre o que implica o trabalho de preparação para representar personagens e Meg Ryan dará uma entrevista a Catarina Furtado em “In My Own Words: Meg Ryan on Image, Identity and Reinvention”.
Juntam-se ainda conversas com painéis exclusivamente nacionais, como uma sobre o impacto da série Rabo de Peixe na localidade açoriana onde a sua narrativa decorre, assim como as razões para o seu sucesso, juntando o seu criador, Augusto Fraga, a membros do elenco, como Joaquim de Almeida, Afonso Pimentel e Helena Caldeira. Outra, sobre o politicamente correto, junta Ricardo Araújo Pereira, Daniel Oliveira, José Maria Pimentel e Ricardo Costa.
O Tribeca Festival Lisboa vai ainda ter sessões ao vivo de podcasts, não só do universo Impresa — como A Beleza das Pequenas Coisas, de Bernardo Mendonça, Geração 90, de Júlia Palha, e Humor à Primeira Vista, de Gustavo Carvalho, entre outros — como também fora, sendo exemplos Voz de Cama, de Ana Markl e Tânia Graça, e Debaixo da Língua, de Rui Maria Pêgo.
“Não somos um festival de cinema” nem “um festival da Impresa”
A edição inaugural do Tribeca Festival Lisboa, decorrida nos dias 18 e 19 de outubro de 2024, ficou marcada por uma série de críticas relacionadas com a organização, nomeadamente a exibição de filmes em espaços pouco adequados para esse efeito.
Apesar de classificar esse primeiro ensaio como um “enorme sucesso” onde foram “atingidos todos os objetivos”, a diretora de comunicação do festival, Mónica Serrano, admitiu ao Observador que “havia um conjunto de questões que tínhamos de pegar”, resultantes do feedback recebido durante o certame. Entre essas queixas constava a necessidade de “espaços mais confortáveis e que tivessem as condições para visionar filmes especificamente”, aponta, razão para a inauguração dos novos palcos no Teatro Ibérico e no Convento do Beato.
Mónica Serrano, todavia, frisa que a ideia sempre foi ter uma visão alternativa. “Não somos um festival de cinema e, portanto, não temos a pretensão de ir para as salas de cinema. Queremos construir um outro festival, que é precisamente o que existe hoje em Nova Iorque, é um festival que tanto está numa sala de cinema, mas como a seguir está num jardim a fazer networking entre as pessoas e a juntar comunidades e artistas para o futuro”, aponta, sublinhando que não quer “substituir já os festivais existentes na cidade que já têm uma história, que são incríveis, que têm o seu trabalho, o seu papel no cinema.”
Essa lógica, continua Mónica Serrano, reflete-se na resposta a outra das queixas recebida na edição original, a de falta de interatividade entre intervenientes e público. “Sentimos que foi muito do palco para as pessoas em alguns momentos, nós queremos muito mais interação, que as pessoas possam fazer perguntas e viver com os protagonistas muito dentro deste espaço”, assume.
Também por essa razão, explica que este ano a curadoria e programação refletiram o cuidado de ter “cada vez mais abertura ao mercado, à indústria, ao setor”. Face à observação de que muito do conteúdo nacional da edição original tivera origem no universo do grupo Impresa — quer no Expresso, na SIC ou na OPTO —, Mónica Serrano assume que o Tribeca Festival Lisboa quis afastar-se desse rótulo, nomeadamente ao recrutar como embaixadores Daniela Ruah e Joaquim de Almeida e como curadores a diretora de casting Patrícia Vasconcelos ou o jornalista Rui Pedro Tendinha.
“Isto não é um festival da Impresa, é um festival organizado pela Impresa que permite à cidade de Lisboa e ao país acolher um conjunto de talento para falarmos de temas importantes da indústria. E, portanto, é isso mesmo que estamos a fazer”, adianta.
Outra das alterações prende-se com as modalidades de bilhetes, que no ano passado cingiam-se ao ingresso diário de 75 euros e o passe geral de 130 euros. Desta vez, continua a existir um passe geral de custo mais avultado — 255 euros por três dias —, mas há agora bilhetes que variam entre os 15 e os 65 euros, para uma ou várias sessões de cinema, e além de um passe de 36 euros (em compra antecipada, 45 euros no preço normal) por dia para assistir à totalidade sessões de conversas e podcasts ao vivo.
Segundo a diretora de comunicação, tal mudança deveu-se à vontade do Tribeca Festival Lisboa “abrir-se mais à população” sem mudar a sua matriz. “Quem quer ver um filme, pode pagar a partir de 15 euros e aproveitar a experiência também do festival, como quem quer só ver as conversas e não quer focar-se nos filmes também pode fazê-lo e paga 45 euros. Portanto, é muito mais abrangente e transversal, mas mantendo o posicionamento original do festival”, afirma. Quanto ao preço do passe geral, assume que há “um posicionamento do festival para a indústria”, mas frisa que este ingresso da congénere lisboeta é “10 vezes mais barato” que o do original nova-iorquino.
De resto, no que toca ao financiamento deste certame, a diretora de comunicação não quis adiantar grandes detalhes quando à manutenção do seu modelo, referindo apenas que tanto a Impresa como “um conjunto de patrocinadores e de presenças institucionais” querem “promover a cultura em Portugal”. Já à agência Lusa disse que o orçamento para esta segunda edição, incluindo o montante de apoio público, só será “partilhado” quando terminar o festival.
Recorde-se que a edição inaugural do Tribeca Festival Lisboa levantou polémica devido ao seu modelo de financiamento, tendo sido noticiada a receção de 750 mil euros de apoios públicos, concedidos pelo Turismo de Portugal (250 mil euros), tutelado pelo Ministério da Economia, pela Associação de Turismo de Lisboa (250 mil euros), da qual o município de Lisboa é um dos associados fundadores, e pela empresa municipal Lisboa Cultura (250 mil euros), que gere os equipamentos e animação cultural da capital.
A atribuição destas verbas sem anúncio prévio ou deliberação em reunião de câmara motivou críticas a Carlos Moedas por parte da oposição, tendo o PS, inclusive, apresentado uma recomendação na Assembleia Municipal de Lisboa que pedia, entre outros pontos, “uma auditoria ao financiamento atribuído ao Tribeca Lisboa em 2024, com divulgação pública das conclusões”.
Já no que toca à continuidade do festival — especialmente tendo em conta a situação financeira da Impresa — a diretora de comunicação referiu também à Lusa que a intenção é dar continuidade ao festival em Portugal, “e quem sabe abranger outros locais”. “Não sabemos como vai ser para o ano, é falado anualmente a cada fim de edição. […] Temos parceria com Vilamoura e queremos fazer alguns eventos paralelos no país. Temos todo o interesse em dar continuidade, mas vai depender de vários fatores, inclusive da nossa relação com a estrutura americana”, explicou.