1230,8kWh poupados 1230,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

"The Paper": caricatura de um escritório, tragicomédia de um jornal

Este artigo tem mais de 6 meses

O "spin-off" de "The Office" estreia-se na SkyShowtime. Já não existe efeito surpresa do "mockumentary", que para alguns pode ser fundamental, mas há muita e boa piada para ver em 10 episódios.

O Toledo Truth Teller empregou, em tempos, 900 trabalhadores. O mesmo jornal resume-se agora a meia dúzia de secretárias num open space
i

▲O Toledo Truth Teller empregou, em tempos, 900 trabalhadores. O mesmo jornal resume-se agora a meia dúzia de secretárias num open space

▲O Toledo Truth Teller empregou, em tempos, 900 trabalhadores. O mesmo jornal resume-se agora a meia dúzia de secretárias num open space

Nunca vi o The Office americano. Pronto, já disse, está dito. Pode começar o apedrejamento virtual à vontade. O apedrejamento real dispenso, ainda para mais uso óculos e as lentes progressivas são caríssimas. É um facto, só conheço o Michael Scott, o Dwight, o Jim e a Pam dos memes. É o que é, sou um ser humano falho. Julgavam-me perfeita? Tomem um antipirético, que isso deve ser virose. Na persistência dos sintomas, consultem um médico ou farmacêutico.

O que sucede é o seguinte: o The Office inglês, o original,  foi uma tal lambadona na minha moleirinha que me parecia no mínimo uma perda de tempo, no máximo uma heresia, fazer uma versão de uma obra perfeita. Poderão dizer que é exagero, pose, a p… da mania, mas pouquíssimas coisas me abalaram a estrutura como o visionamento das duas temporadas de David Brent e os seus subordinados. Para mim, Ricky Gervais podia não ter feito mais nadinha depois do The Office (felizmente fez: Extras, Derek, After Life) que já merecia um lugar no meu panteão pessoal. De maneiras que, apesar de ter uma crush pelo Steve Carrel, fingi-me de morta e não vi nadinha. Numa onda mais recente da Officemania U.S.A., estive quase a ceder, já parcialmente convencida de que estava só armada em parva. Coisas que a idade traz. Eis que me dei conta que são 188 episódios, pelo que arrumei a versão americana naquela prateleira do “um dia, quando eu tiver vagar”. Diga-se que está muitíssimo bem acompanhada com coisas como o Mad Men, Em busca do tempo perdido e arrumar a minha gaveta de vernizes.

Vai daí surge-me este spin-off The Paper e, na loucura, decidi atirar-me a ele sem ver o The Office que o pariu. Vai totalmente contra o meu carácter obsessivo, mas vamos só assumir que isto é um glitch no meu sistema de valores. Na verdade, é a segunda vez que isto acontece. Esta que vos escreve é, com grande probabilidade, a única pessoa no planeta Terra que não viu mais que um episódio de The Walking Dead e acompanhou umas boas 3 temporadas de Fear the Walking Dead. Eu sei, dava direito a junta médica, mas consideremos só uma excentricidade, até porque nem eu sei propriamente explicar o fenómeno. Pode ter sido qualquer coisa que comi e me caiu mal.

[trailer de “The Paper”:]

“Em 2005, uma equipa de documentário começou a filmar numa companhia de papel em Scranton, Pensilvânia. Seguiram os trabalhadores num escritório normal, a lidar com as novas regras de comportamento no espaço de trabalho e os altos e baixos das suas vidas pessoais. 20 anos depois, eles voltaram.” Este é o ponto prévio de The Paper. Vai daí a equipa de documentaristas bate com o nariz na porta da sede da dita companhia, a Dunder Mifflin Paper Company, porque foi vendida a uma empresa chamada Enervate e deslocada para Toledo, Ohio. Mais propriamente, para o edifício que em tempos idos albergou o jornal Toledo Truth Teller, com 900 trabalhadores. Jornal esse que agora se resume a meia dúzia de secretárias num open space, ocupado na sua maioria pela Softees, a marca de papel higiénico da Enervate.

Não vou dizer que o subtexto de toda a série é que a imprensa escrita está tão na merda que o papel higiénico lhe ganhou terreno, porque seria deselegante. Mas posso citar Ken (Tim Key), o estratega  financeiro (uma espécie de David Brent, que começou por me irritar por isso mesmo, mas acabou por me convencer): “Tens de te lembrar que o nosso cliente-alvo são pessoas na sanita”.

▲ História competente, belas personagens e muito boas piadas. Palmas a Greg Daniels (do mítico "SNL" e do multipremiado "Parks and Rec") e Michael Koman (de "Nathan for you" e "How to with John Wilson")

O início de The Paper encontra o Toledo Truth Teller nas ruas da amargura. Esmeralda Grand é a editora interina, está mortinha por mandar a versão impressa às urtigas, em benefício de “TTT”, a versão online. Esmeralda (Sabrina Impacciatore, a convulsiva gerente do White Lotus da segunda temporada), é italiana, tem o compromisso com a verdade de uma cartomante de TikTok e é ex-concorrente do Casados à Primeira Vista. E é aqui que entra Ned Sampson (o meu adorado Domhnall Gleeson de Anna Karenina, Black Mirror e Ex Machina), alguém que estudou para ser jornalista, mas por pressão paterna foi para a área comercial e bateu records a vender papel higiénico.

Quando, finalmente, se emancipou do jugo do pai, Ned decidiu tentar novamente cumprir o sonho porque, nas suas próprias palavras: “A minha Kryptonite é o amor ao jornalismo. Do fact checking à criação de ligação com as fontes, à beira de um copo de whiskey,  num bar repleto de fumo. Essa é a minha fraqueza. Isso, e romantizar as coisas, segundo me disseram”. Escusado será dizer, mas vou dizer na mesma, que a alpinista Esmeralda vai fazer a vida negra ao idealista Ned, sempre que possível, com o beneplácito do homem dos números Ken, porque “a Esmeralda e eu… Bem, nós partilhamos uma certa sofisticação europeia. Não que o Reino Unido esteja atualmente na União Europeia. Graças a Deus”.

▲ O início de The Paper encontra o Toledo Truth Teller nas ruas da amargura. Esmeralda Grand é a editora interina, está mortinha por mandar a versão impressa às urtigas

E que equipa é esta com que Ned se depara? Com que redação é que o novo editor pode contar para voltar a imprimir as notícias que importam? Uma redação que tem menos jornalistas — dois — do que contabilistas — três. Os jornalistas são a novata Mare (Chelsea Frei) e o velho lobo Barry (Duane R. Shepard Sr.). Mare é ex-militar, foi redatora no Stars and Stripes e passa os dias a arrastar links de notícias da Associated Press para o programa de paginação, assim as mesmas caibam nas caixas de texto previstas e estejam incluídas na assinatura paga pelo jornal. Barry faz, alegadamente, a cobertura do desporto escolar, mas dada a sua provecta idade, passa os dias a ressonar na sua secretária. Felizmente, está surdo que nem uma porta, de maneiras que não acorda com o ronco.

Já o trio da contabilidade é chefiado por Oscar (Oscar Nuñez), única personagem que migra de The Office, e os subordinados são  Adelola (Gbemisola Ikumelo) e Adam (Alex Edelman), uma dupla dinâmica… só que não. Há ainda um vendedor de publicidade, Detrick Moore (Melvin Gregg) e uma responsável por arrecadar os dados pessoais dos assinantes que clicam em “Aceitar todos os cookies”, Nicole Lee (Ramona Young), que é dona de uma pássaro chamado Cardi Beek. Não havendo dinheiro para contratar gente capaz, Ned avança com estes incapazes mesmo. O quão incapazes? À menção de Ned dos 5 W’s (Who? What? Where? When? Why?), Adam responde “Isso é um gang?”. Ah, ainda há o Travis (Eric Rahill), conhecido por ser obcecado pelo seu drone. Trabalha do lado do papel higiénico, não tem nada a ver com o jornal, mas em tempo de guerra…

▲ Oscar, interpretado por Óscar Nuñez, é a única personagem que migra de "The Office" para este "The Paper"

A narrativa vai acompanhando as consecutivas tentativas de sabotagem de Esmeralda, a italiana destravada, “mas com um corpo muito bonito”, e de Ken, o inglês medíocre que aspira a ser “o perfeito yes man corporativo” à equipa de Ned. A verdade é que não seria preciso grande empurrão para o fracasso, porque é gente que é naturalmente incompetente e mais ou menos imbecil.

História competente, belas personagens e muito boas piadas. Palmas a Greg Daniels (do mítico SNL e do multipremiado Parks and Rec) e Michael Koman (de Nathan for you e How to with John Wilson, das minhas coisas favoritas da vida). A caricatura da corda na garganta na imprensa escrita é tragicómica como se quer, dito e feito para o género mockumentary. Embora se tenha perdido o efeito surpresa que me deixou abesbílica no início dos anos 2000, surpresa essa que é fundamental no humor segundo algumas correntes, a verdade é que The Paper não perde graça por isso. E à luz desta epifania, entre a escrita e a publicação deste artigo, já limpei a primeira temporada do The Office de Steve Carell. Surpresa!

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.