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Paul McCartney: só se vive duas vezes

Este artigo tem mais de 6 meses

O documentário “Man on The Run” retrata a carreira do músico após os Beatles, ao longo dos anos 70. No centro do filme, a questão essencial: quem era ele após o fim da banda mais célebre de sempre?

McCartney: um homem em fuga do passado que encontrou a paz em palco, onde até ao final dos seus dias celebra a vida, em frente ao máximo possível de pessoas, numa voragem insuperável
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▲McCartney: um homem em fuga do passado que encontrou a paz em palco, onde até ao final dos seus dias celebra a vida, em frente ao máximo possível de pessoas, numa voragem insuperável

▲McCartney: um homem em fuga do passado que encontrou a paz em palco, onde até ao final dos seus dias celebra a vida, em frente ao máximo possível de pessoas, numa voragem insuperável

Seria de esperar que as pessoas já estivessem fartas de canções parvas de amor. Esta é a primeira frase, naquele cantarolar meiguinho, que se ouve em Man on the Run, o documentário sobre Paul McCartney lançado na passada sexta-feira na Amazon Prime Video. Silly Love Songs é uma opção sagaz para abrir o filme que retrata a carreira do músico ao longo da década de 70, após a separação dos Beatles: em resposta aos críticos que o acusam de baladeiro lamechas, escreveu a suprema balada lamechas, num ato transgressor da pieguice. O que na altura era percecionado como a morte do artista, 50 anos depois é mais uma prova de um génio incontestável. A essência de Man on the Run está aqui: um fugitivo que a história absolveu.

A proposta de McCartney, logo no primeiro álbum a solo, gravado em casa às três pancadas, sempre foi a mesma: compor e gravar a música que lhe surgia instantaneamente, sem qualquer compromisso com os ares dos tempos. Podiam ser baladas ao piano, lengalengas, guitarradas, fragmentos de melodias ou desvarios de dez minutos ao sintetizador. O documentário abraça a intransigência espontânea do músico, o que nos leva novamente a Silly Love Songs: esta é também a história de um músico milionário que, no alto do seu pedestal, seguiu qualquer ímpeto criativo, mesmo quando envolvia refrões e penteados de qualidade altamente contestável.

Man on the Run não resguarda este cavaleiro da Ordem do Império Britânico dos seus momentos mais embaraçosos, desde o alcoolismo nos primeiros anos a solo, às sucessivas prisões por posse de erva e ainda, não esqueçamos, infelizmente, a cantilena abominável Mary Had a Little Lamb. O documentário é mais do que um mero projeto memorialista, entre tantos que têm ocupado o tempo de McCartney, que se deve sobretudo ao responsável pela empreitada, Morgan Neville, vencedor do Óscar em 2023 por 20 Feet from Stardom, o filme dedicado às extraordinárias cantoras de apoio dos astros da pop.

No centro da narrativa está uma questão da origem da espécie McCartney: quem era ele após o final da banda mais célebre e influente deste planeta? “O que faço agora?”, reflete o ex-Beatle, em voz off. “Aquilo foi a minha vida toda, na verdade. Cresci, fui para a escola e integrei os Beatles. Era um enigma que tinha de decifrar.” O enigma nunca é verdadeiramente desvendado, o realizador está limitado às reflexões do protagonista que, como é seu costume, não perde muito tempo em sessões de terapia; o impacto da morte da mãe, aos 14 anos, por exemplo, é mencionado ao de leve, assim como a obsessiva ética protestante de trabalho e uma aparente insensibilidade emocional — porventura, tudo relacionado com a orfandade materna.

A proposta de Man on the Run é sobretudo um revisitar da discografia, a começar pelo álbum de estreia, em 1970, um pioneirismo vanguardista lo-fi que caiu em saco roto, enquanto os restantes Beatles, John Lennon à cabeça, eram aplaudidos pela imprensa e público, ainda no rescaldo da revolucionária contracultura de sessentas. McCartney não era revolucionário nesse sentido e o segundo álbum, Ram, uma obra-prima da folk caseira, confirmou o distanciamento do Beatle fofinho com o estado da nação anárquico.

Nestes primeiros anos da década de setenta, o músico impôs-se numa improvável vivência franciscana, nos confins da Escócia, na agreste península Kintyre — “Oh, mist rolling in from the sea”, acompanhado por Linda Eastman, com quem estava recém-casado — “La la la la la the lovely Linda”, duas crianças, e a omnipresente cadela-pastor, Martha — “Please, remember me, Martha, my love”. Entre as ervas daninhas e as portas empenadas, rompe publicamente com os Beatles e processa-os, cria uma família, arranja o telhado, compõe canções e sobrevive a uma profunda depressão.

Os álbuns da fase escocesa, ainda anterior à formação dos Wings, são retratados com gosto, o que evidencia uma das razões pela existência deste documentário: o ajuste de contas. Os anos após o final dos Beatles foram de uma constante batalha pela história, onde vingou a narrativa de John Lennon como o verdadeiro génio e vanguardista, em oposição a McCartney, o mestre das foleiradas displicentes — basta lermos a imprensa portuguesa deste período. Hoje a história é completamente diferente e o documentário pretende reforçar este volte face. Se os Beatles trabalhassem com eras, ao estilo Taylor Swift, em 2026 estaríamos ainda em plena era pós Get Back, o documentário épico de Peter Jackson que revelou o que, durante anos, muito boa gente esqueceu: o talento transcendental de Paul McCartney.

O filme dedica o tempo necessário ao beef mais extraordinário da história da música popular, quando os ex-colegas Beatles trocaram cartas, entrevistas e canções insultuosas, e não isenta McCartney de culpa, nem deixa a imensa sombra do mártir John Lennon ofuscar esta brilhante carreira. O que nos leva aos Wings, a banda formada pelo casal McCartney, o guitarrista Denny Laine e dezenas de músicos em rotação, que é apresentada em cena através de colagens, recortes, rabiscos, outtakes, filmes caseiros, e pinceladas de cor; a edição e fotografia destas cenas é uma homenagem ao espírito de improviso, faça-você-mesmo, tudo ao molhe, característico e encantador dos Wings.

No final do ano passado, foi lançado uma coletânea e um livro inteiramente dedicado aos Wings, sendo Man on the Run o ponto final desta retrospetiva sobre uma banda que, desde o primeiro dia, foi contestada pelos órfãos beatlemaníacos — quem é que McCartney julga que é, a manchar o seu bom nome com outra banda, e logo com a mulher. A trajetória que o filme segue é conhecida: as digressões amadoras pelas universidades britânicas, apertados num autocarro — novamente, a tendência sadomasoquista de McCartney; o músico a tentar, sempre em vão, convencer-se a si e aos outros que era uma banda normalíssima que, por acaso, o vocalista era uma das pessoas mais famosas do mundo; a vingança com o sucesso estrondoso do inspiradíssimo álbum Band On The Run, enfim equiparado aos Beatles; e as digressões mundiais de estádios e arenas, que nunca terminaram, até aos nossos dias.

Nesta década, ultrapassada a barreira dos 80 anos, McCartney começou a arrumar a casa, numa sucessão invulgar de projetos revisionistas. Apenas nos últimos anos, editou a obra poética completa, acompanhado por um podcast e uma exposição; apresentou uma exposição e um livro de fotografias da sua autoria; apreciou as suas canções mais célebres com o produtor barbudo Rick Rubin, em McCartney 3, 2, 1; e reeditou a discografia a solo, incluindo patinhos feios como o Wild Life, um álbum também devidamente sublinhado em Man on the Run – nada contra, Love Is Strange tem o seu charme. E não esqueçamos as digressões intermináveis de McCartney, com alinhamentos nostálgicos que percorrem uma carreira ímpar da música popular, enfim a tempo do aplauso, noite após noite.

Está aqui possivelmente a resposta à pergunta central de quem é McCartney após os Beatles: um homem em fuga do passado que encontrou a paz em palco, onde até ao final dos seus dias celebra a vida, em frente ao máximo possível de pessoas, numa voragem insuperável. Talvez seja pouco para justificar o apelo desta música brilhante, mas quem assistiu a estes concertos sabe que não há grande segredo: ele sobe ao palco e canta-nos canções parvas de amor, que nós, embasbacados, aceitamos com um sorriso estúpido na cara. E que mal tem isso?

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