A 82.ª edição dos Globos de Ouro, em 2025, teve uma excelente receção junto das audiências e da crítica, com uma taxa de aprovação de 92% na plataforma Rotten Tomatoes. O motivo — Nikki Glaser, a comediante de 41 anos que apresentou o programa e que é conhecida pelos roasts impiedosos a celebridades. Com presença garantida na edição de 2026 da cerimónia, agendada para o próximo domingo, Glaser começou a testar material com um mês de antecedência. Mas quem é esta mulher que faz estremecer os ilustres de Hollywood com as suas piadas?
De saltos altos e vestido justo e brilhante, Nikki Glaser podia ser manequim. Faz sensação sempre que pisa a passadeira vermelha, mas é no palco, com um microfone na mão e diante de uma audiência assustada que arrasa — sobretudo as vítimas das suas piadas. Descobriu o stand-up quando estudava Literatura Inglesa na Universidade do Kansas e nunca mais parou. No âmbito da comédia, não é esquisita — já participou em programas humorísticos, fez espetáculos a solo, podcasts e séries e, mesmo antes de 2024, tinha um currículo invejável.
O ponto de viragem foi a participação em The Roast of Tom Brady, transmitido na Netflix em maio desse ano (por ocasião do festival de comédia Netflix Is a Joke), que catapultou a carreira de Glaser e inspirou o convite para apresentar a cerimónia dos Globos de Ouro. O programa, originalmente emitido pelo canal de televisão Comedy Central, consiste numa cerimónia em que vários humoristas convidados fazem piadas sobre uma celebridade, de forma a humilhá-la — sempre com bom humor.
Já foram vítimas Justin Bieber, Bruce Willis e Alec Baldwin, e, em 2024, o Greatest Of All Time do futebol americano, Tom Brady. A clara vencedora desta edição foi Nikki Glaser, que deixou o anfitrião do programa e colega, Kevin Hart, quase em lágrimas (de tanto rir). “Essa é a beleza do roasting” disse Hart, depois do set da comediante, “há uma arte nisto, e quando se acerta, meu Deus, é incrível.”
Seis dias mais tarde, a HBO lançou Nikki Glaser: Someday You’ll Die, o terceiro especial de stand-up da comediante, que definiu o novo recorde da plataforma para programas de comédia em dois anos e ultrapassou os dois milhões de visualizações no primeiro mês. Depois de Perfect (2016), Good Clean Filth (2022) e Bangin’ (2019), Someday You’ll Die foi um favorito da crítica, com nomeações para Emmys, Globos de Ouro e até Grammys — como melhor álbum de comédia.
▲ O sucesso no programa "The Roast of Tom Brady" foi determinante para a carreira da comediante.
Getty Images for Netflix
Apesar da vasta experiência, Glaser não subestimou a tarefa de ser a primeira mulher a apresentar os Globos de Ouro sozinha. Segundo uma entrevista ao canal E! testou as piadas da cerimónia 93 vezes em comedy clubs, em que pedia a elementos do público para fingirem ser os atores convidados. Além disso, pediu conselhos a Ricky Gervais, cinco vezes anfitrião do evento. O resultado foi um grande êxito, que colocou Glaser ao nível dos seus antecessores mais bem-sucedidos, como o próprio Gervais ou o duo Tina Fey e Amy Poehler. A “melhor roaster no planeta”, segundo a revista online IndieWire, voltou a atacar, desta vez os pesos-pesados de Hollywood.
“Bem-vindos à 82.ª edição dos Globos de Ouro. A maior noite do Ozempic”: assim abriu a cerimónia, numa alusão ao medicamento para emagrecer que se popularizou entre os famosos. Seguiram-se piadas sobre o rapper Sean Combs, mais conhecido como P. Diddy, cujos escândalos sexuais agitaram Hollywood em 2024, e sobre vários atores nomeados, entre os quais Selena Gomez, Timothée Chalamet, Nicole Kidman ou Adrien Brody, algumas recebidas com um sorriso amarelo.
Mas apesar do humor irreverente, Glaser não é tão cruel como o colega e antecessor Ricky Gervais, com quem já foi várias vezes comparada. Em várias ocasiões, pediu desculpa por declarações e piadas que fez, nomeadamente em relação ao peso de Taylor Swift e à ex-mulher de Tom Brady, a modelo Gisele Bündchen.
▲ Glaser pediu desculpa a Taylor Swift numa publicação de Instagram, por comentários a respeito do peso da cantora. "Provavelmente estava a "sentir-me gorda" nesse dia e estava invejosa."
Após uma época repleta de sucessos, não surpreende que o The New York Times tenha declarado Glaser Comediante do Ano em 2024, o mesmo em que também começou a digressão Alive and Unwell, que correu os EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia até ao final de outubro de 2025, totalizando quase 150 espetáculos. Em novembro, apresentou o programa de sketches da NBC, Saturday Night Live, depois de anunciar a participação num filme do realizador e produtor de cinema Judd Apatow, sem nome e data de lançamento anunciados. Foi ainda selecionada para integrar o elenco da comédia The Fifth Wheel, realizada pela atriz Eva Longoria (Desperate Housewives), com Kim Kardashian e Brenda Song (e estreia prevista para este ano).
2026 começou com o anúncio de uma nova digressão, The Stunning Tour, com paragens nos EUA e em três cidades europeias, Paris, Londres e Dublin. Glaser não vem a Portugal, mas chega em breve aos nossos ecrãs, com o próximo especial (previsivelmente do espetáculo Alive and Unwell), que estará disponível na Disney+ em data a anunciar.
Antes disso, no domingo (uma da manhã de segunda-feira no fuso horário português) vai dar que falar nos Globos de Ouro, onde espera encontrar algumas caras conhecidas — como Timothée Chalamet, nomeado pelo filme Marty Supreme (que se estreia por cá no dia 22). No ano passado, Glaser brincou com o bigode do ator: “Posso só dizer que tens as mais bonitas pestanas no buço?” Nesta edição, admite a dificuldade de escrever uma piada sobre Julia Roberts (indicada para melhor atriz em Depois da Caçada) e promete gozar com Leonardo DiCaprio (Batalha Atrás de Batalha): “O Leo? Nós vamos atingir o Leo. Os icebergues vêm aí. Tomem cuidado”, disse numa entrevista à agência noticiosa Associated Press.
A linha vermelha deste ano é a conversa sobre Ozempic que abriu a última cerimónia. “Agora é tão ubíquo e normalizado que parece que estou a atacar toda a gente”, disse à USA Today, “Parece quase body shaming.” Sobre a invasão da Venezuela, reconhece fazer algumas piadas “aqui e ali”. Acima de tudo, promete repetir a façanha do ano passado e, quem sabe, voltar para uma terceira vez. “Os anfitriões que realmente deixaram a sua marca no espetáculo, como o Ricky [Gervais], a Tina [Fey] e a Amy [Poehler], fizeram-no três ou quatro vezes cada. Quero juntar-me a essa lista!”
Texto editado por Tiago Pereira