Quando o vemos ajustado ao respetivo manequim, nesse perfil vertical de dignidade e serenidade, não imaginamos o alvoroço logístico. Volumoso, delicado, o vestido de Guo Pei é recuperado do seu leito com cuidado máximo, e transportado literalmente nos braços pelas equipas que asseguram a sua instalação. O processo repete-se uma e outra vez e inclui muitos outros aspetos fundamentais na montagem de uma exposição, que escapam à vista desarmada do visitante comum. O vapor que elimina vincos, o singular processo de limpeza que previne humidades, a disposição de cada uma das placas que identifica as obras (ainda em curso), a conceção das vitrinas onde se arrumam preciosidades, o imprescindível sistema de alarme, ou o stress de passar um decote a pente fino, para garantir que será devolvido no mesmo estado em que chegou. “Tudo o que é empréstimo tem que ser registado e fotografado. Temos que confirmar cada detalhe, como os desgastes que não estavam escritos no documento”, explica Rita Gordo, da equipa de conservação e restauro, de volta de um vestido rosa do Museu del Traje de Madrid, numa breve pausa com a máquina.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rita Gordo a fotografar um dos vestidos que estará exposto

Em vésperas do grande dia da inauguração de “Arte & Moda”, que cruza obras-primas da Coleção do Museu Gulbenkian com 140 criações de alta-costura dos últimos 150 anos, fazemos mais um encargo a um atarefado designer de produção: estimar quantas pessoas estão envolvidas numa mostra deste envergadura. Da ideia original à estrutura de módulos criada por medida para acolher os artigos expostos, a ficha técnica facilmente ascende aos 300, admite Mariano Pissarra. “Temos aqui umas 40 mil horas de trabalho” — só o catálogo levou cinco anos a fazer.

Pela área da galeria principal da Fundação, serpenteamos ainda entre plásticos, ferros de engomar, joalharia à espera de ocupar o seu lugar, e as enormes caixas de madeira que servem para transportar este incrível guarda-roupa — como o vestido de Pei, trazido de Paris num camião — e que ficarão a repousar no depósito da Gulbenkian até ao final da mostra. O recheio é agora montado pelo grupo liderado por Clara Serra, conservadora de têxtil e tapetes da coleção, numa coreografia de mãos que abafa o que se sussurra em fundo: “não é roupa para usar no Metro”. Confere, não não básicos nem acervos para todos os dias, mas não estranhe se sair daqui a pensar: o que hei-de vestir com o meu van Dyck?.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Equipas da Gulbenkian e da designer chinesa Guo Pei preparam a instalação de uma das peças da mostra

Há mais luz ambiente neste preview do que a que esperará os visitantes a partir de sábado e até ao próximo dia 21 de junho. A atmosfera será imersiva, pautada pelos focos de luz sobre cada momento do trajeto, como o recanto onde é exibida uma foto do casamento de Calouste Gulbenkian (1869-1955), mais um convite para falar de farpelas e do seu peso económico, cultural, político e simbólico. “Gulbenkian via nos têxteis, nas joias, nos objetos decorativos ou nos retratos de figuras requintadamente vestidas um testemunho da alma de cada época. Partilhava com a esposa, Nevarte Essayan Gulbenkian, essa devoção à elegância e à forma. Culta, refinada e dotada de uma extraordinária sensibilidade artística, Nevarte acompanhava e incentivava a paixão do marido pelo colecionismo, trazendo uma perspetiva íntima e feminina ao seu projeto.”, enquadra o comissário Eloy Martínez de la Pera Celada.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Instrumental na sua vida e coleção, a também arménia Nevarte casou-se com Calouste em 1892, no Hotel Metropole, em Londres

Em 1919, instalado no seu apartamento do Quai d’Orsay, em Paris, Calouste escreve à mulher, então em Londres, lamentando-se pela falha local ao nível da mistura de seda e lã. “É-nos impossível encontrar aqui calças de inverno como as que costumo usar”. Calouste pediu a Nevarte que fosse à Mühlenkamp Brothers suprir a carência: encomendou-lhe seis pares de calças. O trato minucioso do vestuário não será das primeiras referências quando pensamos no nome do coleccionador mas a atenção a este detalhe perdurou vida fora. Desde logo na primazia da produção inglesa sobre os ditames franceses. Opção estética mas também simbólica, nesse começo do século XX a capital francesa impõe as regras no feminino (e as revistas da especialidade que Calouste subscrevia, como prova a biblioteca) mas é de Inglaterra que emanam os códigos masculinos clássicos. Coube também ao arménio unir as pontes entre arte e moda, um diálogo visível na exposição, apesar de nenhuma das peças de roupa expostas serem suas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A poucos dias da inauguração, ainda se agilizam os últimos preparativos na galeria principal da fundação

Fruto de uma disciplina artística de pleno direito, herdeiras de beleza e testemunho de execução técnica, as peças de alta-costura expostas pertencem às coleções do MUDE-Museu do Design, Museo del Traje de Madrid, Museu Nacional do Traje de Lisboa, Givenchy e Fundação Azzedine Alaïa, entre outras, com elementos de cada um destes acervos a passar por Lisb0a para colaborar na montagem.

A acompanhar a mostra, é editado o catálogo de capa dura com 344 páginas, que inclui as obras do Museu fotografadas lado a lado com as criações apresentadas, mais discretas ou exuberantes. Talvez se recorde da Met Gala de 2015 e da entrada triunfal da cantora Rihanna com aquele que ficou conhecido como vestido “omelete”. Da mesma designer chinesa, Guo Pei, poderá também ver o dourado Daijing ou Magnificent Gold Haute couture 2006, da coleção Samsara, com linho, seda, ouro, prata, metal, lantejoulas, cobre, cristais e strass  Swarovski, uma cortesia de SCAD que eleva a máscara funerária egípcia do século IV a. C. que lhe faz companhia neste percurso.

Uma imagem de Daijing ou Magnificent Gold Haute Couture 2006, a exuberante criação de Guo Pei

Para um recuo um pouco maior na fita do tempo, nada como uma passagem pelo atelier dos pioneiras Callot Soeurs — do madrileno Museu del Traje chega a título de empréstimo um vestido de 1908 em seda, viscose, pasta de vidro, metal, algodão, plástico e barbas de baleia. Já com “Saharienne”, de Yves Saint Laurent, é a sarja de algodão que impera nesse cruzamento entre a prática peça de 1968 e as hipnotizantes bolas de sabão de Manet, pintadas em 1867. As memórias descritivas são tão informativas como a classificação imprimida pelo próprio Gulbenkian ao seu vestuário. As etiquetas que associava a cada peça indicavam a estação, o ano de compra e o estado de conservação: ‘Hiver Leger’, ‘Summer Paris’, ‘Biarritz’, ‘1935 neuf’, ‘1933 bon état’, ‘1930 usagé’. Segundo os conservadores, a filha do colecionador, Rita Gulbenkian, desempenhou um papel relevante na manutenção do guarda-roupa do pai, que soube acompanhar as tendências do seu tempo. Já Nubar Gulbenkian, o outro filho do casal, passou à história, entre outros aspetos, pela vocação para dândi, recordando os primeiros anos de vida, quando pela mão da mãe visitava o famoso atelier das irmãs Callot, a casa de alta-costura aberta em 1895 por Marie Callot-Gerber, Marthe Callot-Bertrand, Regina Callot-Tennyson-Chantrell e Joséphine Callot-Crna, na parisiense rue Taitbout.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em fundo, “Retrato de Homem” (1621), de Anthony van Dyck — e dois coordenados em discurso direto com a pintura

Cosmopolita por vocação, “colecionador de beleza”, vários episódios da vida de Calouste Sarkis Gulbenkian e da sua mulher ilustram o entendimento da moda para lá do plano estético, e do rigor económico trilhado, antes “como espelho da modernidade e expressão de individualidade, sendo utilizada como linguagem social e cultural”, define a responsável. Assim se entende a fina ironia de Nevarte quando no inverno de 1898, hospedada no Excelsior Regina Palace, em Nice, agradece por querer oferecer-lhe uma camisa de seda, mas faz questão de referir: “não consigo imaginar-te a fazer essa compra! Além disso, é pena gastares o dinheiro!” Ao longo dos anos de casados, a correspondência revela o interesse de Nevarte pelo setor e a segurança das suas escolhas na construção de um estilo próprio, entre vestidos leves e fluídos próprios da época e peças de joalharia, como a pregadeira Mulheres e Serpentes de René Lalique, da coleção do marido. Testemunha também a dependência financeira face ao marido e a forma como condicionava a renovação do guarda-roupa. Terá sido juntos que decidiram boa parte da compra do acervo entretanto legado a Lisboa, num delicado festim de porcelanas, miniaturas, rendas e joias.

“Não se trata apenas de uma comparação estética, mas de um diálogo intelectual: a moda torna-se uma lente através da qual podemos ler a arte, e a arte, por sua vez, lança luz sobre a genealogia cultural da moda. Os tecidos, as texturas e as silhuetas dialogam com os mármores, as madeiras, as porcelanas e as telas do Museu.” distingue Vera Matiz, num dos textos lavrados pelos conservadores do Museu.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais um momento de bastidores: a limpeza

A partir desta quinta-feira, em Lisboa, há muitos outros duetos artísticos a conferir nesta mostra. Uma escultura de Antonio Canova cruza-se com uma manga de gaze de Balenciaga; uma peça da dinastia Qing esconde tanta filigrana como uma criação Alexander McQueen; o feminino retratado por Niklas Lafrensen não enjeitaria um espartilho Schiaparelli; e não estranhe a  correspondência entre a Hermès e uma obra de Jean-Auguste Renoir. Sabia que o verde Nilo era a cor da moda em meados do século XIX? Pois bem, o tom tanto tinge jarra de porcelana chinesa do período Qianlong como um vestido de Pierre Balmain.

Ao longo da sua vida, o colecionador reuniu mais de seis mil peças, que vão desde o Egito faraónico à arte moderna europeia, passando pela arte islâmica, o Renascimento italiano, a arte francesa do século XVIII e os grandes mestres da pintura. O vínculo visual firmado com o vestuário apresentado permite também uma viagem pelo arquivo histórico e por formas e intenções mais contemporâneas, entre nomes nacionais, como Storytailors, Nuno Gama, Alves/Gonçaves, ou Béhen, e internacionais, do plano mais artístico ao quotidano. “O visitante compreende que o ideal de beleza – seja este esculpido, pintado ou costurado – obedece a um mesmo impulso humano: a necessidade de transcender o tempo através da forma.”, sublinha Eloy Martínez de la Pera Celada.

A mostra evoca também a organização da exposição permanente do Museu Gulbenkian — atualmente encerrado para obras de requalificação, prevendo-se que reabra no final de julho.

“Arte & Moda”. Avenida de Berna, 45 A 1067-001 Lisboa. De 18 de abril até 21 de junho. Domingo a sexta das 10h00 às 18h00, Sábados das 10h00 às 21h00. Encerra à terça-feira. Bilhete: 8 a 12 euros (sujeito a descontos e entrada livre aos domingos depois das 14h00).