As histórias são mais que muitas. Algumas provadas, outras contadas muitos anos depois, outras que roçam quase o mito mas que nem por isso deixam de ser “histórias”. Os episódios nos balneários dos árbitros foram acontecendo, dos maus cheiros colocados de forma propositada à retirada de cabides e assentos, passando pela redução da luz artificial ou pelos cortes de regalias que iam da entrega de camisolas, produtos da região ou demais lembranças à fruta, barras de proteína, bebidas energéticas e águas. Entretanto, e durante vários anos, tudo isso acabou por tornar-se o “não assunto” – seja porque deixou de acontecer, seja porque não era falado ou comunicado. Agora, voltou e como tema forte perto do fecho do primeiro terço da Liga.
☑ RESUMO
I Liga (#10) | FC Porto 2-1 Braga#LigaPortugalBetclic #VSPORTSLPBETCLIC #EPOCA2526 #JORNADA10 #FCPSCB #FCP #SCB
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A “novela” teve início quando o CM avançou que Fábio Veríssimo, árbitro do FC Porto-Sp. Braga do passado domingo no Estádio do Dragão, referiu no habitual relatório de jogo que tinha sido alvo de tentativas de pressão por parte dos azuis e brancos no intervalo e no final do encontro. Como? Ao chegar ao intervalo, a TV presente no balneário, que estava a passar o Porto Canal, começou a mostrar de forma repetida alguns lances mais polémicos da primeira parte, nomeadamente o golo anulado a Victor Froholdt por falta cometida por Jan Bednarek sobre o guarda-redes Hornicek. Mais tarde, no final da partida, o filme repetiu-se mas com outras imagens, neste caso um golo do Benfica validado pelo árbitro da Associação de Futebol de Leiria numa final do Torneio Internacional da Pontinha entre os encarnados e os portistas. Com uma nota: o comando presente na sala não funcionava, o que fazia com que os vídeos em exibição não fossem “mudados”.
Golo anulado ao FC Porto! Na sequência de um canto, Froholdt marca, mas é assinalada falta de Bednarek sobre o guarda-redes Hornicek, na pequena área.#LigaPortugalBetclic #VSPORTSLPBETCLIC #EPOCA2526 #JORNADA10 #FCPSCB #FCP #SCBpic.twitter.com/xz2RZg5vG3
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O lance do Benfica – Porto no Torneio da Pontinha, em 2024: pic.twitter.com/dWxYipOrXa https://t.co/FjYqBHz1IS
— Cabine Desportiva (@CabineSport) November 3, 2025
Sucederam-se os comunicados, sucederam-se as reações. De Benfica, de Sporting, de Sp. Braga. Não só: ao início da tarde, o Conselho de Disciplina da FPF também tomou posição em forma de comunicado.
“Instauração de processo disciplinar à Futebol Clube do Porto – Futebol SAD, por deliberação da Secção Profissional, de 4 de novembro de 2025, tendo por objeto factos ocorridos no jogo n.º 11008 (203.01.089), disputado entre a FC Porto SAD e a SC Braga SAD, realizado no dia 2 de novembro de 2025, a contar para a Liga Portugal Betclic. A instauração ocorreu no seguimento das informações constantes no relatório de árbitro e no relatório de delegado da Liga. O processo foi enviado, dia 4 de novembro de 2025, à Comissão de Instrutores da Liga Portugal, ficando excluída a publicidade até ao fim da instrução”, anunciou.
???? Comunicado do Conselho de Disciplina:
"Instauração de processo disciplinar à Futebol Clube do Porto – Futebol SAD, por deliberação da Secção Profissional, de 4 de novembro de 2025, tendo por objeto factos ocorridos no jogo n.º 11008 (203.01.089), disputado entre a FC Porto… pic.twitter.com/OGJWeZHa7s
— Cabine Desportiva (@CabineSport) November 4, 2025
Olhando para o Regulamento Disciplinar, o leque de possíveis sanções é largo no “peso” mas está dependente do enquadramento que seja feito por quem avaliar o processo disciplinar. Como? Se fosse colocado como uma questão de “coação”, aí poderia ser aplicado o artigo 66.º número 4, que no limite prevê uma pena de sanção de derrota. No entanto, a maioria dos especialistas em Direito Desportivo que foram sendo ouvidos durante o dia colocam este caso à luz do número 1 do artigo 127.º, sobre “observância de outros deveres”, o que levaria apenas a uma multa entre 1.020 e 5.100 euros. A possibilidade de o FC Porto invocar o artigo 62.º, em que se colocaria à parte de tudo o que se passou, também parece afastada.
Benfica, Sporting e Sp. Braga juntam-se numa “frente comum” a pedir “justiça”
“O Benfica exige que a Liga, o Conselho de Arbitragem e o Conselho de Disciplina atuem com urgência em face das informações tornadas públicas sobre uma grave coação ao árbitro da partida FC Porto-Sp. Braga. Em face da gravidade dos acontecimentos reportados impõe-se um reação rápida das autoridades competentes e uma clarificação quanto aos desenvolvimentos deste episódio que em nada dignifica e credibiliza o futebol português, pelo que é imperativo que haja consequências exemplares. O Benfica não admitirá qualquer passividade ou delongas nesta matéria”, salientara antes a formação da Luz.
“O Sporting considera absolutamente inaceitável qualquer tentativa, direta ou indireta, de condicionar, influenciar ou pressionar árbitros ou outros agentes desportivos. Situações desta natureza mancham a credibilidade das competições e são um claro retrocesso no futebol português. Perante a notícia de factos desta gravidade, suscetíveis de constituírem infração disciplinar punível com sanção de desclassificação ou derrota nos termos regulamentares, o Sporting exige que as entidades competentes atuem de forma implacável, apurando todas as responsabilidades e aplicando as sanções que se impõem, sem exceções nem complacência, desde já anunciando que irá igualmente apresentar uma participação disciplinar ao Conselho de Disciplina com vista ao apuramento da verdade e de todos os responsáveis. O Sporting não aceitará o regresso a um futebol de bastidores e pressões, nem que se maquilhem velhas práticas com uma nova aparência institucional”, frisara já na manhã desta terça-feira o conjunto de Alvalade.
O #SportingCP considera absolutamente inaceitável qualquer tentativa, directa ou indirecta, de condicionar, influenciar ou pressionar árbitros ou outros agentes desportivos. Situações desta natureza mancham a credibilidade das competições e são um claro retrocesso no futebol… pic.twitter.com/locHuvSikq
— Sporting CP (@SportingCP) November 4, 2025
“Confrontada com as notícias que circulam desde a noite passada e que relatam tentativas de pressão sobre a equipa de arbitragem do FC Porto-SC Braga, liderada por Fábio Veríssimo, esta Sociedade encetou contactos imediatos no sentido de obter um cabal esclarecimento sobre as informações difundidas. O presidente do SC Braga endereçou missivas formais aos presidentes da Federação Portuguesa de Futebol, do Conselho de Arbitragem e da Liga Portugal, solicitando respostas sobre os factos reportados e sobre as tomadas de ação requeridas para defesa do sector da arbitragem e da integridade das competições. Foi dado a estes responsáveis um timing de resposta, entendendo o SC Braga ser relevante que a sua tomada de posição pública fosse devidamente sustentada e que as entidades responsáveis tivessem oportunidade de conduzir e liderar a reação necessária perante factos tão relevantes”, anunciaram também os minhotos.
“Na ausência de outros esclarecimentos para além da resposta enviada pela Liga Portugal e que remete para os órgãos de disciplina da FPF, o SC Braga analisará o relatório do árbitro e o relatório dos delegados, certo de que os mesmos irão originar a abertura de processos de inquérito e de processos disciplinares, que se esperam tão céleres quanto possível e que garantam, de forma implacável, as punições que se impõem. O SC Braga reclama uma atuação exemplar por parte da justiça desportiva, mas sem prejuízo da independência exigida ao normal funcionamento desta, cabe também aos responsáveis máximos da FPF e da Liga garantir um clima de confiança para o presente e para o futuro”, acrescenta ainda o texto do clube.
O SC Braga reagiu às notícias sobre alegada pressão exercida pelo FC Porto junto do árbitro Fábio Veríssimo no intervalo do jogo entre as duas equipas.
Em comunicado, o clube interpela FPF, Conselho de Arbitragem e Liga. #scbraga #fcporto #fabioverissimo pic.twitter.com/RE06Xr5gE4
— A BOLA (@abolapt) November 4, 2025
“Exigem-se respostas firmes e imediatas, sob pena de estes agentes serem co-responsáveis pela escalada previsível se nada for feito. O SC Braga exige que a defesa da credibilidade das competições seja um imperativo absoluto e inegociável para quem tem a responsabilidade de zelar pelas mesmas, mais ainda no momento atual. Tal como referido no passado dia 6 de outubro, o SC Braga volta a sublinhar a sua absoluta confiança no sector da arbitragem. Por assim ser, surge-nos ainda mais premente que a defesa do quadro de árbitros seja efetiva e intransigente. A proteção dos árbitros é absolutamente essencial para a salvaguarda das competições e da verdade desportiva e para o desempenho de todos os agentes”, conclui.
FC Porto diz que não recebeu relatório e visa Benfica… e o próprio Fábio Veríssimo
Só depois das notícias que davam conta da abertura do processo disciplinar ao FC Porto no âmbito do que tinha acontecido na receção ao Sp. Braga é que os dragões tomaram uma posição oficial sobre todo o assunto (falando sempre no condicional, acrescente-se), passando ao lado das acusações por não ter ainda recebido os respetivos relatórios mas fazendo reflexões sobre outros aspetos relacionados com o setor, projetando mesmo uma espécie de “vingança” de Fábio Veríssimo depois do último Arouca-FC Porto.
“O FC Porto ainda não recebeu, por parte das entidades competentes, os relatórios finais da partida, pelo que se reserva o direito de se pronunciar sobre os mesmos em momento oportuno. A este respeito, o clube exige à FPF que se pronuncie, com caráter de urgência, sobre aparente divulgação prévia de documentação oficial em canais privados antes de as partes diretamente envolvidas a receberem. Na perspetiva do FC Porto, persistem graves problemas na arbitragem em Portugal, como a dualidade de critérios, a falta de uniformização nas decisões e o condicionamento permanente das arbitragens antes e depois dos jogos por intervenientes diretos e indiretos (alguns alegadamente ligados a sociedades desportivas). Adicionalmente, continuam a registar‑se, época após época, tentativas de branqueamento de lances capitais com impacto direto nos resultados através do comportamento coordenado de comentadores com relações privilegiadas no seio dos organismos decisores”, começou por referir o comunicado dos azuis e brancos desta tarde.
Dos problemas acima referidos, são exemplos concretos, na presente época e na perspetiva do FC Porto, os seguintes lances: o lance envolvendo Sudakov em Guimarães; as expulsões perdoadas a Richard Ríos na Amadora e em Alverca; o penálti assinalado no jogo Benfica-Tondela; a expulsão perdoada a Gonçalo Inácio em Famalicão; o penálti por assinalar a favor do Sp. Braga em Alvalade; a expulsão perdoada a Diomande na sexta‑feira, contra o Alverca.”
“Relativamente ao árbitro Fábio Veríssimo, o FC Porto considera importante dar nota que, após o término do último Arouca-FC Porto, e perante várias testemunhas, o árbitro em questão ameaçou dirigentes do clube com expulsões e outras formas de intimidação, ameaças essas que, no entendimento do FC Porto, vieram a concretizar-se no jogo do passado domingo. O sucedido será objeto de participação ao Conselho de Disciplina, para que o referido árbitro possa explicar as motivações desta conduta que, no entender do FC Porto, não apenas infringe deveres a que aquele está adstrito, como consubstancia um comportamento persecutório”, anunciaram os dragões, que visaram depois os rivais diretos.
Comunicado????⚪
Em causa as notícias que dão conta da abertura de um processo disciplinar ao FC Porto
???? https://t.co/ZfWwH4oyxf pic.twitter.com/Y8IKORxvuj
— FC Porto (@FCPorto) November 4, 2025
“O FC Porto considera no mínimo surpreendente a oportunidade e o teor do comunicado emitido pelo Benfica. Desde logo, a ironia de ver um clube que, como é público, tem estado envolvido em episódios recentes associados ao fenómeno da arbitragem e cujo presidente terá, segundo foi amplamente noticiado, confrontado árbitros em túneis de acesso a balneários, vir referir situações de supostas pressões sobre árbitros. Este comunicado é ainda mais curioso quando, nas vésperas da mais recente edição da Supertaça, o Benfica entendeu emitir uma nota elencando uma série de alegados erros precisamente do árbitro Fábio Veríssimo, numa iniciativa que, no entendimento do FC Porto, pode objetivamente ser interpretada como tentativa de condicionamento do seu desempenho para o jogo em causa. Regista‑se, ainda, a coincidência de o quarto árbitro do jogo FC Porto-SC Braga, Gustavo Correia, ser precisamente o árbitro que esteve prestes a ser agredido em pleno relvado do Estádio da Luz, no jogo entre Benfica e Sporting em maio passado – o que suscita preocupações de segurança e a questão do efeito que condutas dessa gravidade poderão ter na capacidade de os árbitros desempenharem funções livres de qualquer condicionamento”, diz.
“Todas estas circunstâncias impõem uma reflexão profunda sobre o estado atual do futebol português e, em particular, sobre a arbitragem. No passado sábado, o FC Porto solicitou uma reunião ao presidente do Conselho de Arbitragem para a próxima paragem do Campeonato, oportunidade em que reiterará a sua indignação com o rumo deste primeiro terço da prova e a sua disponibilidade para procurar formas de reforçar e proteger a qualidade e a independência da arbitragem em Portugal. O FC Porto sugere aos seus rivais que, em vez de se focarem em comunicados e emails, nos quais alguns são mestres, e em estratégias comunicacionais suscetíveis de pressionar árbitros, se disponibilizem para, de uma vez por todas, encontrar verdadeiras soluções para os desafios estruturantes que o futebol português enfrenta”, conclui.
APAF diz que “chegou a hora de dizer basta!” e pede “medidas exemplares” aos envolvidos
Ao final da tarde, também a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) tomou uma posição sobre o que terá acontecido no balneário de Fábio Veríssimo no Estádio do Dragão. “Chegou a hora de dizer basta! O futebol português tem de pôr fim à pressão e à intimidação sobre os árbitros, não pode continuar a viver mergulhado num clima de medo e suspeição”, começou por destacar em comunicado.
???? Comunicado da APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol):
"Chegou a hora de dizer BASTA!!!
O futebol português tem de pôr fim à pressão e à intimidação sobre os árbitros, não pode continuar a viver mergulhado num clima de medo e suspeição.
Desde há muito que… pic.twitter.com/MTmLNUEMZS
— Cabine Desportiva (@CabineSport) November 4, 2025
“Desde há muito que registamos uma escalada no número de episódios de pressão sobre os árbitros, com o mais recente a registar-se no jogo FC Porto-SC Braga. Perante a gravidade dos factos ocorridos, exigimos que as entidades competentes atuem de imediato, com transparência total, e que sejam aplicadas medidas exemplares a todos os envolvidos. Não ficaremos calados perante mais um episódio de desrespeito e impunidade. Não aceitaremos investigações morosas, silêncios cúmplices nem decisões meramente políticas. O atual clima no futebol português é tóxico e insustentável. Não podemos continuar a querer resolver os problemas do futebol português com regulamentos que, aprovados pelos clubes, são incapazes de punir com eficácia, e de forma exemplar, comportamentos inadmissíveis no futebol moderno”, argumenta a APAF.
“O atual clima no futebol português é insustentável e exige investigações céleres e decisões verdadeiramente efetivas, bem como o envolvimento do setor da arbitragem nas inevitáveis alterações regulamentares que se exigem já para a próxima época. Dia após dia, assistimos a ataques públicos, campanhas de difamação e discursos inflamados contra a arbitragem, na maior parte das vezes, promovidos por quem deveria dar o exemplo. Perante esta cultura de intimidação, a arbitragem não pode ficar em silêncio e está preparada para pugnar, por todos os meios, por medidas concretas que garantam a proteção do setor contra as sucessivas faltas de respeito de quem deveria ter a missão de proteger o jogo e todos os seus protagonistas. A APAF irá solicitar reuniões, com carácter urgente, junto da FPF, da Liga Portugal e do Governo para exigir ter parte ativa nas alterações regulamentares necessárias”, acrescenta ainda o mesmo comunicado.