Há dias, ele recebia o Globo de Ouro para a canção do ano por 2000 A.D. e percebia-se como estava, sinceramente, surpreendido: um músico contracorrente, a escrever uma canção declaradamente contracorrente, a receber um prémio, por natureza, da corrente. Só por acaso, disse então e nas entrevistas seguintes, uma canção sua se tornaria mainstream, porque não fazia qualquer esforço por isso. E, com efeito, o que mais podia alegrar quem acompanha e aprecia o seu trabalho, a caminho das Portas de Santo Antão nesta noite um pouco absurdamente quente de outubro, era mesmo isso: vê-lo chegar, enfim, aos Coliseus.
Porque, nos dias que correm, isso talvez corra, aqui e ali, o risco de parecer fácil, mas não quando se tem esta coerência, esta consistência, esta verdade consigo mesmo, esta humildade, esta irredutibilidade a uma fórmula simples, esta coragem de, até hoje, nunca ter seguido pelo caminho mais fácil. Samuel Úria estreou-se na noite de sábado no Coliseu dos Recreios num concerto só seu e vai dia 17 ao Coliseu do Porto — suspeitamos que se vá repetir exatamente o que se passou ontem: não haverá uma só pessoa na sala que não goste muito dele e o admire, uma anti-estrela a ter, enfim, o seu merecido momento de estrelato.
▲ Não haverá uma só pessoa na sala que não goste muito dele e o admire, uma anti-estrela a ter, enfim, o seu merecido momento de estrelato
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Começámos 15 ainda negligentemente elegantes minutos depois da hora marcada em tons western spaghetti com 1998 e seguimos para o rock nostálgico da globodourizada 2000 A.D.. Em palco, além de Úria e dos seis músicos que o acompanham, impunham-se a presença e as vozes dos 12 ao Todo (que, assim à vista desarmada, são 11), imensas em Canção de Águas Mil e Pedra e Cal. O dono da festa anunciou que não ia guardar as surpresas para o fim e chamou a primeira convidada logo ao quinto tema: Carol, para cantarem em tom íntimo Daqui para Trás, e, depois, recuarem realmente no tempo e saltarem para a alegria rockabilly de Essa Voz. À sétima canção, uma dedicatória especial para alguém, diz Samuel, que já não está entre nós, mas, se estivesse, certamente lhe “teria cravado bilhete para este concerto”:
“Eu quer ser como o Xico da Ladra
Um imortal de rastro humilde e sincero
Ser como o Xico é que eu quero”
E um tipo, que não conheceu o Xico, a pensar na plateia: e ser como o Samuel? Num mundo de estrelas instantâneas, competição insana por se ser o mais “influente”, ser só um tipo porreiro, a contar as suas histórias e fazer as suas canções? Oh, ideia revolucionária.
Já com Margarida Campelo em cena, vai-se mais atrás no tempo, primeiro aos idos de 2009, quando a maioria de nós começou, provavelmente, a ouvir falar de Samuel Úria, indo a Nem lhe Tocava buscar Não Arrastes o meu Caixão; depois, mais atrás, para reinventar Foi Aparecida, dueto de Isabel Campelo, mãe de Margarida, e Paulo de Carvalho. Passada uma pausa algo anti-climática para artilhar o palco para o que ia acontecer a seguir e já tínhamos passado a mais um lote de convidados: Tiago Guillul e restantes Velhas Glórias, para lembrar quem estivesse esquecido de que o homem do dia também é um punk dos duros.
▲ Manuela Azevedo foi uma das convidados em palco (aqui no meio da plateia), tal como Margarida Campelo, Milhanas ou Gisela João
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Desce o pano e já Úria caminhava para o centro da plateia ao encontro de uma das sequências mais memoráveis do serão: Quem me Acende a Voz, uma palavra para os pais, presentes na sala, e a herança musical que lhe deram, do gospel às harmonias vocais, e, depois, Manuela Azevedo a vir acompanhá-lo numa espécie de hat-trick musical inapelável. Primeiro, a delicadeza de Canção de Água Doce, incursão ao reportório dos Clã; depois, aquele épico-momento-agora-só-vocês Carga de Ombro, e finalmente, o regresso ao palco, já reajustado para o último terço de espectáculo, com o poder rock de Fusão.
A Contenção levou-nos às Canções do Pós-Guerra e o belo Vem por Mim de volta a Cargo de Ombro; Milhanas trouxe o Mundo e uma deixa importante: “esta noite é sobre ti”, como quem diz “pára de elogiar os teus convidados e aceita os aplausos”. E Úria a responder com o acerto habitual: “Esta noite é sobre mim e a minha capacidade de fazer amigos na música”. Não é uma questão menor. Depois de Fica Aquém, mais dois convidados: Gisela João e o seu talento absurdo. Primeiro, na estreia de um tema que Úria escreveu para eles; depois, substituindo Manuel Cruz numa épica revisitação de Lenço Enxuto. A voz dela, a interpretação contornando a métrica difícil do poema, a guitarra dele, a banda a cair sobre a canção no momento arrepiantemente certo – só por isto já teria valido a pena.
Já Teimoso tinha fechado a parte “regular” do concerto e a sala pedido o inevitável encore, “Sammy”, como Guillul e alguns na plateia chamam, regressa com esta apresentação: “Eu sou o Samuel Úria e sou um monstro anti-climático”. Tudo dito – ou quase. Um só hit no pacote bónus, É Preciso que eu Diminua, antes de terminar voltando ao disco em rodagem, com Um Adeus Português. Úria é um nome a que parece sempre faltar pelo menos uma letra: um “f” para “fúria”, um “lux” para “luxúria”, como se as tivesse intencionalmente apagado, descafeinado desses pecados. Só hoje, olhando o letreiro em palco, percebemos: a palavra completa é mesmo “samuelúria” – arte ou qualidade de ser grande sem fazer sombra.