Mesmo os detratores da Tesla que criticam o atraso na chegada ao mercado do Roadster, que já vai nos seis anos – e, a correr tudo bem, atingirá 8 anos de atraso quando começar a ser entregue aos compradores em 2028 -, ou os clientes que encomendaram o desportivo da marca em Novembro de 2017 quando foi apresentado na versão Concept e que continuam a aguardar que este chegue aos stands desde 2020, tiveram dificuldade em não ficar de boca aberta quando viram o novo Roadster subir lentamente uma pista na vertical, para a seguir circular pelo tecto, de cabeça para baixo, regressando à terra após realizar um “tonneau” (manobra aeronáutica acrobática que consiste em rodar sobre si próprio longitudinalmente). Não contente com estas manobras, o desportivo voou depois sobre quatro automóveis e um camião parados à sua frente, aterrando suavemente na estrada do outro lado da obstrução.
A capacidade de voar do Roadster é decididamente a “habilidade” mais espectacular do novo desportivo da Tesla, mas está longe de ser a única. O novo Roadster é também capaz de ir de 0 a 96 km/h (0-60 mph) entre 1,6 segundos e 0,59 segundos, respectivamente na versão mais lenta e mais rápida, o que são valores até aqui perfeitamente inimagináveis, além de prometer curvar a uma velocidade incrível devido à presença de quatro “aspiradores” sob o chassi, que criam um vácuo.
Como não podia deixar de ser, a apresentação do novo Tesla Roadster decorreu nas instalações da SpaceX, no Texas, conhecida como Starbase, a empresa que desenvolveu os propulsores de ar frio para as naves espaciais da empresa controlada por Elon Musk, que também gere a Tesla. Esta possui em Austin, a cerca de 500 km a Norte da Starbase, a Gigafactory Texas – onde são produzidos o Model Y, a Cybertruck, o Cybercab, o robot Optimus e células para os packs de baterias -, a fábrica que vai produzir o próximo Roadster.
Roadster 2026 é um carro novo ou deriva do modelo de 2017?
A primeira surpresa associada ao novo Roadster teve a ver com a estética, uma vez que o coupé de 2017 era obviamente baixo e largo, mas repleto de linhas curvilíneas, com um habitáculo com quatro lugares (2+2), o novo coupé mantém as duas portas, mas limita o espaço interior a apenas dois lugares, possuindo atrás uma generosa bagageira, que vai alojar um depósito de 200 litros de ar comprimido sob uma pressão brutal de 10.000 PSI. Isto na versão Thrust, uma vez que na versão Rocket, a mais sofisticada e a que pode voar, serão 600 litros, sendo que o depósito adicional de 400 litros é instalado no lugar antes ocupado pelo passageiro.
A estética do novo Roadster é mais moderna, angulosa e em que as superfícies curvas da primeira versão são substituídas por painéis planos, que fazem lembrar uma nave espacial ou, com alguma imaginação, o Lamborghini Gallardo. Enquanto o Roadster de 2017 (pode recordar a apresentação aqui) tinha faróis e portas convencionais, o de 2026 usufrui de faróis escamoteáveis, em que a placa opaca que os protege baixa ligeiramente para expor uma fila horizontal de sete diodos LED muito finos. Já as portas abrem para cima, facilitando o acesso ao habitáculo.
O chassis é também novo, uma vez que se o primeiro Roadster usufruía de um chassis em aço e alumínio, o novo Roadster recorre à fibra de carbono para ganhar rigidez e poupar peso e, para optimizar a solução, vai até ao ponto de integrar os assentos no chassis, que assim só podem regular a inclinação das costas, uma vez que a posição de condução ideal é conseguida com a afinação dos pedais e do volante.
Quanto custa e do que é capaz a versão base do Roadster?
O Roadster é proposto em quatro versões, sendo a mais acessível a base, denominada apenas Roadster. A Tesla não revelou o preço deste novo modelo, mas tudo indica que a esta versão será proposta por menos de 200.000 dólares, ou seja menos de 178.400€ e, à semelhança de todas as outras, montará apenas dois motores e ambos no eixo traseiro – para poder assegurar o torque vectoring e assim modular o comportamento em condução desportiva. Em relação à potência, o vice presidente e responsável pelo “vehicle engineering” da Tesla, revelou à Top Gear que nesta versão mais barata deverá debitar ligeiramente mais do que 800 kW, ou seja, 1088 cv, ligeiramente mais do que os 1020 cv anunciados pelo Model S Plaid, berlina desportiva da marca que herdou a mecânica que foi desenvolvida especificamente para o Roadster trimotor de 2017, com dois motores atrás e um à frente, para garantir tracção 4×4.
A Tesla não avançou com muitos dados sobre a versão base da Roadster, tendo sido mesmo a versão mais promovida, em princípio por ainda estar em fase de desenvolvimento, de forma a ser competitiva, mas sem beliscar a imagem das três versões mais possantes, nomeadamente a Performance, Thrust e Rocket. Contudo, o Roadster mais acessível e menos potente manterá a arquitetura algures entre 800 e 1000V (a Tesla não especifica um valor específico dentro destes limites), o que permitirá carregamentos a 500 kW.
O que oferece o Tesla Roadster Performance
Com mais de um milhar de cavalos e um peso que hoje está nos 1.700 kg, mas que a marca gostaria de reduzir até 1,6 toneladas, substancialmente menos do que os 2.272 kg do Model S Plaid, o que abre a porta para o desportivo Roadster ser capaz de ir de 0-96 km/h (0-60 milhas por hora) em apenas 1,6 segundos, o que deixa antever 1,75 seg. de 0-100 km/h, um valor que bate o Rimac Nevera (1,81 seg.) e o Model S Plaid (2,1 seg), mas melhor do que a mais rápida versão do Porsche Taycan (2,2 seg do Turbo GT com pack Weissach com 1034 cv) e do Ferrari Luce (2,5 seg, com 1050 cv).
A Tesla construiu a gama do Roadster com quatro versões, em que as mais acessíveis acabam por oferecer mais do que as versões anteriores e, com a mesma facilidade, incrementar a aceleração, “as habilidades” e o preço. O Roadster Performance herda a mecânica e o chassis da versão base, mas a potência sobe para mais de 1 MW, o que equivale a mais de 1360 cv, com os técnicos da marca a anteciparem que, em 2028, deverá rondar 1500 cv.
O trunfo do Roadster Performance são os quatro ventiladores de 20 kW que sugam o ar sob o chassis, vedado por quatro saias (duas laterais e outras à frente e atrás) que geram uma down force tão grande (a marca anuncia algo superior a 2G) que pode atingir 10.360 libras, cerca de 4700 kg. Isto representa mais do dobro do peso do Roadster (1700 kg), o que explica que o desportivo consiga subir paredes na vertical e até mesmo andar pelo tecto.
Estes ventiladores alimentados pela bateria transformam o Roadster num carro aspirador, que Musk define como “sucker car”, cujas vantagens em pista ficaram demonstradas em 1970 pelo Chaparral 2J da Can-Am e em 1978 pelo Brabham BT46B de F1, modelos que tiveram de ser banidos por serem muito mais rápidos do que a concorrência. A elevada down force permite ao carro ter maior aderência em curva e logo curvar a uma velocidade superior, com o Tesla a oferecer em relação a estes modelos de competição da década de 70 o facto dos seus ventiladores serem accionados electricamente, enquanto o Chaparral e o Brabham estavam ligados ao motor e dependiam da rotação, o que os limita na fase do arranque e nas curvas lentas e mais longas.
Face à versão base, o Roadster Performance oferece potência superior, anunciando mais de 1 MW, o que equivale a mais de 1360 cv, com alguma imprensa norte-americana a apontar para cerca de 1500 cv. De acordo com Lars Moravy, o vice-presidente da Tesla com o pelouro da Engenharia, o Performance anunciará 0-96 km/h em 1,6 segundos, o que ultrapassa os valores anunciados pelo Roadster de 2017. Porém a autonomia deverá oscilar entre 499 e 531 km, bem abaixo dos 1000 km reivindicados pelo Roadster revelado há 9 anos, sem dúvida por a bateria ter visto a sua capacidade cair (para reduzir o peso) para ligeiramente acima de 100 kWh, em vez dos antes previstos 200 kWh.
E o que oferece a mais o Roadster Thrust?
O Roadster Thrust é uma versão Performance mais “puxada” e mais rápida, com uma tecnologia fornecida pela SpaceX. Começa por manter todos os trunfos, a começar pelos quatro ventiladores que o transformam no carro “aspirador” dos tempos modernos – em honra do Brabham BT46B -, mas instalando na traseira quatro propulsores (ou thrusters em inglês) a ar frio desenvolvidos pela SpaceX que reforçam a capacidade de aceleração. Estes quatro “thrusters” são alimentados pelo ar comprimido contido num depósito em fibra de carbono com 200 litros a uma pressão de 10.000 PSI (ou 639 bar), com este tanque a ocupar uma boa parte da bagageira, atrás do cockpit.
A potência deverá manter-se igual à do Performance, ou seja em qualquer coisa acima de 1360 cv, extraídos dos dois motores traseiros, cada um ligado à sua roda. Mas, curiosamente, não é às unidades eléctricas a que a Tesla pensa recorrer para conseguir tornar o Thruster mais rápido, uma vez que o necessário empurrão é proporcionado pelos 4 propulsores, sendo estes que levam o Roadster Thrust de 0-96 km/h nuns incríveis 0,81 segundos – que nenhum carro que possa ser homologado para circular na estrada consegue sequer aproximar-se, existindo ainda a dúvida que mercados é que quererão homologar este desportivo -, para depois continuar a ganhar velocidade até 370 km/h.
Se o condutor desejar repetir o arranque, de momento ainda vai ter de esperar entre 2 a 6 horas, de acordo com Moravy, sem que tenha explicado o que pode provocar tamanha diferença. Este período de espera destina-se a aguardar que o compressor de alta pressão a bordo volte a encher o depósito de 200 litros de ar comprimido. Mas isso é hoje, pois segundo o engenheiro da Tesla, estão já a trabalhar num sistema que recarregue o tanque em apenas 30 minutos, que provavelmente estará pronto antes do modelo chegar ao mercado em 2028.
O Roadster Rocket voa, mas será que pode circular na estrada?
A versão Rocket é a estrela da gama Roadster, ao assumir-se como aquela que demonstra todo o potencial tecnológico que caracteriza o coupé desportivo de dois lugares da Tesla e que o coloca acima de todos os concorrentes na capacidade fulgurante de atingir 100 km/h nuns incríveis 0,59 segundos. E, como se esta capacidade de acelerar não fosse o suficiente para esmagar os adversários, Lars Moravy faz igualmente saber que o Rocket é capaz de atingir 530 km/h, com Elon Musk a reforçar a ideia ao admitir que esta versão atinge quase Mach 0.5, ou seja, quase metade da velocidade do som, que é de 612 km/h ao nível do mar (Mach 1 nestas condições, é 1224 km/h).
Imbatível em aceleração e velocidade máxima, o Rocket tem a desvantagem de ser quase impossível de ser homologado para circular na via pública, sendo um “brinquedo” para ser utilizado mais em áreas desimpedidas e vastas, do que em pistas ou autódromos tradicionais. Paralelamente, o potencial comprador do Roadster Rocket vai continuar a necessitar de espaço livre volta e meia, pelo menos quando pretender explorar a capacidade de se deslocar pelo ar, realizando as manobras acrobáticas a que assistimos nos vídeos da apresentação do modelo.
Para voar, a Tesla introduziu uma mão cheia de modificações no Rocket, a começar por triplicar a capacidade de ar comprimido armazenado a bordo, uma vez que ao depósito traseiro com 200 litros do Thruster, o Rocket junta outro depósito com 400 litros de capacidade instalado ao lado do condutor, uma vez que esta versão foi convertida num monolugar. A maior quantidade de gás destina-se a alimentar os seis propulsores adicionais que se juntam aos 4 já existentes, aqueles que já estão presentes no Thruster e que têm como objectivo fazer o coupé voar para a frente. Os seis novos thrusters estão distribuídos pelas laterais e pelo fundo do carro, os primeiros para estabilizar o voo ou para ajudar o Rocket a curvar mais depressa, e os restantes para o fazer voar, ou para o colar ainda mais ao solo, mais uma vez para incrementar a eficiência em pista.
Apesar do Rocket não ser um carro voador, mas sim um modelo que pode voar durante breves instantes, a realidade é que necessita de apêndices móveis para modular os curtos períodos de voo. O elemento principal é a asa traseira, que parece integrada na carroçaria, mas que a capacidade de se destacar do coupé, subindo e descendo, além de mudar o ângulo de incidência, de forma a optimizar o voo e a utilização em pista. Igualmente móveis são os pequenos painéis laterais, colocados imediatamente atrás das rodas dianteiras, bem como o apêndice aerodinâmico que existe imediatamente à frente do pára-brisas.
Resta aguardar por 2028, primeiro para saber se desta vez a Tesla vai cumprir o prazo que anunciou e o que finalmente a marca vai apresentar nas quatro versões do Roadster, apesar de apenas três surgirem no site da marca, com a versão base a não ser ainda mencionada e apenas a Performance poder ser encomendada. A Thrust está limitada a uma unidade por cliente e a Rocket está reservada apenas para alguns (poucos) clientes e somente a convite da marca.