Dizem as vozes mais entendidas que nenhuma equipa deve ir para as datas dos compromissos das seleções nacionais depois de um mau resultado — as más vibrações ficam marinar, não existe jogo seguinte para esquecer o anterior e o treinador nem sequer tem a oportunidade de tentar motivar o grupo. Tudo e isto algo mais aconteceu ao Sporting nas últimas semanas, já que os leões seguiram para o futebol internacional depois da derrota em Nápoles na Liga dos Campeões e do empate em Alvalade contra o Sp. Braga.

Este sábado, porém, a esperava acabava. Já depois de Benfica e FC Porto eliminarem Desp. Chaves e Celoricense, os leões visitavam o P. Ferreira na terceira eliminatória da Taça de Portugal e iniciavam a defesa do troféu que conquistaram na temporada passada. Rui Borges foi questionado sobre uma eventual reunião com Frederico Varandas para discutir os maus resultados, algo que negou, mas não escondia que era preciso dar uma resposta clara ao que aconteceu antes de as competições nacionais pararem.

Ficha de jogo

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P. Ferreira-Sporting, 2-3

Terceira eliminatória da Taça de Portugal

Estádio Capital do Móvel, em Paços de Ferreira

Árbitro: Miguel Nogueira (AF Braga)

P. Ferreira: Jeimes Menezes, Anilson (Miguel Mota, 45′), Gonçalo Cardoso, Tiago Ferreira, Rafael Vieira, Leandro Dias, Francisco Ramos (Nuno Cunha, 90+5′), João Caiado (Nito Gomes, 62′), Ronaldo Lumungo (Matheus Martins, 98′), João Victor (Diego Fernandes, 62′), Costinha (Vladimir Silva, 80′)

Suplentes não utilizados: Marafona, André Sousa

Treinador: Filipe Cândido

Sporting: João Virgínia, Vagiannidis (Iván Fresneda, 58′), Eduardo Quaresma (Debast, 73′), Diomande (Matheus Reis, 90′), Ricardo Mangas (Geny Catamo, 73′), Hjulmand, Morita (Trincão, 58′), Geovany Quenda, Pedro Gonçalves, Alisson (Luis Suárez, 80′), Ioannidis

Suplentes não utilizados: Rui Silva, Kochorashvili, João Simões

Treinador: Rui Borges

Golos: Ronaldo Lumungo (18′), Pedro Gonçalves (22′), João Victor (49′), Ioannidis (61′), Tiago Ferreira (ag, 104′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vagiannidis (17′), a Anilson (26′), a Morita (45+1′), a Diomande (77′), a Nito Gomes (87′), a Pedro Gonçalves (102′), a Rafael Vieira (116′)

“Nem sequer vi o presidente depois do jogo com o Sp. Braga. É engraçado estarmos a ver o que se passa de fora, criam histórias alucinantes. Não estarmos na liderança por culpa própria? Jamais será crítica, queremos ganhar a todo o custo. Temos tido um início produtivo e demonstrativo da qualidade, relaciona-se com a exigência que temos. Estou focado no que podemos fazer. O ruído é imenso e isso é sinal de que somos vencedores. Vamos lutar por um troféu que conquistámos na época passada e que está no Museu do clube porque fomos melhores e tivemos mérito”, atirou o treinador leonino, no que também pareceu ser uma resposta às provocações de José Mourinho sobre a final da Taça de Portugal da última temporada.

Assim, na Capital do Móvel e de forma expectável, Rui Borges poupava Gonçalo Inácio (que sofreu uma pequena lesão traumática na Seleção) e tinha Diomande de volta ao lado de Eduardo Quaresma, apostando ainda em Ricardo Mangas, Alisson e Ioannidis em detrimento de Maxi Araújo, Trincão e Luis Suárez. Do outro lado, num P. Ferreira que está no antepenúltimo lugar da Segunda Liga e que ainda não ganhou para o Campeonato na atual temporada, Filipe Cândido tinha João Victor como principal referência ofensiva.

O jogo começou agitado, sem que as equipas se tivessem permitido muito tempo para o habitual estudo mútuo, e o P. Ferreira deixou o primeiro aviso logo nos instantes iniciais e com um remate de João Caiado que passou por cima da trave (3′). Anilson prolongou a boa entrada dos pacenses, com um livre direto que João Virgínia encaixou (6′), e o Sporting respondeu também com um livre de Geovany Quenda que passou ao lado (9′) e um pontapé desviado de Pedro Gonçalves que falhou o alvo (15′).

Ainda assim, ia ficando claro que os leões tinham entrado algo adormecidos, com muitas perdas de bola na zona do meio-campo e uma clara incapacidade para segurar o jogo, permitindo transições que o P. Ferreira aproveitava para chegar perto da baliza de João Virgínia. Pouco depois de estar ultrapassado o primeiro quarto de hora, o erro custou caro: o Sporting voltou a perder a bola, João Victor soltou Ronaldo Lumungo e o avançado atirou forte à entrada da grande área para abrir o marcador (18′). 

O golo, porém, serviu como autêntico despertador para a equipa de Rui Borges. Pedro Gonçalves empatou praticamente de seguida, com um típico passe à baliza à entrada da grande área que não deu qualquer hipótese a Jeimes Menezes (22′), e a instabilidade coletiva que se tinha registado até então não voltou a aparecer. O mesmo Pedro Gonçalves poderia ter bisado com um remate que passou ao lado (31′), Alisson atirou por cima (32′) e Quenda também falhou o alvo (41′) — sem que o P. Ferreira voltasse a aproximar-se com verdadeiro perigo do último terço.

O golo da reviravolta, contudo, não chegou a aparecer. P. Ferreira e Sporting foram empatados para o intervalo na Capital do Móvel e ficava a ideia de que os leões tinham mesmo precisado de um susto para acordar, enquanto que a equipa de Filipe Cândido tinha o mérito de ter procurado a vantagem desde o apito inicial e de sempre se ter mostrado muito coesa defensivamente.

Filipe Cândido mexeu logo ao intervalo e tirou Anilson, que já tinha cartão amarelo, para colocar Miguel Mota. O Sporting até pareceu entrar melhor, com Alisson a rematar ao lado logo nos instantes iniciais (46′), mas a eficácia reinava do outro lado: o recém-entrado Miguel Mota arrancou na direita, deixou em Ronaldo Lumungo e o avançado cruzou atrasado para a área, onde João Victor apareceu a rematar de primeira para recuperar a vantagem (49′). 

Pedro Gonçalves voltou a tentar responder rápido com um pontapé que passou por cima da trave (51′), mas a verdade é que depressa se percebeu que os leões não teriam a mesma facilidade para reagir ao golo sofrido — o P. Ferreira estava muito bem organizado, não teve qualquer prurido em baixar as linhas de forma quase imediata e obrigava o adversário a rematar quase sempre de longe.

Rui Borges procurou soluções no banco e lançou Fresneda e Trincão em detrimento de Vagiannidis e Morita, com Pedro Gonçalves a recuar ligeiramente no terreno. À passagem da hora de jogo, numa fase em que a partida tinha entrado por rumos mais anárquicos, apareceu o empate: Quenda cobrou um canto na direita e Ioannidis saltou mais alto do que todos os outros, ao primeiro poste, para cabecear e marcar (61′).

A equipa da casa entrou em modo sobrevivência, com os leões a assentarem arraiais no meio-campo contrário e a acumularem remates enquadrados e não enquadrados essencialmente de fora de área. Geny Catamo e Debast entraram já dentro dos últimos 20 minutos, Luis Suárez também foi lançado pouco depois e ainda teve uma enorme oportunidade nos descontos (90+5′), mas nada mudou até ao fim do tempo regulamentar e o jogo seguiu mesmo para prolongamento.

Rui Borges trocou Diomande por Matheus Reis no início da meia-hora extra e a lógica manteve-se, com os leões mergulhados no último terço e os pacenses a abdicarem praticamente de atacar. A autêntica avalanche ofensiva acabou por dar frutos ainda durante a primeira parte do prolongamento, através de um autogolo de Tiago Ferreira depois de um cruzamento de Fresneda na direita (104′), e já nada voltou a alterar-se. O Sporting precisou do prolongamento, mas venceu o P. Ferreira e segue em frente na Taça de Portugal — num jogo com demasiadas alucinações para quem, como Rui Borges, não gosta de histórias alucinantes.