Há quem acredite, como o falecido escritor e jornalista Zecharia Stichin, que existe um planeta desconhecido e muito distante da nossa galáxia, chamado X ou Nibiru, cujos habitantes, os Anunakis, criaram a humanidade há milhares de anos, através de engenharia genética; há também quem acredite, mais prosaicamente, que os extraterrestres visitam o nosso planeta com regularidade para fazerem sondagens retais a alguns humanos escolhidos de forma aleatória. E há ainda aqueles que, como Teddy (Jesse Plemons), o protagonista de Bugonia, o novo filme de Yorgos Lanthimos, acreditam que a Terra é secretamente dominada por alienígenas com forma humana, estes provindos de Andrómeda.
Teddy vive no campo, na casa da família, com um primo Don (Aidan Delbis), que tem um ligeiro problema mental e acredita em tudo o que ele lhe diz, nomeadamente nas teorias da conspiração descabeladas que subscreve. Além de criar abelhas, Teddy trabalha num armazém de um grande conglomerado com vários ramos de negócio, dos fármacos ao retalho, presidido por Michelle (Emma Stone), uma power woman hiperdinâmica, que cuida com tanta atenção do seu bem-estar e da sua imagem como das políticas de “diversidade” da companhia. Teddy culpa-o quer pela diminuição mundial da população de abelhas, quer pelo estado da mãe, que está em coma numa clínica após ter tomado remédios experimentais produzidos por aquele.
[Veja o “trailer” de “Bugonia”:]
Teddy está também plenamente convencido que Michelle não é humana, mas sim uma extraterrestre vinda de Andrómeda. E que o conglomerado que gere tem um enorme e invisível poder sobre a humanidade, e intenções malignas para com ela. Com a ajuda de Don, rapta-a, rapa-lhe o cabelo (para que os outros andrómedanos não possam detetar onde está pelo ADN capilar…) e prende-a na cave de casa, determinado a fazer com que ela confesse a sua verdadeira identidade, admita as intenções do governo de Andrómeda para com os humanos e o planeta Terra, e aceite deixarem-nos em paz. Nem que para isso a tenha que torturar friamente com electrochoques, para grande horror do primo.
Bugonia é o remake de uma comédia de ficção científica (FC) sul-coreana, Save the Green Planet!, de Jang Joon-hwan (2003). E por isso é um filme menos cabotino e vacuamente grotesco e arrevesado, e mais legível e convencional do que os anteriores de Lanthimos. Mas isso não o impede de se resumir a ser uma longa, repetitiva e algo sádica anedota, esticada para durar quase duas horas, em que o realizador pretende também satirizar os obcecados com as múltiplas teorias da conspiração que circulam na Internet, de onde saltaram dos livros e opúsculos em que se encontravam antes, e realçar a perigosidade de alguns deles, como é o caso do instável Terry. E ainda, last but not least, enviar uma mensagem de preocupação ecológica.
[Veja uma entrevista com Emma Stone e Jesse Plemons:]
O enredo de Bugonia segue as linhas gerais do da produção sul-coreana original, mesmo na surpresa final. Que não é uma surpresa, na realidade. Porque ainda a fita não chegou a meio e já adivinhámos como vai acabar, ou não gostasse Yorgos Lanthimos de ser “original” e “surpreendente”, e não se contentasse em rodar apenas um mero “kidnapping movie”. Só que neste caso, já estamos a ver à distância qual vai ser a grande revelação — ao estilo das de M. Night Shyalaman — da história. Lá chegados, Bugonia torna-se involuntariamente cómico, como que invadido por um mau filme psicadélico dos anos 70. Para, logo a seguir, a sequência escatológica que o fecha parecer saída de uma fita de FC muito melhor do que esta.
[Veja uma sequência de “Bugonia”:]
Pese aos incondicionais do realizador, Bugonia serve apenas para reiterar que Yorgos Lanthimos é um dos maiores bluffs do cinema contemporâneo, e que os seus filmes vêm tornar mais indigente, e não enriquecer, como alguns acham, o ecossistema cinematográfico global. O título da fita refere-se a uma crença dos gregos antigos segundo a qual as abelhas podiam nascer espontaneamente da carcaça de uma vaca. Não há (que eu desse por isso…), nenhuma vaca morta em Bugonia, mas pelo menos salvam-se as abelhinhas, que não têm culpa nenhuma das bolandas em que sujeitos como Lanthimos as metem.