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"O Gosto do Cloro": a nadar é que a gente se entende

Este artigo tem mais de 6 meses

A novela gráfica de Bastien Vivès é sobre um mergulho como exemplo do valor da banalidade: quando tudo abranda, o nosso olhar renasce e recuperamos uma nova atenção para a beleza.

Ao longo da história, o protagonista parece singular, sempre que tenta mergulhar na universalidade, e banal, quando tenta distinguir-se
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▲Ao longo da história, o protagonista parece singular, sempre que tenta mergulhar na universalidade, e banal, quando tenta distinguir-se

▲Ao longo da história, o protagonista parece singular, sempre que tenta mergulhar na universalidade, e banal, quando tenta distinguir-se

Seria possível argumentar-se que os últimos vinte anos marcaram uma expansão considerável da banda desenhada enquanto manifestação artística, por conta do aumento quer do número de leitores — aliás, cada vez mais heterogéneos — quer dos estilos narrativos por ela abrangidos. Hoje, ao entrarmos em qualquer boa livraria, dificilmente não repararemos na quantidade assinalável de bandas desenhadas infanto-juvenis e de super-heróis, mas também, por exemplo, de novelas gráficas autobiográficas e de clássicos da literatura adaptados a este formato.

Há uma certa controvérsia em torno da génese deste meio artístico-literário, na medida em que, se, como o cartoonista Will Eisner propõe, adotarmos a definição de banda desenhada como arte sequencial, seria difícil rejeitarmos a ideia de que esta remontará, desde logo, à arte rupestre, tendo como herdeiros, por exemplo, os hieróglifos egípcios, as xilogravuras de Albrecht Dürer ou os Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa. Seja como for — negligenciando milhares de anos de pré-história e esquecendo esta discussão por um momento para assumirmos como momento expansivo inicial da banda desenhada as histórias de aventuras dos anos vinte e trinta e, acima de tudo, as histórias de super-heróis do início dos anos quarenta do século passado —, não deixará de causar espanto notarmos que um meio literário relativamente recente, que começou com cores garridas, ações contundentes e histórias simples, tenha em poucas décadas evoluído para se transformar num veículo literário capaz de captar subtilezas inacessíveis a outros com uma dinastia bem mais consolidada, como facilmente aferimos ao lermos, para não irmos mais longe, duas obras primas deste género publicadas no mesmo ano, 1986: Batman: O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.

No interessante Understanding Comics, de 1993 (lamentavelmente, ainda não traduzido para português), Scott McCloud argumenta que as histórias de Tintin combinam personagens de traços genéricos e icónicos com cenários invulgarmente realistas, para que dessa forma os leitores possam facilmente substituir-se às personagens e assim imaginarem-se nesses cenários sedutores. Ora, tal como acontece na literatura ficcional, essa etapa evolutiva seria solo de pouca dura, visto que rapidamente os protagonistas passariam a ter traços de carácter bastante vincados sem que essa excecionalidade viesse de alguma forma eliminar a universalidade em causa (nesse sentido, leia-se o extraordinário e também não traduzido Fun Home, de Alison Bechdel).

Título: “O Gosto do Cloro”
Autor: Bastien Vivès
Tradução: Paulo Salgado Moreira
Editora: Devir
Páginas: 141

Ora, toda esta já longa introdução vem a propósito de O Gosto do Cloro, o mais recente título publicado pela Devir na sua muito recomendável coleção Angoulème, onde têm sido publicados alguns dos vencedores deste prestigiado prémio de banda desenhada. Ao contrário de tudo o que acima elenquei, em O Gosto do Cloro assistimos a um mergulho literal e metafórico num momento relativamente banal da vida de um protagonista que, tanto quanto nos é dado a saber, será também ele relativamente banal. No entanto, ao captar demoradamente esse momento de todos os ângulos e em todas as amplitudes possíveis, Bastien Vivès oferece-nos uma fatia da vida inteira, que, dada a sua contenção, poderemos agora contemplar uma e outra vez, até por fim conseguirmos ver de facto alguma coisa, por pequena que seja.

As cento e quarenta páginas deste livro resumem-se em pouquíssimas frases sem com isso cometermos qualquer spoiler relevante (excluirei deste resumo as últimas dez páginas, apenas por excesso de zelo da minha parte): o anónimo protagonista tem uma lesão não especificada e é aconselhado por um fisioterapeuta a inscrever-se na natação, desporto que lhe gera pouco entusiasmo e para o qual não tem, como cedo percebemos só pela forma como Vivès desenhará o seu corpo dentro de água, grande talento. Um dia, este protagonista leva consigo à piscina um amigo, que meterá conversa com uma antiga campeã de natação. Na semana seguinte, a nadadora pergunta-lhe pelo amigo, o protagonista explica-lhe que este não pôde vir, ela parece ligeiramente desiludida, mas os dois começam a, uma vez por semana, nadar juntos, sendo que ela o ajudará a melhorar o seu estilo.

É só isto. Não acontece mais nada.

Temos várias páginas em que nada é dito e onde apenas vemos o protagonista a nadar para trás e para diante, ou onde vemos, na mais sublime de todas, o teto da piscina de forma progressivamente transversal à medida que avançamos de vinheta em vinheta, para assim nos apercebermos da falta de jeito do protagonista a nadar costas.

É só isto. Nada. Mas este nadar é deslumbrante.

Não só pela beleza, simplicidade e elegância dos desenhos, mas sobretudo porque, tal como acontece ao praticarmos um desporto solitário e repetitivo, quando conseguimos que as coisas abrandem o suficiente para que a febre da novidade e do entretenimento se cale por uns minutos, o nosso olhar renasce e recuperamos uma nova atenção para a beleza, sim, mas não só para a beleza, e também, por exemplo, para a relação entre ciúme e insegurança.

Ao longo da história, o protagonista parece singular sempre que tenta mergulhar na universalidade — ou, melhor dito, a sua falta de jeito para a atividade em apreço destaca-o quando tudo o que pretendia era misturar-se na massa anónima de nadadores da piscina — e banal quando tenta distinguir-se para que a nadadora o veja, o que faz dele uma espécie de camaleão daltónico ao retardador, com o qual não conseguimos deixar de sentir uma certa empatia, particularmente por sabermos demasiado bem que não existe maior vulnerabilidade do que a de um mau nadador numa piscina pública.

Contudo, talvez os momentos em que a extraordinária elegância de Bastien Vivès mais se evidencia aconteçam nas conversas entre o protagonista e a nadadora, nas quais esta abandona subtil e harmoniosamente os traços genéricos a que nos habituáramos até aí, para, apesar da touca e dos óculos de natação, evidenciar a sua extraordinária beleza, com o único intuito de assim nos transportar para dentro da subjetividade do protagonista e compreendermos silenciosamente que este acaba de se apaixonar por alguém só por ter nadado umas quantas piscinas ao seu lado.

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