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"Task" chegou ao fim. Viva "Task"

Este artigo tem mais de 6 meses

Estreou-se quando voltávamos do verão. Foi crescendo semana após semana, como a televisão em tempos fez. E agora, após o último episódio, assumiu-se como uma das melhores séries do ano.

Mark Ruffalo lidera um elenco que mostra como um policial pode não ser óbvio e pode ir muito para lá do jogo do gato e do rato
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▲Mark Ruffalo lidera um elenco que mostra como um policial pode não ser óbvio e pode ir muito para lá do jogo do gato e do rato

▲Mark Ruffalo lidera um elenco que mostra como um policial pode não ser óbvio e pode ir muito para lá do jogo do gato e do rato

[Aviso: este artigo pode conter spoilers. Se não viu “Task”, se vai ver e não quer saber nada sobre a série, não leia]

Quando destacámos Task nas sugestões que semanalmente lançamos no Observador, ficou a dica: “Hoje parece que é pedir muito quando são necessários alguns episódios até algo de grandioso acontecer. Sobretudo se a espera for por um quinto episódio. Ainda mais se a série apenas tiver sete”. Agora que terminou, e que foi superado com classe o desafio do início lento, a prova está aí: Task é uma das séries do ano.

Pode alegar-se que era o expectável vindo do criador de Mare Of Easttown, Brad Ingelsby. Mas neste campeonato, nem tudo é assim tão transparente. Task também é um policial; também se passa naquela América que não tem onde cair morta; também se sustenta dos problemas familiares para alimentar a trama; só que não se centra à volta de uma personagem, como Mare Of Easttown faz com a Mare de Kate Winslet — Task depende do coletivo. Por isso é que a segunda metade bate tanto, quando as personagens começam a partir (sim, eufemismo para morrer) e quando percebemos que, afinal, tudo aquilo está bem para lá do jogo do gato e do rato.

[o trailer de “Task”:]

O problema não é, nem nunca foi, de Task. Mas da ideia que se criou de que as coisas têm de agarrar logo, desde o início, de que uma série tem de obedecer a uma determinada estrutura e a um conjunto de regras para funcionar. É claro que se as fórmulas existem, é porque funcionam; mas também óbvio que o que está para lá delas merece existir, merece a nossa atenção e muitas vezes resulta bem melhor do que um caminho pré-definido. Por estes dias, ouvimos muitas vezes a frase “não tenho tempo para perceber se vou gostar” ou “o nosso tempo é demasiado valioso para isto”. É um erro e com essa atitude perde-se o direito de nos aborreceremos antes da epifania. E, note-se, em Task nem sequer nos aborrecemos.

O que Task faz é contemplar o aborrecimento das personagens (entre o dramático e o trágico), a quem a vida aconteceu. Tom (Mark Ruffalo) perdeu a mulher — o confronto com a realidade de como tudo se passou, no último episódio, é um dos mais belos momentos de televisão deste ano —, perdeu a noção do que é viver e está enfiado na prateleira do FBI a distribuir panfletos em feiras. Robbie (Tom Pelphrey) perdeu o irmão e a mulher e — não há outra forma de o dizer — está na merda. A ideia de se revoltar contra quem lhe lixou a vida parece ser a salvação, mesmo que isso o empurre para a morte. Vai daí, escolhe ser criminoso, uma espécie de Robin dos Bosques da América dos arrabaldes que está deprimida, que assalta casas de narcotráfico para um dia conseguir dinheiro suficiente e sair dali com a família. Será só isso?

▲ O que Task faz é contemplar o aborrecimento das personagens (entre o dramático e o trágico), a quem a vida aconteceu

Tom sai da prateleira, é chamado para liderar um grupo de polícias que irá investigar o gangue de Robbie. Tudo certo, policial montado, e é assim que a coisa se desenrola nos primeiros episódios, Tom atrás de Robbie, Robbie a perder a conta aos seus erros e a fazer crescer a ideia de que, apesar da tragédia na vida dos dois, eles não são assim tão parecidos. A verdade é que ao longo dos primeiros episódios cria-se antipatia por um e por outro. Tom, sempre muito apático, parece ser bom no que faz, mas tem alguma ideia do que realmente anda a fazer?

Robbie perdeu o tino e todas as decisões parecem erradas. Podíamos simpatizar com o criminoso, o problema é que os erros afetam todas as pessoas à sua volta, pessoas de quem aprendemos a gostar: a sobrinha Maeve (Emilia Jones), que toma conta dos filhos dele; Cliff (Raúl Castillo), um dos seus parceiros; Eryn (Margarita Levieva), a amante do falecido irmão de Robbie, que agora o ajuda na vingança.

A aproximação da resolução do caso é anticlimática. Brad Ingelsby lança os dados, cria uma ideia de fórmula, apenas para a contrariar rapidamente. Task é anti-televisão de binge watching e pró-televisão de “esperar uma semana para ver o próximo episódio” (o que antes era convencional). E talvez já se tenha perdido esse hábito, só que essa televisão existiu de facto, funcionava e gostava de desobedecer a fórmulas. Além disso: acreditava que o espectador voltaria, fosse por que razão fosse.

▲ Task toma o seu tempo, mas não permite qualquer tipo de adversidade. E é isso que é fascinante ao longo dos episódios

Porque é que voltámos todas as semanas a Task? Para saber o que andavam por lá a fazer. Que surpresas guardava o grupo de trabalho que Tom dirigiu? Lizzie (Alison Oliver) tinha algum superpoder ou era só inexperiente ou incompetente? O que escondia o charme de Grasso (Fabien Frankel)? E qual era a cena de Aleah (Thuso Mbedu), o que é que estava mesmo ali a fazer, quando parecia mais séria do que todos os outros? E, claro, quão maus eram os elementos do gangue de motards Dark Hearts, traficantes de droga alimentados por uma espécie de código que não permitia qualquer tipo de macacada?

Task toma o seu tempo, mas não permite qualquer tipo de adversidade. E é isso que é fascinante ao longo dos episódios. Brad Ingelsby conseguiu fazer um policial melhor do que Mare Of Easttown (não necessariamente uma série melhor no seu todo), em parte porque aqui há uma preocupação com vários elementos e não apenas com um núcleo muito restrito. E mesmo que essa preocupação não seja palpável de início, ela revela-se nos dois últimos episódios. São duas horas marcantes, subindo a intensidade de forma notável.

▲ Vamos descobrindo, aos poucos, todas as coisas que julgávamos não se precisar de saber sobre as personagens, mas que são importantes

O início do sexto episódio é particularmente marcante, com uma operação em várias frentes: Tom atrás de Robbie, os Dark Hearts atrás de Robbie, o FBI atrás de Robbie e, por consequência, também atrás dos Dark Hearts. Filmado com eficácia e montado ao ritmo das balas que são disparadas: afinal, Tom e Robbie têm mais em comum do que Ingelsby dava a crer. É essa constatação, no meio de tanta confusão, que faz Task dar o salto para outro patamar. Aceitamos que estávamos enganados e, afinal, Task não é sobre o bem e o mal mas, lá está, sobre a relação com os demónios interiores.

O que se segue após este momento de caçada é puro deleite. Vamos descobrindo, aos poucos, todas as coisas que julgávamos não precisar de saber sobre as personagens, mas que são importantes. Vão sendo descascadas, com naturalidade, todas as camadas, e nós a ver à nossa frente a redenção de quase todas as personagens — aquelas que a permitem e a merecem. No final, casa fica arrumada e resta-nos a dúvida de onde inscrever a série no nosso ranking pessoal. E é para gerar estas dúvidas que serve a grande televisão.

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