O maestro Álvaro Cassuto morreu esta segunda-feira, aos 87 anos, na sua casa no Guincho, em Cascais, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

Álvaro Cassuto fundou a Nova Filarmonia Portuguesa, trabalhou com orquestras nacionais e internacionais, e deixa uma vasta discografia, incluindo a integral das Sinfonias de Joly Braga Santos.

Segundo o Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa, foi “um dos mais conceituados maestros portugueses” e “um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos [1924-1988], seu amigo e colega”.

Nascido no Porto, em 17 de novembro de 1938, Álvaro Leon Cassuto estudou com os compositores Artur Santos (1914-1987) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e, em 1960, frequentou os cursos internacionais de Darmstadt, na Alemanha, onde contactou com os compositores Karheinz Stockhausen, Gyorgy Ligeti e Olivier Messian.

Cassuto estudou direção de orquestra com o maestro Pedro Freitas Branco (1896-1963), internacionalmente reconhecido como um dos melhores intérpretes da música de Maurice Ravel, e, mais tarde, com Herbert von Karajan (1908-1989), em Berlim, pelo qual confessava grande admiração.

Em 1961, com 22 anos, estreou-se como maestro à frente da Orquestra do Porto. Posteriormente, foi maestro-assistente (1965-1968) e subdiretor (1970-1975) da Orquestra Gulbenkian.

Em 1969, quando residia nos Estados Unidos, recebeu o Prémio Serge Koussevitzky, para jovens maestros, atribuído pelo Tanglewood Music Center, fundado pelo maestro de origem russa, histórico diretor da Orquestra Sinfónica de Boston.

Cassuto manteve-se nos Estados Unidos entre 1968 a 1986. Foi professor na Universidade da Califórnia, de 1974 a 1979, maestro titular da Filarmónica de Rhode Island, de 1979 a 1985, e da Orquestra Nacional de Nova Iorque, entre 1981 e 1986.

O maestro Leopold Stokowski (1882-1977) convidou-o para seu assistente na American Symphony Orchestra. Foi também professor na Juilliard School of Music, em Nova Iorque, em 1981-1982.

Em simultâneo, em Portugal, entre 1975 e 1990, foi maestro-diretor da Orquestra Sinfónica da Radiodifusão Portuguesa.

No regresso ao país, em 1988, fundou a Nova Filarmonia Portuguesa. Em 1993, foi convidado a formar a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), que incluiu os músicos da Filarmonia e da Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Da OSP foi maestro titular e diretor artístico entre 1993 e 1999.

Mais tarde, foi convidado a criar a Orquestra do Algarve, criada em 2002.

Em 2000, assumiu os postos de maestro titular e de diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Raanana, em Israel, que manteve até 2002.

Em 2004, iniciou as funções de diretor artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que exerceu até 2008.

De 2010 a 2013, dirigiu a Orquestra de Bari, em Itália.

Como maestro convidado, dirigiu ainda, entre outras, a Orquestra Filarmónica de Londres, a Real Orquestra Filarmónica e a Orquestra Filarmónica da BBC, no Reino Unido, as orquestras de Filadélfia, de São Petersburgo e de Moscovo, a Orchestre de la Suisse Romande, a Orquestra de Paris e as orquestras da RAI (Itália) e a Nacional de Espanha.

Em 2009, por ocasião do 50.º aniversário da sua carreira, o Coliseu do Porto descerrou no vestíbulo uma lápide comemorativa e, em 10 de junho desse ano, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva agraciou-o com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Ministra da Cultura enaltece “excelência musical” do maestro

A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, enalteceu o maestro Álvaro Cassuto, “nome maior” e “incontornável” da cultura, que morreu hoje, aos 87 anos, lembrando-o como alguém que “viveu sempre para a excelência musical”.

“Referência maior da nossa cultura, nome incontornável na história de várias orquestras nacionais e internacionais, dono de uma vasta e relevante discografia”, Álvaro Cassuto “viveu sempre para a excelência musical”, deixando “um legado artístico inestimável”, afirma Margarida Balseiro Lopes, numa publicação na sua conta da rede social x.

Já a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) refere-se a Álvaro Cassuto, como “o mais importante dos maestros portugueses, tanto em Portugal como no panorama musical internacional”. De acordo com a SPA, “foi brilhante e notável o trabalho que [Álvaro Cassuto] realizou como maestro à frente de orquestras europeias, recuperando as obras sinfónicas de compositores como Joly Braga Santos e Fernando Lopes-Graça”. A cooperativa de autores recorda ainda o seu apoio a “todas as gravações que realizou para editoras de grande prestígio internacional”.

A editora AvA Musical também manifestou “o seu mais profundo pesar” pela morte de Álvaro Cassuto, que considera “um dos mais dedicados e consequentes impulsionadores da divulgação do repertório sinfónico nacional, em particular da música do século XX”. De acordo com a editora especializada em música erudita, o trabalho de Cassuto “revelou-se determinante para a projeção de compositores como Luís de Freitas Branco, José Vianna da Motta e Joly Braga Santos, Frederico de Freitas, Fernando Lopes-Graça, entre outros”.

A AvA Musical Editions recorda ainda a ligação próxima com o maestro e compositor, que contribuiu “ativamente com revisões críticas de inúmeras obras do nosso catálogo, sempre com um rigor, conhecimento e dedicação absolutamente exemplares”. “Foi também através do seu trabalho, nomeadamente nas gravações realizadas para a editora Naxos, que grande parte deste repertório ganhou visibilidade internacional. Sem o seu empenho incansável, é legítimo afirmar que uma parte significativa da música portuguesa poderia ainda hoje permanecer injustamente desconhecida“, acrescenta a editora.

A Orquestra Clássica da Madeira sublinhou igualmente o “exímio contributo” de Álvaro Cassuto na divulgação da música portuguesa, enquanto o Teatro das Figuras, em Faro, recordou o fundador e primeiro diretor artístico da Orquestra do Algarve, assegurando que o seu legado “será recordado com respeito e admiração”.

O compositor Sérgio Azevedo, por seu lado, numa publicação nas redes sociais, recorda que a ele deve a estreia da sua primeira peça de orquestra, “Coral I”, num concurso da Nova Filarmonia, tendo depois escrito, a pedido do maestro, “Keep Going”, para a Orquestra Sinfónica Portuguesa, e “Abertura Festiva”, para a Orquestra do Algarve. “Devo-lhe muitíssimo, quer como jovem compositor quer como compositor para orquestra”, escreve Sérgio Azevedo. “Deu-me todas estas oportunidades generosas, acreditou em mim quando eu pouco tinha ainda para mostrar como compositor”.