Imaginem um maratonista que corre esta prova à velocidade de um atleta especialista nos 100 metros, e pelo caminho, sem nunca abrandar, tem que enfrentar uma série de dificuldades e evitar uma sucessão de problemas que o chegam a pôr em risco de vida. Recorro a esta imagem para tentar dar uma ideia da aceleração que caracteriza Marty Supreme, a segunda longa-metragem a solo de Josh Safdie, e a primeira desde que desfez a parceria com o seu irmão Benny, em 2024; e do frenesim em que vive o protagonista, Marty Mauser (Timothée Chalamet, também produtor), que trabalha na sapataria do tio, no Lower East Side de Nova Iorque, é um sobredotado do ténis de mesa e vai participar no Campeonato Mundial da modalidade, em Londres.
[Veja o “trailer” de “Marty Supreme”:]
Marty Supreme passa-se em 1952. Marty Mauser é vagamente baseado em Marty Reisman, um campeão de ténis de mesa com uma vida muito agitada, e se viram os dois filmes anteriores dos irmãos Safdie, Good Time (2017), com Robert Pattinson, e Diamante Bruto (2019), com Adam Sandler, e os acharam alvoroçados, e os dois protagonistas muito intensos, comparados com este, são ambos exemplos de slow cinema, e as duas personagens modelos de tranquilidade quando postas a par com Marty. Ele é o Speedy Gonzalez do ténis de mesa e dos fura-vidas, vivendo com a mesma rapidez e febrilidade com que compete. Quer ser campeão do mundo e ganhar muito dinheiro, nem que leve tudo à frente e pise toda a gente à sua volta.
[Veja uma entrevista com Timothée Chalamet:]
Marty é uma figura familiar do cinema — e do imaginário — americano, o hustler, o carreirista egocêntrico e manipulador que se serve do talento com que nasceu para concretizar os seus sonhos, sem olhar a quem magoa na escalada para a fama e a fortuna. No seu percurso tumultuoso para conseguir chegar a Londres e jogar no Mundial, e depois ir ao Japão para disputar uma partida com um prodígio local, Marty assalta à mão armada; surpreende-nos a nós e a Rachel (Odessa A’zion) a sua melhor amiga de infância; seduz Kay (Gwyneth Paltrow), uma antiga estrela de cinema e mulher de Milton Rockwell (um surpreendente Kevin O’Leary, de Shark Tank), um rico empresário a quem pede um patrocínio; e mete-se numa confusão perigosa com Ezra (Abel Ferrara), um mafioso.
[Veja uma entrevista com Josh Safdie:]
E não é tudo, longe disso, porque está sempre a acontecer alguma coisa neste filme que não sabe o que é fazer uma pausa. Marty também se meteu num inovador negócio tendo um amigo e o pai deste como financiadores e promotores. Negócio esse que, além de (também) dar com os burrinhos na água (por culpa de Marty, claro) e lhe fazer perder a amizade e a confiança daqueles, proporciona um dos melhores e mais coloridos momentos visuais do filme, que o diretor de fotografia Darius Khondji mantém quase sempre em tons sombrios e tristonhos, acentuados pelo realismo minucioso, sujo e vivido da direção artística de Jack Fisk.
[Veja uma sequência do filme:]
Tal como as peripécias vividas por Marty, que só atrai sarilhos com o seu comportamento caótico e calculista e as suas mentiras, os subenredos acumulam-se, fazendo de Marty Supreme, escrito por Safdie e Ronald Bronstein, um dos filmes mais overplotted, com mais digressões, distrações e acontecimentos secundários, dos últimos anos. Ao ponto de namorar com a inverosimilhança – é mesmo possível que tantas coisas incríveis aconteçam ao mesmo tempo a uma só pessoa? – e de ameaçar transformar-se num desenho animado da Warner, uma espécie de Looney Tunes naturalista que deixa o espectador exausto. Ao contrário do protagonista, que parece não parar, nunca se cansar, não precisar de dormir, qual moto-contínuo humano.
Apesar da sobrecarga de incidentes, do ritmo a mata-cavalos que Josh Safdie lhe imprime e emula o das partidas de ténis de mesa que se jogam ao longo do filme, de algumas arestas e excessos narrativos, do desafio à nossa capacidade de acreditar na personagem principal e em tudo o que lhe sucede; e de Marty (pelo qual Timothée Chalamet é possuído, e em que literalmente desaparece – é um elogio) ser de uma desfaçatez, um egoísmo e uma falta de escrúpulos colossais, e se deixar humilhar vergonhosamente em público por Rockwell (embora mantenha uma réstia de dignidade e decência que acabarão por o salvar da desonra e da vergonha totais), não conseguimos desligar de Marty Supreme. Muito menos de nos interessar pelo que vai acontecer ao tenacíssimo Marty no fim da sua louca correria. E nem sequer temos de gostar de ténis de mesa.