Foi uma imagem que chegou a lembrar os dias menos bonitos do futebol português. Pouco antes da hora de almoço, este sábado, 200 adeptos do Benfica juntaram-se à porta do centro de estágios do Seixal e exigiram conversar com responsáveis da estrutura encarnada. Esperaram, uns de cara tapada e outros nem por isso, e acabaram mesmo por ser recebidos por José Mourinho, Mário Branco, Simão Sabrosa e os quatro capitães, Otamendi, António Silva, Fredrik Aursnes e Tomás Araújo.

E se é certo que o próprio Benfica confirmou a reunião e que tudo decorreu “num ambiente de enorme respeito, cordialidade e espírito construtivo”, como referiu o comunicado, também é certo que a presença de duas centenas de adeptos no Seixal na véspera de um jogo deixa algo bem claro: nenhum adepto dos encarnados está contente com o momento atual da equipa de José Mourinho, que já está fora da Taça de Portugal, não foi à final da Taça da Liga, mantém-se a dez pontos da liderança do FC Porto e está muito perto da eliminação na Liga dos Campeões.

Ficha de jogo

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Benfica-Estrela da Amadora, 4-0

19.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: David Silva (AF Porto)

Benfica: Trubin, Daniel Banjaqui, António Silva, Otamendi, Samuel Dahl, Fredrik Aursnes (Diogo Prioste, 73′), Sudakov (Rafa Silva, 73′), Enzo Barrenechea (Leandro Barreiro, 45′), Sidny Lopes Cabral, Prestianni (Schjelderup, 60′), Pavlidis (Anísio Cabral, 83′)

Suplentes não utilizados: Arnas Voitinovicius, Ivanovic, Amar Dedic, Tomás Araújo

Treinador: José Mourinho

Estrela da Amadora: Renan Ribeiro, Jefferson Encada, Bernardo Schappo, Luan Patrick, Otávio, Jorge Meireles (Robinho, 75′), Paulo Moreira, Kevin Jansson (Alexandre Sola, 65′), Tom Moustier (Eddy Doué, 56′), Ianis Stoica (Alisson Souza, 75′), Leandro Antonetti (Rodrigo Pinho, 75′)

Suplentes não utilizados: Diogo Pinto, Ni Rodrigues, Pape Fuhrer, João Gastão

Treinador: João Nuno

Golos: Pavlidis (42′ e gp, 52′), Sidny Lopes Cabral (58′), Anísio Cabral (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo para Kevin Jansson (15′), a Ianis Stoica (33′), a Enzo Barrenechea (37′), a Fredrik Aursnes (45′), a Jefferson Encada (52′), a Paulo Moreira (76′)

Quem não falou sobre o assunto, porém, foi José Mourinho — que voltou a saltar a conferência de imprensa de antevisão e só falou à BTV sobre a receção deste domingo ao Estrela da Amadora. “É uma equipa que está ali numa classificação não de tranquilidade total, mas de alguma tranquilidade. É uma equipa que joga bem, que tem gente rápida, que nos pode obviamente criar problemas, mas nós estamos a jogar bem. A seguir ao jogo da Juventus, tivemos três dias, quinta, sexta e sábado, portanto acho que isso nos permitirá chegar num estado otimal e continuar o Campeonato que estamos a fazer, sem derrotas, com mais pontos do que na época passada. Mas obviamente que jogar em casa com o Estrela da Amadora, com todo o respeito, qualquer resultado que não seja ganhar seria muito mau para nós”, disse o treinador português, recordando ainda a derrota com a Juventus a meio da semana na Liga dos Campeões.

Ora, já a contar com Rafa Silva, que chegou nos últimos dias mas ainda começava no banco, Mourinho surpreendia com a titularidade e estreia do jovem Daniel Banjaqui na direita e deixava Amar Dedic como suplente, recuperando Enzo Barrenechea no meio-campo e lançando Prestianni, Sudakov e Lopes Cabral no apoio a Pavlidis. Do outro lado, num Estrela da Amadora que vinha de uma goleada pesada sofrida contra o Estoril, João Nuno não tinha os castigados Jovane e Abraham Marcus e apostava em Leandro Antonetti, Ianis Stoica e Jorge Meireles no ataque.

Nas bancadas do Estádio da Luz, na zona afeta aos grupos organizados de adeptos, surgia um recado: “Juntos até ao fim”, lia-se numa tarja. Em campo, porém, a primeira oportunidade pertenceu aos visitantes: Otamendi atrasou mal para Trubin, Leandro Antonetti antecipou-se ao guarda-redes e ainda desviou, mas António Silva apareceu a tempo de evitar o golo (2′). Ainda assim, o momento foi apenas uma espécie de oásis no deserto e os encarnados não demoraram a assumir o controlo das ocorrências.

António Silva desviou de cabeça para Renan Ribeiro encaixar na sequência de um livre na esquerda (6′), Aursnes rematou ao lado após cruzamento de Lopes Cabral (8′) e Daniel Banjaqui também falhou o alvo de fora de área (14′). Aquilo de que ninguém estava à espera, porém, era que o Benfica desligasse a partir dos 20 minutos: depois de um livre direto de Lopes Cabral que Renan Ribeiro defendeu (17′), a equipa de José Mourinho pareceu alhear-se do jogo, sempre demasiado distante da baliza e sem presença na grande área, trocando a bola sem qualquer tipo de consequência ou assertividade.

O Estrela da Amadora aproveitou para respirar melhor, ainda que sem chegar a tornar o jogo equilibrado, e Mourinho ia tentando agitar as águas a partir de Lopes Cabral e Prestianni, que a dada altura trocaram de corredor. Já perto do fim da primeira parte, porém, os encarnados capitalizaram a qualidade individual. Canto na direita e Pavlidis, no coração da grande área e sem grande oposição, apareceu a cabecear para abrir o marcador (42′). 

Samuel Dahl ainda teve uma boa oportunidade para aumentar a vantagem, com um remate cruzado na área que Renan Ribeiro defendeu (45+3′), enquanto que Ianis Stoica ameaçou com um livre direto que passou ao lado da baliza de Trubin (45+1′). Ao intervalo na Luz, porém, o Benfica estava mesmo a vencer o Estrela da Amadora pela margem mínima — e com a noção clara de que, apesar do resultado, estava muito longe de estar a ter um final de tarde bem conseguido.

José Mourinho mexeu logo no início da segunda parte e lançou Leandro Barreiro no lugar de Enzo Barrenechea, que já tinha visto um cartão amarelo e tinha cumprido uma primeira parte muito curta. O Benfica regressou algo adormecido, permitindo ao Estrela da Amadora conquistar metros e recuperar confiança, mas a verdade é que só foram necessários três minutos para que o jogo ficasse decidido, arrumado e sentenciado.

Ainda dentro dos dez minutos iniciais da segunda parte, Lopes Cabral sofreu falta de Jefferson Encada no interior da grande área e Pavlidis, na conversão da grande penalidade, não falhou e bisou (55′). Logo a seguir, na sequência de um erro colossal da defesa dos tricolores depois de um pontapé de baliza de Trubin, Lopes Cabral aproveitou para ficar isolado e rematou cruzado na cara de Renan Ribeiro (58′), estreando-se a marcar pelos encarnados contra a antiga equipa e sem festejar.

Mourinho fez a segunda substituição depois do terceiro golo, trocando Prestianni por Schjelderup, sendo que João Nuno já tinha lançado Eddy Doué no lugar de Tom Moustier, e ainda colocou Rafa e Diogo Prioste com cerca de 20 minutos para jogar — promovendo o regresso do antigo internacional português aos encarnados e ao Estádio da Luz, que saudou o jogador de forma audível. Até ao fim, entre o controlo de quem estava a ganhar e o total conformismo de quem estava a perder, ainda houve tempo para o momento mais bonito da tarde.

Anísio Cabral estreou-se pela equipa principal já dentro dos últimos dez minutos e só precisou de instantes para carimbar a goleada, finalizando de cabeça depois de um cruzamento de Daniel Banjaqui, outro campeão mundial Sub-17 (84′). O Benfica goleou o Estrela da Amadora na Luz, regressando às vitórias depois da derrota europeia e mantendo as distâncias para Sporting e FC Porto antes de todas as decisões contra o Real Madrid a meio da semana. E se estão mesmo todos juntos até ao fim, como se leu nas bancadas, então Sidny Lopes Cabral foi o primeiro a honrar a aliança.