Os humanos já faziam fogo deliberadamente há 400 mil anos, ou seja, 350 mil anos mais cedo do que se pensava. É esta a conclusão de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Nature. A investigação resulta de mais de uma década de escavações em Barnham, Suffolk, cerca de 140 quilómetros a nordeste de Londres, e apresenta aquilo que os investigadores descrevem como a mais antiga prova inequívoca de fogo feito por mãos humanas.
Até agora, as provas mais antigas de uso do fogo pelos humanos tinham sido encontradas no norte de França e tinham 50 mil anos. Contudo, a porção de terra queimada e machados de pedra detetados num campo de Suffolk é bastante mais antiga e pode ter sido causada pelos neandertais, hipótese reforçada pelos fósseis, também com 400 mil anos, desta espécie encontrados nas proximidades. “Há um crânio de um neandertal precoce em Swanscombe com a mesma idade, cerca de 400 mil anos”, relatou Nick Ashton, um dos co-autores do estudo, à ABC australiana, embora outros especialistas considerem possível a presença de espécies mais antigas, como a do Homo heidelbergensis.
“É a descoberta mais extraordinária dos meus 40 anos de carreira”, afirmou Nick Ashton, curador no British Museum. “O momento-chave foi a descoberta de pirite de ferro”, um mineral essencial para produzir faíscas ao ser batida contra o sílex dos machados. “É muito rara na região. Dos 26 locais examinados, com 121 mil pedras identificadas, nenhuma era pirite. A única vez que a descobrimos foi em associação com uma fogueira e a machados de pedra. Noutras palavras, os humanos trouxeram a pirite para o local com a intenção de criar fogo.” Esta confirmação de que o fogo foi produzido deliberadamente, e não apenas aproveitado a partir de incêndios naturais — como se sabe ter acontecido em África e no Médio Oriente há mais de um milhão de anos —, altera o quadro cronológico.
Chris Stringer, co-autor do estudo e investigador do Museu da História Natural, em Londres, está convicto de que “os neandertais estavam a fazer fogo no [que hoje é] o Reino Unido há 400 mil anos”.
“O controlo do fogo é um dos momentos de viragem na história humana“, afirmou Rob Davis, arqueólogo do Paleolítico no British Museum e co-líder da investigação, citado pelo jornal The Guardian. O fogo tornou-se “um centro de interações sociais, de partilha de comida, de linguagem emergente e das primeiras narrativas”, sublinhou.
As investigações ao local começaram no início do século XX, tendo só sido encontrados os primeiros indícios de fogo em 2014. Através da análise aos sedimentos, foi possível detetar que tinham propriedades diversas das expectáveis num fogo natural, como temperaturas mais elevadas só possíveis numa queima localizada de madeira, auxiliada pelo uso das pirites.