Além de tudo o que faz na música, Laurie Anderson é realizadora de cinema, escritora, artista visual e ativista, A própria fez questão de o lembrar, numa conferência de imprensa realizada no Rivoli, no Porto, a propósito de “X²”, performance feita de multimédia, experimentação e da história da própria – assim é descrito o espetáculo, em estreia nacional naquele teatro, nesta quarta-feira, dia 11, pelas 21h30 horas, com repetição no dia seguinte, quinta feira, 13 de novembro.
A lotação está esgotada em ambas as datas, para duas horas de improviso em que Laurie Anderson vai estar acompanhada pelo quarteto jazz nova-iorquino SexMob, liderado por Steven Bernstein, com Briggan Krauss, Tony Scherr, Kenny Wollesen e Doug Wieselman. “Tenho muita sorte em estar a trabalhar com este grupo de músicos”, afirmou, apresentando-os como “produtores, compositores e improvisadores maravilhosos”.
No encontro com os jornalistas, a autora de discos como Big Science, Mister Heartbreak ou Landfall surgiu conversadora, expressiva e bem humorada, com uns óculos de armação cor de laranja contrastantes com o cinzento do dia chuvoso, pronta para abordar questões sobre o espetáculo. É uma performance longa, marcada pela música e por imagens que lhe servem de contraponto, no qual cumpre a função de VJ, além de assegurar a eletrónica, o violino e a voz.
A performance “X²” pode estender-se por mais de duas horas, sim, mas o público tem uma palavra a dizer: “Todos os espetáculos são diferentes. Têm uma energia muito diferente, e também há muita conversa. Por vezes, torno-os mais longos, mais lentos; noutras vezes, mais rápidos. Depende”. Pode dizer-se que é uma dança. E a tecnologia? “É fantástica”, uma grande ajuda, mas admite que “não estamos a usá-la bem”. Essencial, mesmo, é que “não nos transforme em robôs, também”. Há aspetos, na inteligência artificial, que classifica como “fascinantes”, “poderosos”.
Razões para sorrir? Mamdani
A criadora norte-americana apontou também algumas inquietações que a assolam, à escala global, sem deixar de referir motivos para sorrir. Exemplos? A recente eleição do presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, democrata e o primeiro homem muçulmano e de origem indiana a conquistar aquele cargo; a seu ver, “um progressista maravilhoso, que tem uma atitude muito diferente em relação ao governo e ao amor”. Ou as criações de Bob Dylan, que cantava sobre os losers (perdedores) da vida, quando, por estes dias, se vive numa sociedade tão competitiva que exige logo às crianças que sejam as melhores, tanto académica como desportivamente. A menção a Dylan tem uma explicação: entre os temas que integram o espectáculo que apresenta no Porto está uma versão de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, que o Nobel incluiu para no álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, de 1963, “durante a crise dos mísseis de Cuba”, e que é “uma das canções favoritas” da artista.
▲ Laurie Anderson em palco durante "X²", espectáculo cuja digressão europeia termina no Porto
Laurie Anderson referiu ainda estratégias para lidar com “um mundo que vai mal”, frisando a importância do ativismo, da resistência coletiva, quando estão em causa questões tão sérias como os perigos de uma guerra nuclear. Questionada sobre as três regras pelas quais disse, em tempos, reger a sua vida, destacou a importância de recordar que “está tudo bem em não estar tudo bem” (“Not OK is OK”). Isto aplicado, não ao que se passa no mundo, mas à existência de cada um, ressalva: “Ajuda-me muito. Na maior parte do tempo, as coisas estão a desmoronar-se”. Há muitas alturas em que nos sentimos mal, nem tudo é sobre ser cada vez melhor. E aí entra Dylan a escrever “belas canções” sobre como é perder, em vez de ganhar.
A norte-americana não duvida que para o que vê no mundo por estes dias contribui o atual estado da política no seu país, que a desencanta e se reflete na performance “X²”. Desde logo porque incorpora palavras que estão a ser alvo de “censura”, centenas de palavras apagadas dos documentos oficiais, tornadas proibidas, uma longa lista que aparece logo no arranque do espetáculo, como “female” (fêmea/feminino) ou “equity” (equidade). O assunto irrompe quando a questão é olhar para trabalhos antigos à luz da atualidade e das mudanças em curso. “A cada 15 minutos, há um novo boletim pessoal do nosso presidente acerca do que ele planeia fazer”, critica.
Histórias de guerra e perda
A perda é outro dos temas abordados nas histórias que Laurie Anderson promete desfiar na noite desta quarta-feira. Também para aqui a política é chamada. E o ativismo. No entender da artista, hoje, nos Estados Unidos, “é preciso encontrar outra maneira de dizer as coisas, outra maneira de participar no debate”, para evitar ser-se esmagado. “Há muita raiva”, nota. E a solução não é ser mais um a apontar o dedo: “Odeio quando me dizem o que pensar ou o que fazer, por isso, nunca tentei fazer o mesmo com as outras pessoas, não tenho esse direito”.
A abordagem que escolhe, enquanto artista, é a de chamar a atenção para algo, dirigir o olhar, convidar a uma reflexão. Não lhe interessa tanto expressar-se, dar-se a conhecer. Ainda assim, há lugar para histórias pessoais no espetáculo. Uma delas envolve a Segunda Guerra Mundial e um tio que regressou dela “destruído”, ao ponto de não conseguir parar de chorar, à noite, no sótão: “Ele chorou durante três anos”.
▲ Laurie Anderson mostrou-se disponível para perguntas e respostas e também para autografar discos, após o final da conferência
João Octávio Peixoto / TMP
Laurie Anderson é conhecida pelo arrojo que imprime às suas obras, que combinam campos tão distintos como os da música experimental, das artes visuais, do teatro ou da tecnologia, desafiando os rótulos pré-definidos. Aquela que se destacou como a primeira artista residente da NASA construiu, ao longo de décadas, um percurso rico e diversificado, marcado por colaborações com outros criadores, como Kronos Quartet, Brian Eno ou Lou Reed, com quem era casada, e que trouxe à memória na conferência de imprensa, ao assumir uma das vozes com que o casal costumava brincar.
Agraciada com um Prémio de Carreira da Recording Academy, no ano passado, a criadora conta com cinco nomeações para os Prémios Grammy, uma dezena de livros editados, assim como curtas-metragens e documentários, e ainda exposições individuais em espaços como o Museu Hirshhorn, em Washington D.C., ou o Moderna Museet, em Estocolmo.
Em poucas horas foram vendidos todos os bilhetes para os espetáculos desta quarta e quinta-feira, no Porto, a fechar uma digressão europeia que incluiu ainda Alemanha, Lituânia, Itália, Reino Unido e Espanha. Passatempos, não tem. “Não sou muito boa em hobbies”, responde, quando lhe perguntam o que faz nos tempos livres. O seu trabalho confunde-se com o resto, há muito ainda para ver e ouvir. Sorte a nossa.