A última edição do Festival do Cairo, concluída no último fim de semana, premiou um notável filme britânico sobre a solidão na velhice e a merecer ampla divulgação. Dragonfly, novo trabalho de um cineasta desconhecido entre nós, Paul Andrew Williams, é servido por duas actuações de grande nível de Brenda Blethyn e Andrea Riseborough. É a história de Elsie (Blethyn), mulher idosa que, após uma queda, deixa de poder assegurar a sua independência na periferia da malha urbana em que reside. As assistentes sociais que o filho ausente lhe envia não a satisfazem e, entretanto, entra em cena Colleen (Riseborough), a jovem vizinha do lado, que vive com um cão enorme. Colleen oferece-se para prestar auxílio a Elsie e o filme deixa em suspenso as reais intenções da primeira, entre a compaixão e o instinto predador, suspeitas que se adensam quando a idosa acaba por confiar-lhe o cartão de crédito para assegurar as compras da mercearia.
À superfície, como cartão de visita, Dragonfly traz os moldes comuns ao realismo social britânico. Evolui depois, com o horizonte no cinema de Mike Leigh, para um duplo retrato psicológico que se vai tornando cada vez mais perturbador, tal como acontecia com a prostituta em fuga do seu colérico proxeneta em London to Brighton (2006), longa de estreia de Paul Andrew Williams. Além da Pirâmide de Ouro de Melhor Filme, o júri presidido por Nuri Bilge Ceylan premiou as actrizes desta produção britânica que se impôs em concurso tradicionalmente dominado pelo cinema árabe.
▲ O realizador e argumentista Paul Andrew Williams, depois da vitória com "Dragonfly"
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No concurso internacional, Cairo premiou também Era Uma Vez em Gaza, dos irmãos Arab e Tarzan Nasser (já exibido em Portugal depois da estreia em Cannes), assim como o actor Majd Eid, pela mesma obra, uma co-produção que envolveu a portuguesa Ukbar Filmes. Outras distinções destacaram o documentário Souraya Mon Amour, de Nicolas Khouri, retrato envolvente de Souraya Baghdadi, viúva de uma das maiores figuras do cinema libanês contemporâneo, Maroun Baghdadi (1950-1993), assim como As We Breathe, do turco Seyhmus Altun (Prémio Especial do Júri) e The Things You Kill, de Ali Reda Khatami, cineasta iraniano radicado em Toronto (Melhor Argumento e Prémio Fipresci).
Fora dos prémios, ficou o mais popular dos filmes apresentados a concurso, muito aplaudido pelas 1300 pessoas que lotaram a sala principal da Ópera do Cairo, que alberga o festival: Calle Málaga, realizado pela marroquina Maryam Touzani, mulher do também cineasta Nabil Ayouch, com uma excelente Carmen Maura no papel principal. Também esta é uma história de solidão na velhice: a personagem interpretada pela actriz espanhola é uma idosa de Tânger com quase 80 anos e que recusa abandonar a casa (e a cidade) em que sempre viveu, contra a vontade da única filha que, atravessando graves problemas financeiros, se quer desfazer do imóvel. Calle Málaga estrear-se-á em breve nas salas portuguesas pela Leopardo Filmes após ter sido exibido este mês no Leffest, fora de concurso.
▲ Carmen Maura em “Calle Málaga”, da marroquina Maryam Touzani
Durante décadas, o Festival do Cairo foi o local de encontro exclusivo e a montra anual por excelência de todo o cinema árabe, no seguimento da enorme popularidade da cinematografia egípcia, uma das mais valiosas do mundo. Hoje, a situação é diferente. A nível interno, Cairo enfrenta a concorrência do Festival El Gouna, iniciativa privada e recente, destinada a promover o turismo da região de Hurghada, junto ao Mar Vermelho.
Na esfera MENA (Médio Oriente e Norte da África), em que predomina a língua árabe e residem 380 milhões de pessoas, o Festival de Marraquexe, muito aberto ao Ocidente, goza de prestígio internacional consolidado e financiamento directo da família real marroquina. A este se juntou, com grande relevo nos últimos anos, o festival Red Sea, em Jedá, na Arábia Saudita, país que tem investido fortemente no cinema esta década depois de ter banido as salas do seu território durante 35 anos. Contudo, nenhum dos citados tem o historial do Cairo, o único que ostenta a categoria “A” da FIAPF, Federação Internacional de Associações de Produtores de Cinema. A concorrência entre estes eventos é também sublinhada pela calendarização, já que todos decorrem no último trimestre do ano.
▲ “Portas do Cairo, 2025”, obra de Vhils exposta no Cairo
Já sucedeu em anos transactos encontrar-se cinema português no Cairo, algo que não se verificou este ano. Mas enquanto o festival decorria, inaugurou Vhils (Alexandre Farto) uma exposição inédita na capital egípcia, junto às pirâmides de Gizé e ao recém-inaugurado Grande Museu Egípcio, parte integrante da exposição Forever is Now, que ali decorre pelo quinto ano seguido. A obra do artista português, um dos mais reconhecidos da arte urbana nacional, intitula-se Portas do Cairo, 2025 e estará patente até 6 de Dezembro, ao lado de instalações dos artistas Michelangelo Pistoletto (Itália), King Houndekpinkou (França/Benin) e Jongkyu Park (Coreia do Sul). Vhils é o primeiro artista português a participar na Forever is Now, com curadoria da franco-egípcia Nadine Abdel Ghaffar, da Art d’Egypte.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.