Sei Miguel não era dado a grandiosidades e, por isso, colocar um “mais” em algo que se diga sobre ele, será desajustado. Viveu a vida e a carreira que quis e se isso teve constrangimentos, foi também graças a isso que deixou a marca no jazz que lhe reconhecemos, com as devidas ferramentas e generosidade que legou a uma série de músicos (sobretudo de Lisboa) para lerem e interpretarem a música e o mundo de formas que vão bem além da “diferença”. Morreu na terça-feira, 11 de novembro, aos 64 anos.

Nos últimos tempos estava algo ausente dos palcos, sobretudo quando comparado com a presença desde finais dos anos 1990 até finais da década de 2010. Há alguns anos foi-lhe diagnosticado uma atrofia muscular espinhal e isso deixou-o condicionado, contudo, não impossibilitado de ensaiar, reunir-se com músicos e gravar durante boa parte desses anos. Aliás, sabendo que o fim estaria perto, lançou as suas derradeiras obras quase de seguida, em 2023, todas com formações diferentes: Road Music, com a Sei Miguel Unit Core, Um Um Um E Não Há Forma De Morrer, com O Carro de Fogo de Sei Miguel, e The Original Drum enquanto Sei Miguel.

Passou a infância e parte dos anos de formação entre Paris (onde nasceu) e o Brasil. Em Lisboa começou a formar-se enquanto músico e fez parte da importante movida da capital durante a década de 1980. Podemos vê-lo no videoclip de Querelle, dos Pop Dell’Arte, com quem haveria de colaborar em dois álbuns, Ready-Made (1993) e All You Need Is Money (1995). Já que se fala em colaborações, o seu trompete ouve-se em Euforia, tema de Música Concreta, o segundo álbum dos Ban, de 1989.O trompete, em especial o trompete de bolso, foi o seu instrumento de eleição.

A proximidade com João Peste e o universo Pop Dell’Arte manifesta-se também no arranque da carreira a solo, com a edição dos três primeiros álbuns na Ama Romanta, a editora de Peste. Breaker (1988) é o álbum inaugural, primeiro composto pelo próprio, no qual conta com colaborações de Rodrigo Amado, Luís Desirat e, claro, Fala Mariam, companheira e colaboradora quase permanente ao longo da carreira de Sei. A capa era da autoria de Jorge Colombo.

Seguem-se os maravilhosos Song Against Love And Terrorism (1989) e The Blue Record (1990), também na Ama Romanta. Os três primeiros álbuns são hoje muito procurados — e difíceis de encontrar, pelo menos a um preço responsável. Lançaram uma carreira que foi tudo menos tradicional. Porque a arte de Sei Miguel também fica distante de tal epíteto. Apaixonado pelo jazz clássico e pelos blues, desenvolveu uma linguagem muito particular, que está longe de ser aquilo que se espera de uma tradição ou até de qualquer coisa que se pensa quando se pensa em jazz.

Contudo, que não se entenda isto como teimosia ou umbiguismo. É uma visão, leitura de uma forma e aplicação da mesma, segundo uma interpretação muito particular. Sei Miguel não estava preocupado em entreter — embora pudesse, claro. Queria, sim, procurar lugar no espaço, no vazio, e explorar diferentes tipos de expressões. Por vezes, a música era muito esquelética, sem qualquer requisito para ser preenchida. Era assim mesmo, algo raro no panorama contemporâneo, quando tanto do que se ouve, mesmo no registo mais jazz ou experimental, exige que se preencha com algo (da nossa imaginação, se assim for necessário) esses espaços em branco. Sei Miguel convidava ao ouvinte que experienciasse essa zona, como um convite para o novo.

Isso foi particularmente notório quando o percussionista César Burago fez parte da formação core de Sei Miguel. A pontuação rítmica permitiu ao longo de vários anos que, ao vivo, a música do trompetista ganhasse novas formas em permanência. Quando Burago deixou de estar presente, Sei Miguel conseguiu — conseguia sempre — encontrar soluções para essa referência, que era muito útil ao ouvinte novo, ou inexperiente. Havia sempre mais espaço para novas possibilidades no seu som.

Ser como o conhecíamos, entregue à arte, fora do sistema — seja lá o que isso for — e crente na sua música — não enquanto veículo comercial ou capitalista, mas a favor da estética —, fez com que nunca seguisse o caminho tradicional de um músico de jazz. O nome dele não surgia em festivais de maior dimensão ou visibilidade e era comum encontrarmos a música que fazia em lugares ou situações inesperadas. Como quando atuava com a superband — aliás, orquestra — O Carro de Fogo de Sei Miguel, no início dos 2010s. Os concertos aconteciam por regra no Musicbox em Lisboa e começavam sempre depois da meia-noite. Era uma espécie de hora do lobo possível para um clube acomodar a música de Sei Miguel.

Todo este regime, tornou-o num daqueles artistas de que a maioria do público nunca ouviu falar. Faltou-lhe sempre consensualidade, até dentro do jazz (muitos não o veriam como um músico de tal família), mas também não precisava dela para criar como queria, para se rodear das pessoas com quem se queria rodear. Não era fácil fazer parte do grupo de Sei Miguel, quando escolhia alguém para fazer parte de qualquer uma das suas formações era uma decisão muito informada e experienciada, e os músicos não passariam a fazer parte só da sua formação, como também da sua vida. E vice-versa. Impactou várias gerações de músicos, fosse do jazz, da música experimental ou da eletrónica, porque se a estética de Sei Miguel não permitia que se moldasse a uma forma clássica, também não poderia ser atingida por pessoas que estivessem formatadas a música que cabe em balizas.

Apesar de tudo, foi um músico respeitado, tanto em Portugal como no estrangeiro. Quem conhecia e gostava, não voltava a um lugar do passado. E deliciava-se com cada novo álbum. Depois do período Ama Romanta, Sei Miguel editou espaçadamente nos 1990s, entre edições em nome próprio e na AnAnAnA, encontrando depois casa na editora Headlights, de Manuel Mota, guitarrista que fez parte da sua formação durante algum tempo, Still Alive In Bairro Alto (2001) e Ra Clock (2002). A música editada, sobretudo neste século, é de uma precisão incrível, com uma rigorosa atenção a todos os detalhes: tudo tinha, não só de soar, mas ocupar o espaço e o tempo como Sei Miguel imaginava na sua cabeça.

A partir de 2010, a Clean Feed tornou-se a sua editora. Um bom ponto de partida para conhecer Sei Miguel é Salvation Modes, de 2014. A partir daí a aventura pode continuar com os já mencionados Breaker e Songs Against Love And Terrorism, Um Um Um E Não Há Forma De Morrer, Turbina Anthem (NoBusiness Records), com Pedro Gomes, de 2011, e The Tone Gardens (Creative Sources, 2005). Sei Miguel morreu. O que criou e deixou tem de ser estimado para se perceber como a individualidade e a visão não têm ser atos de resistência, mas de crença e de permanência. Nesse aspeto, a arte que fica é monumento e património.