Desde 2014, quando fez Ned Rifle (também o pseudónimo que usa para assinar a música dos seus filmes), que Hal Hartley, novaiorquino de casca e gema e realizador independente de referência dos realizadores independentes, não rodava um filme (até 2017, esteve ocupado com uma série, Red Oaks, para a Amazon). Em 2020, e após uma campanha de sucesso na Kickstarter para angariar financiamento, Hartley estava pronto para começar a trabalhar em Onde Aterrar, quando se deu a pandemia e o teve que esperar que tudo voltasse ao normal para conseguir concretizar o projeto.

Onde Aterrar chega agora, e finalmente, aos cinemas após ganhar o LEFFEST. Bill Sage, um dos habitués dos filmes de Hal Hartley, interpreta Joe Fulton, um conceituado realizador de comédias românticas mainstream (Hartley frisou que Onde Aterrar “não é uma fita autobiográfica, mas sim pessoal”) à beira dos 60 anos e semi-reformado, que concorre ao cargo de ajudante do jardineiro do cemitério da igreja perto do seu apartamento do Upper West Side, porque quer trabalhar com as mãos ao ar livre e chegar ao fim do dia saudavelmente fatigado. Ao mesmo tempo, Joe decide fazer o testamento, pelo que vai falar com a sua advogada.

[Veja o “trailer” de “Como Aterrar”:]

Só que que a namorada de Joe, Muriel (Kim Taff), uma muito melodramática atriz e intérprete de uma popularíssima série de ficção científica, e a sua sobrinha e assistente, Veronica (Katelyn Sparks), ficam confundidas com isto e pensam que ele tem uma doença terminal e vai morrer. Convencendo-se ainda mais quando Veronica acha uma carta fechada com o endereço de um hospital na secretária do tio. O boato cedo começa a correr, e a casa do cineasta acorrem vizinhos, amigos, vagos conhecidos e a sua ex-mulher, Clara (Edie Falco). Aparecendo também dois jovens e ambiciosos argumentistas que escreveram uma série e a querem vender para streaming, um dos quais diz a Joe que acha que é seu filho ilegítimo.

Onde Aterrar é um filme maneirinho, curto (dura apenas 75 minutos) e fino, uma comédia de equívocos urbana em que encontramos o humor seco e irónico, a veia filosófica e a curiosidade intelectual, os diálogos ágeis, espirituosos e inteligentes, a galeria de personagens características, das mais extravagantes às sensatas, e a eficiente lhaneza estilística a que o autor de Homens Simples e Amador nos habitou. E se a fita parece rodada em casa do realizador, é porque foi mesmo. Parte da história de Onde Aterrar passa-se na sala do apartamento de Nova Iorque de Hal Hartley, que a certa altura está quase tão cheio de gente como o camarote dos Irmãos Marx em Uma Noite na Ópera.

[Veja Hal Hartley falar sobre as mudanças no cinema independente:]

A elaboração do testamento, e as reações enganadas e desencontradas que desencadeia, são aproveitadas por Joe para fazer um balanço da sua vida e carreira artística, e refletir sobre o valor e a importância das posses materiais. O filme toma a forma de uma sucessão de conversas entre Joe e os mais variados interlocutores, do jardineiro do cemitério da igreja (interpretado por Robert John Burke, outra cara que vem de longe no cinema de Hal Hartley) que ele aborda por causa do emprego, a uma amiga centenária que já viveu muito e fuma charutos na cara da sua enfermeira. Sem esquecer o zelador do prédio que se quer candidatar a um cargo autárquico como socialista, ou o vizinho rocker veterano que cobiça a guitarra elétrica vintage do cineasta.  

Os temas das conversas abrangem os filmes de Joe (que a dada altura é entrevistado por uma assertiva estudiosa que está a escrever um livro sobre ele e faz leituras pretensiosas e complicadas dos ditos, para seu total espanto), religião, política, filosofia, o casamento, a mortalidade, o futuro da espécie humana, as séries da Netflix e até a melhor maneira de tirar um saco de plástico dos ramos de uma árvore (há que ter uma boa fisga, a pedra com a forma perfeita e muita pontaria). Mas tudo isto sem a menor sombra de presunção, e sem que Hal Hartley nos queira doutrinar ou impingir quaisquer teses. Em Onde Aterrar, são muito mais as perguntas postas do que as respostas dadas.

Fala-se muito neste filme, sim. Mas a conversa é quase sempre interessante, seja mais séria, seja corriqueira (ver os diálogos entre Joe e a ex-mulher sobre o faqueiro que ele tem em casa e nunca usa), as palavras nunca pesam nem são demasiadas, e Hal Hartley, que faz o ligeiro soar a profundo e o complexo parecer evidente, mantém Onde Aterrar tão bem ritmado como uma vivaz peça musical (a propósito, o realizador também compôs a banda sonora). Se, como se lê por aí, Onde Aterrar for o seu último filme, então é uma despedida em tom maior. Se não for, que o próximo seja tão bom como este.