Foi tão saliente que provavelmente ofuscou o essencial quando se ensaia a engenharia das suas escolhas de estilo. Falamos do decote, claro, pedra de toque do sex symbol, ao mesmo tempo grito emancipatório e prisão. Mas entender a Bardolatria desses tempos áureos vai além desse gaveta. A jovem Brigitte Bardot (1934-2025), e os seus hábitos de compras, representavam uma juventude francesa em processo de mudança, afastando-se das casas de alta-costura e da roupa por medida e aderindo ao boom do pronto a vestir, prático e acessível. Do conforto que reclamou para os pés à originalidade que imprimiu aos seus casamentos, da maquilhagem icónica às botas altas. Num permanente trompe l’oeil, BB cruzou referências clássicas e ultra femininas com exuberância e atrevimento, carimbando o passaporte do reconhecido estilo francês no feminino. Para recordar ou reproduzir, siga os passos essenciais.
Os ombros de Bardot
O decote Bardot é provavelmente das heranças mais fortes que BB nos deixou, com uma linha que deixa os ombros em evidência. Até hoje a expressão é usada para referir este modelo, em que a atriz se deixou fotografar desde o começo dos anos 50, aplicado em tops e vestidos, combinando elegância e sensualidade. Em pouco tempo, o registo passou a ser sinónimo do “chique francês” ou “french girl chic” que as revistas haveriam de fixar e o algoritmo haveria de perseguir muitas décadas volvidas.
Curiosamente, a atriz nascida em Paris em 1934, no seio de uma família burguesa, conservadora e católica, tinha a intenção de prosseguir uma carreira como bailarina, mas foi depois de aparecer num desfile de moda em 1949, e posteriormente surgir em revistas de moda francesa, da Jardins des Modes à Elle, que a sua carreira sofreu uma guinada, quando foi descoberta pelo ator, escritor e realizador Roger Vadim.
Mais elevado ou bem corrente, BB ditou tendências que se escreveram com muitas outras notas, não passando despercebida sequer com uns básicos jeans Seafarer, uma das marcas de sucesso da época. As típicas marinières, por exemplo, camisolas de riscas de inspiração náutica que tão bem exprimem o estilo gaulês, foram outra das referências populares nos anos 60, perfeitas para uma versão mais descontraída e desportiva. Um clássico que Coco Chanel trabalhou para o vestuário feminino, e que sobrevive até hoje em grande forma, e que se mantém entre os prediletos nas temporadas primavera-verão, tanto na praia como na cidade. No caso de Bardot, tanto no contexto das grandes capitais como no cenário do sul de França, onde a sua presença contribuiu para a pujança da vida e do estilo na riviera.
Mas por diversas vezes BB também converteu os eventos em autênticas passerelles. De novo com Chanel, em versões mais sofisticadas, com um vestido de noite deslumbrante de cetim branco bordado com lantejoulas, por Pierre Balmain, para conhecer a então rainha Isabel II, em 1956; à saída de uma loja Dior, personificando o melhor do New Look; ou brilhando (literalmente) com os mais arrojados visuais. O designer Paco Rabbane foi um dos cúmplices dessa estratégia, rubricando peças tão míticas quanto metalizadas, a começar pelas duas peças e transparência que a Bardot usou na Noite do Cinema, em 1969. Para as páginas da Vogue, a bíblia da Moda, a musa de uma geração posou para a lente de lendas como William Klein ou David Bailey, vestindo as etiquetas do momento.
À entrada para uma nova era, Brigitte voltava a confiar em Rabanne para o videoclip de “Contact”, em que aparece mais uma vez em tom futurista. Numa modalidade mais clássica, discreta mas nem por isso menos marcante, foi um dos rostos femininos que vestiu e difundiu o célebre Le Smoking de Yves Saint Laurent. Esse apontamento de androginia revelou-se em vários momentos e teve um dos seus pontos altos na estreia em Londres do seu filme Shalako, em 1968. Em 2016, Henry-Jean Servat lançava a obra “Brigitte Bardot: My Life in Fashion”, uma edição Flammarion que revia a ligação da atriz aos principais nomes da moda.
As bailarinas e as botas de cano alto
“E Deus criou a mulher” catapultou-a para o estrelato mas um acessório inesperado brilharia em igual medida na pista da moda. Brigitte, que praticara ballet na infância e começo da adolescência, pediu a Rose Repetto, da famosa marca de sabrinas, que criasse um par perfeito para a cidade, inspirado nos modelos usados naquela disciplina mas confortável em ambiente citadino. Tudo porque a experiência de circular pelas ruas empedradas de Saint Tropez se tornava um pouco mais penosa com os sapatos errados (entenda-se, saltos).
O resultado da sua encomenda foi a criação, em 1956, da bailarina Cendrillon, ou Cinderela, que lhe deu total liberdade de movimento, na vida real e no ecrã, já que as sabrinas tiveram a sua dose de protagonismo no filme dirigido por Roger Vadim, e que se tornariam até hoje um clássico da maison Repetto, ganhando regulares versões comemorativas, como quando cumpriram provectos 60 anos. No caso de Bardot, a versão carmim figura como uma das mais emblemáticas.
O calçado chamou a atenção de milhões de mulheres em todo o mundo e o impacto cultural foi de tal ordem que em 2018 o norte-americano MoMA (Museum of Modern Art) anunciou que tinha adicionado à sua coleção permanente um destes pares Cendrillon, pelo “excelente design” e representação do estilo francês, equiparando o acessório no seu acervo a obras de génios como Matisse e Duchamp. Até astros no masculino como Serge Gainsbourg sucumbiram à atração dos modelos da Repetto, a começar pelo Richelieu Zizi.
Num outro registo, Brigitte também deu gás às botas de cano alto, incluindo numa das versões que se tornaria mais lendária. Em 1967, no videoclip do tema “Harley Davidson”, de Serge Gainsbourg, a bombshell usa uma versão costumizada das botas Cuissard criadas pelo mago dos sapatos Roger Vivier.
Os vestidos ultrafemininos e as bodas na vida real e no ecrã
A cintura marcada, a silhueta de vespa, foram marcas distintivas da mulher que criou — e que mataria anos mais tarde. A sugestão da sensualidade cruzava-se com uma certa elegância burguesa e doçura infantil, expressiva não só nos modelos de vestidos estivais com que encheu as ruas e os ecrãs mas também em algumas escolhas particulares e definidoras do seu estilo. Durante o festival de Cinema de Cannes, o seu estilo livre manifestava-se a um ponto hoje impensável, quando analisada a coreografia fechada que as celebridades seguem, entre compromissos com marcas e outras obrigações que cortaram a espontaneidade do evento. Era comum vê-la como em imagem em baixo, incluindo a remar no Mediterrâneo com um vestido rodado e volumoso.
E se alguém popularizou o estampado vichy foi Bardot. Desde logo em 1959 quando (mais uma vez) ousou ser diferente no dia do seu segundo casamento, com Jacques Charrier. Para essa ocasião, BB elegeu um estampado aos quadradinhos cor de rosa, numa versão bem girly, com gola e punhos rendados. A festa decorreu em Louvecienne e as fotos do casamento foram registadas no jardim de casa dos pais do noivo. Jaques Esterel, o criador do vestido, assumia que imaginara uma pequena pastorinha e o resultado aproximou-se — de tal forma que também a sua carreira se intensificou. Esterel (1918-1974) trabalhava como engenheiro e designer de máquinas e ferramentas quando visitou a casa de Louis Féraud e se atreveu a tentar a sorte no design de moda. Criou a sua Creations Jacques Esterel em 1953, mas foi preciso aguardar até à criação do vestido de noiva de Brigitte Bardot para se estabelecer no setor.
Jacques concebeu um modelo bem mais leve do que o eleito para a sua primeira boda, com Roger Vadim, aos 18 anos, uma criação fiel à silhueta de Belle Époque, com assinatura de Madame Ogive, uma costureira da Rua de Passy.
Em 1966, seria a vez de trocar votos com o industrial e playboy alemão Gunter Sachs. Desta vez, no cenário de Las Vegas, BB elevou os níveis de glamour com um mini vestido aos estilo mod, meias até ao joelho, sapatos de biqueira quadrada e uma longa capa branca com pelo no capuz.O quarto enlace seria formalizado em 16 de agosto de 1992, de forma discreta e longe das câmaras, numa capela na Noruega, com Bernard d’Ormale.
Também as longas metragens lhe deram oportunidade de se vestir de noiva por mais que uma vez, com versões que são ótimas fontes de inspiração para as noivas menos protocolares. Basta conferir a trama, as imagens e as penas de “Duas Semanas em Setembro”, de 1966; e ainda de “Boulevard do rum”, de 1977. E, claro, a criação Pierre Balmain que usou em “E Deus criou a Mulher”, quando se casa no cinema com Jean-Louis Trintignant. No mesmo ano, voltaria a ver um noiva Balmain na fita “A Noiva Era de Gritos”. No ano seguinte, em “A Parisiense”, Jacques Esterel serviu um modelo corte império. Em 1959, o mesmo criador aposta num vestido rendado e romântico para as cenas em “Quer dançar comigo?”.
Não menos lendário foram os look escolhidos para assinar os papéis do divórcio. Que o digam as imagens saídas de 12 de abril de 1957, quando é vista ao lado de Vadim, a sair do cartório, ao melhor estilo minimalista chique, com uns óculos escuros cat eye e um longo casaco leopardo. Em 1962, para oficializar a separação de Charrier, não desceria o nível, de novo com um casaco de peles e com um elegante chapéu.
O cabelo, o risco preto e o poder de um biquini
O seu cabelo louro tornou-se uma imagem de marca com o efeito bouffant ou beehive tão característico da era. Solto ou apanhado, sempre com o subtil toque despenteado para acrescentar espontaneidade ao look, o arquivo enche-se de imagens, o Pinterest revela boas impressões para quem procura uma mudança de visual com um toque vintage, e no Youtube proliferam os tutoriais para reproduzir tudo em casa. Se a histórica ficasse por aqui já seria suficientemente boa mas Brigitte elevou a fasquia, dentro dessa perfeita imperfeição.
Em “O Desprezo”, de 1963, em que contracena com Michel Picolli, ofereceu-nos um dos momentos mais reconhecíveis no filme de Jean-Luc Godard, quando surge com uma fita na cabeça azul, mais uma nota saída do guia de estilo da década de 60. Outro dos destaques é o risco preto nos olhos, com o liner a acentuar a imagem felina da atriz que, como já percebemos, também não desprezou o cabedal e o animal print no seu armário. E que se tornaria fervorosa apaixonada dos animais.
Muitos anos mais tarde, nomes como Sienna Miller, Alexa Chung, Cara Delevingne ou Kate Moss haveriam de beber desta imagem, apostando naquela vibração do penteado, que cultivou ao longo de toda a vida, e no traço de maquilhagem definidor.
De resto o cat eye tanto foi aplicado à maquilhagem como ao modelo de óculos escuros tantas vezes usado. Quanto às tranças no cabeço e aos laços dos primeiros anos deram lugar a uma sofisticação mais adulta com o passar do tempo, mas os acessórios de cabeça mantiveram-se em cena. As boinas, bonés, lenços e chapéus de palha foram uma instituição, coroando o street style da estrela nas suas aparições públicas. Mesmo nos últimos anos, quando as aparições públicas foram rareando, continuou igual a si própria, como em fevereiro de 2000, quando assistiu ao funeral de Roger Vadim, em Saint Tropez, acompanhada por Bernard d’Ormale.
Fiel a um certo je ne sais quois francês, não precisava de carteiras dispendiosas para brilhar. Os descontraídos cestos de verga passearam-se muitas vezes na sua mão, uma moda que Jane Birkin aprovaria de cruz — mas marcas como a Lancel encarregaram-se de homenagear a toada babydoll, criando modelos com o seu nome.
Foi precisamente na praia que Bardot deu vida a mais um capítulo para a posteridade. Com efeito de bomba atómica, como descreveria Diana Vreeland sobre o biquini, BB deu-lhe a força explosiva que faltava, ganhando forma e fama nos areais da riviera francesa, desconcertando e encantando em igual medida. Se as duas peças colocaram em definitivo o sul de França no mapa, digamos que não causava inferior estrondo em fato de banho de uma só peça. Quase sempre brancos, para um furor muito semelhante ao que Ursula Andress ou a Honey Ryder de Dr. No, a primeira Bond Girl de relevo da saga James Bond haveria de fazer em 1962. Mas não só.
Antes chegou BB, e quando surgiu pela primeira vez de biquini nos areais de Cannes, então num padrão florido, tinha apenas 18 anos e corria 1953. Um ano antes, figurara no filme Marina, the Girl in the Bikini, pelo que a aparição na praia em pleno festival de Cinema era o gesto promocional que faltava se acaso alguém não vira a longa-metragem. O costureiro Jacques Heim e o engenheiro mecânico Louis Réard bem podem dividir os louros da invenção desta silhueta, ainda durante o verão de 1946 mas a verdadeira aceleradora da proeza foi Bardot, que depois dos micro calções conseguia ir mais longe. Quando não estava de biquini na praia visitava o amigo Pablo Picasso no seu estúdio em Vallarius, na Côte d’Azur. Ironicamente, mais de 70 anos depois de Brigitte fazer parar o trânsito balnear, a Croisette apertava o cerco aos naked dresses.