Num clássico sketch do saudoso Herman Enciclopédia, Herman José caricatura “O Português” ao abordá-lo como se estivesse num documentário da vida animal. Quase três décadas depois, Porta Premium faz o mesmo, mas com a figura do agente imobiliário português. É uma criação de Tota Alves (O Meu Sangue, Dolores, Conseguimos Fazer um Filme) e é, segundo as palavras da autora, “uma comédia sobre a crise de habitação”. Mas ao fazê-la do ponto de vista do negócio, com uma agência imobiliária em Loures como cenário, gera-se o efeito “habitat”. O registo é o de mockumentary. Pensamos de imediato em The Office e isso não é pecado nem erro, até porque o desenho e a lógica de construção das personagens obedece à ideia do original britânico transformado em sucesso americano.
The Office cativava em parte pelo negócio retratado: a ideia de uma empresa de papel nos arredores de Londres e o respetivo dia a dia dos que por lá trabalhavam era suficientemente sugestiva para querermos saber tudo sobre o potencial aborrecimento das personagens e todos os sonhos por concretizar. The Office, em ambas as versões, triunfava porque dava protagonismo à banalidade e à insignificância. No fundo, à vida de um qualquer anónimo, com o extra (enorme) de ser escrito com muita graça.
As personagens de Porta Premium, os agentes imobiliários, são exatamente o oposto. E, por isso, é tão fascinante vê-los como centro de uma série de comédia. A profissão de agente imobiliário é idiossincrática e é uma glorificação de várias coisas. É uma profissão de oportunidade e, como tal, é um grande cemitério de pessoas que “já foram” e que agora “é que irão ser”. É a glorificação da venda como arte, da potencial escala do negócio. E é também a exaltação da figura do mentor, da concretização e dos números — mais importantes do que a forma de os fazer. Tudo vale — e isso não é ser fornecedor de papel.
[o trailer de “Porta Premium”:]
É por tudo valer que “qualquer pessoa pode ser agente imobiliário”, assim tenha a oportunidade. Todos conhecemos alguém que o é nas horas vagas ou a tempo inteiro. E Porta Premium pega nessa ideia e aproxima-nos de uma ficção irónica que soa a realidade. O material fornecido é tanto, tão vasto e está tão presente em todo o lado, que a coisa aparentemente faz-se sozinha. Claro que não faz, mas a arte é levar-nos a crer nesse ponto de ligeireza.
O desenho é perfeito. Ramiro Pais (Gonçalo Waddington) é o tipo sem estudos, sem mundo (vende a ideia de que o tem, da mesma forma que vende qualquer outra coisa), o desnorteado que foi parar ao ramo imobiliário depois de ter trabalhado na empresa de construção civil do tio e esta ter ido à falência com a troika. O imobiliário foi uma oportunidade, como só podia ter sido.
André Moreira (Mauro Hermínio) é o lacaio de Pais, aquele tipo que está eternamente à sombra do pai e que é também um hype man para todas as ocasiões. Graça Cunha (Tânia Alves) seria uma ótima secretária resignada, mas é só uma péssima agente imobiliária. Em tempos ricos, tudo lhe subiu à cabeça e agora sonha com aquela promoção para gerir a sua própria agência em Peniche. Marisa Natário (Sónia Balacó) parece ser a única personagem com outros projetos — ser atriz, claro —, mas que só têm lugar nas pesquisas da internet. Marta Mineiro (Janico Durão) é a nova funcionária e rapidamente é revelado que tem dormido no escritório — por causa da crise de habitação, evidente.
▲ Não há aqui grandes subtilezas, a ironia é óbvia, a crítica é-nos entregue sem licença, uma hipertrofia de sonhos da escola secundária, em que o que importa é o sucesso imediato e a respetiva celebração
Tudo é mais ou menos óbvio em Porta Premium, os cinco episódios da série são fruta à mão de colher. Não há aqui grandes subtilezas, a ironia é óbvia, a crítica é-nos entregue sem licença, uma hipertrofia de sonhos da escola secundária, em que o que importa é o sucesso imediato e a respetiva celebração. Ouvem-se coisas como “típica arquitetura de Loures” ou projetos com o nome “Loures Villa Prestige Luxury Living”. Há uns anos soariam a disparate, a exagero desonesto da realidade, hoje, a ficção só está mesmo a imitar a realidade.
Os clichés da crise da habitação também estão todos lá: os expats, os ricos, os oportunistas do investimento, os leilões de rendas, as invenções do mercado, o quão patéticas conseguem ser e o quão patético é por vezes o uso desses clichés como justificação. Porta Premium é um ótimo exercício de observação — da realidade com a qual ironiza e dos formatos televisivos onde foi buscar inspiração. Depois, é fruto maduro de uma escrita inteligente e acutilante. E parabéns a quem se lembrou de Rita Pereira, cuja pequena participação é um bónus açucarado, muito acima daquilo que mais lhe conhecemos.