A 12 de janeiro de 1972, surgia numa das páginas do jornal New York Times um obituário digno de uma personagem de cinema: “Nubar Gulbenkian, o extravagante financeiro que foi um dos homens mais ricos do mundo, morreu na noite de segunda-feira no Hospital Inglês de Cannes, na Riviera Francesa, vítima de um ataque cardíaco. Tinha 75 anos”. Na capital francesa do perfume, já debilitado, Nubar era conhecido como uma figura excêntrica, de hábitos e gestos marcantes, capaz de fazer inveja ao emergente jet set – termo que, na década seguinte, viria a designar as vidas de socialites que ocupavam as colunas sociais de jornais e revistas de todo o mundo.
Em retrospetiva – meio século depois – é difícil analisar a popularidade ou até mesmo a importância desta personalidade que, até hoje, é sobretudo reconhecida como filho primogénito de Calouste Gulbenkian, o magnata do petróleo que se exilou em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial e onde viria a morrer, deixando como vontade póstuma a criação de uma fundação em seu nome que albergasse a sua já extensa coleção de arte. O resto, quanto a essa parte, é uma história conhecida. Chegados a 2025, a vida e figura do filho de Gulbenkian captam agora nova atenção ao inspirar uma das personagens de O Esquema Fenício, o novo filme de Wes Anderson. Quem foi, afinal, este bon vivant, de luxuosa barba, interpretado por Benedict Cumberbatch como “Uncle Nubar”, o antagonista ficcionado como homem de negócios implacável com uma excelsa propensão para o dramatismo?
Das margens do Bósforo para Cambridge
Nascido em 1896, filho primogénito de Calouste Gulbenkian e Nevarte Essayan, Nubar destacou-se, na maioria dos casos, pela aparência e pelas máximas hedonistas que proferiu ao longo da vida: “Acredito no conforto. Gosto de me divertir. Gosto da vida. Gosto de tudo o que faço”, citava o obituário do New York Times. Na pequena aldeia de Kadi Keui, na Turquia, na margem asiática do Bósforo, onde nasceu, viveu pouco tempo, já que a família teve de fugir ao massacre dos arménios pelos turcos. Nesse momento começa a saga familiar que até hoje continua a inspirar livros e filmes. Conta-se, aliás, que o pequeno Nubar terá sido retirado do país dentro de uma mala. A fuga possível daria início a uma educação sentimental que não destoaria de um romance de Flaubert.
▲ Em entrevista ao El Mundo, Wes Anderson refere mesmo a leitura de Mr. Five Percent, de Conlin, como decisiva para a personagem de Benedict Cumberbatch
O pai Calouste, já então abastado, adquiriu casas em Londres, Paris e na Riviera Francesa para a família. Em 1902, tornou-se um dos principais acionistas da fusão entre a Royal Dutch e a Shell, de onde sairia em 1926. Encontraria depois a sua galinha dos ovos de ouro na Iraq Petroleum Company, onde ficaria para sempre conhecido como Mr. Five Per Cent. Quanto a Nubar, foi educado em Harrow, na Universidade de Bona e no Trinity College, em Cambridge. O pai preparou-o desde cedo para os negócios e assegurou-se de que aprendesse fluentemente francês e alemão. “Era indecentemente meticuloso nessas coisas”, recordava o filho nas memórias que escreveria anos depois, publicadas na autobiografia Pantaraxia — Autobiografia, traduzida para português por Adriana Barreiros e José António Barreiros e publicada pela editora Labirinto de Letras em 2015.
Em entrevista ao Observador, o biógrafo Jonathan Conlin, autor de O Homem Mais Rico do Mundo: As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian, salienta que, desde muito cedo, Calouste foi um pai que geriu a vida do filho com pinças para o tornar no seu natural sucessor. “Neste período histórico, é muito comum vermos este tipo de histórias, onde o núcleo familiar é essencial, sobretudo no que diz respeito a histórias de famílias marcadas por uma migração para o Ocidente. Calouste Gulbenkian fez sempre, desde cedo, uma gestão muito particular da vida do filho. Queria educá-lo de uma forma ocidental e completamente orientada para os negócios da família”, sublinha.
Não tendo sido contactado pelo realizador norte-americano, Jonathan Conlin está, no entanto, ciente da influência que o seu livro sobre Calouste teve na origem da personagem de O Esquema Fenício. Em entrevista ao El Mundo, Wes Anderson refere mesmo a leitura de Mr. Five Percent, de Conlin, como decisiva: “Ilustra como a ambição de uma única pessoa pode influenciar não só a sua época, mas também o futuro”. É dai, pelo menos, que nasce a ideia de ter no filme o magnata do petróleo – sendo uma inspiração repartida entre pai e filho – que explorava justamente a importância do mundo árabe na proliferação destes negócios. No filme, refira-se, Nubar é apresentado como meio irmão de Anatole “Zsa-Zsa” Korda e, é justamente na disputa fraterna, que se centra muito da sua narrativa.
Um hedonista sem remorsos
Mas voltemos à vida de Nubar Gulbenkian. Desde jovem, “o filho pródigo de Calouste”, como lhe chama Jonathan Conlin, revelou um talento natural para os negócios e um apetite ainda maior pelos prazeres da vida. Um amigo de Cambridge, George Ansley, dizia dele: “O Nubar é tão resistente que esgota diariamente três corretores de bolsa, três cavalos e três mulheres”. Deslocava-se num carro encomendado com motor Rolls-Royce e carroçaria dourada a imitar um táxi londrino: “Gosto de viajar num táxi banhado a ouro que consegue fazer inversão de marcha num tostão – seja lá isso o que for”.
Numa época em que os contornos morais e éticos eram consideravelmente diferentes daquilo que é que socialmente aceite atualmente, Nubar tinha fama de mulherengo, sendo amplamente reconhecido pelas suas aventuras conjugais. Casou-se três vezes, mas só à terceira “assentou”, como explicita: “Tive boas esposas, dentro do que se pode esperar de uma esposa e, como é natural, duas delas foram-se embora.” Nas memórias que publicou, diria que, em cada caso, assumiu cavalheirescamente a culpa pelo fim dos seus relacionamentos – um dos quais, talvez o mais badalado, com Herminia Borrell, figura destacada da alta burguesia galega.
▲ Nascido em 1896, filho primogénito de Calouste Gulbenkian e Nevarte Essayan, Nubar destacou-se, na maioria dos casos, pela aparência e pelas máximas hedonistas que proferiu ao longo da vida
Gamma-Keystone via Getty Images
“Nubar foi sempre alguém que quis dar nas vistas, até para se fazer sobressair em relação ao pai que não lhe poupava críticas ao estilo de vida. Queria comportar-se como um aristocrata inglês, mas fazia-o de uma forma superficial”, defende Jonathan Conlin. “Os casamentos, os carros e os diversos luxos contrastavam com a forma como o pai se comportou durante a vida – de forma muito mais humilde –, e isso originou tensão entre ambos”, acrescenta o biógrafo.
Na sombra de um império
A relação com Calouste Gulbenkian foi quase sempre conturbada. Embora afetuosa, ficou marcada por conflitos frequentes e discussões amargas, na maioria dos casos por dinheiro e pelo rumo da futura herança familiar. Gulbenkian pai, apesar de considerado o homem mais rico do mundo à época, era visto como forreta e, até à morte, em 1955, a gestão financeira dos filhos era feita à base de mesadas. De resto, recorda o New York Times, Nubar trabalhava para o pai sem salário.
“Um dia, em 1938, quis almoçar enquanto trabalhava e levou para o escritório uma refeição leve – frango em gelatina de estragão com espargos – cobrando o valor à tesouraria. O pai repreendeu-o duramente”, lembra o mesmo obituário. O jovem Nubar, indignado, viria mesmo a processar o pai por 10 milhões de dólares, numa ação que ponderava há muito, para reclamar a sua parte justa dos lucros de uma subsidiária da família. O caso acabou por ser resolvido fora do tribunal, mas o pai teve de pagar 86 mil dólares em custas e honorários. “Foi seguramente o frango mais caro da história”, diria mais tarde.
Entre os rumores e lendas que se foram criando acerca da vida da família, dir-se-ia também que o incidente contribuiu para a decisão de Calouste Gulbenkian em deixar 420 milhões de dólares da sua fortuna à Fundação Calouste Gulbenkian, fixada em Portugal. Embora tenha acabado por herdar 2,5 milhões de dólares do pai, assim como mais dinheiro proveniente de uma choruda indemnização da Fundação, Nubar tornou-se também rico por si só através dos seus próprios negócios ligados à exploração de petróleo. “Foi também ele um chamado rei do petróleo”, diz Jonathan Conlin.
Inicialmente protegido de Henri Deterding na Royal Dutch Shell, Calouste continuou a ser o estratega de bastidores, explica o biógrafo. “É Calouste que lhe arranja o emprego na Shell; há quem defenda que era uma espécie de espião ou cavalo de troia, e quando mudou de ideias, foi também o pai a dizer-lhe que tinha de sair da petrolífera”. Não obstante, Deterding, diz ainda Conlin, foi uma espécie de ‘segundo pai’ para Nubar: “Ao contrário de Calouste, foi alguém que o incentivou a ser independente, mas também a seguir um certo estilo de vida errático.”
Ainda sobre o futuro do desígnio Gulbenkian, a conclusão é que, embora palaciana, não foi verdadeiramente pacífica. José António Barreiros, editor da versão portuguesa da autobiografia publicada pela primeira vez em Londres, em 1965, diz que Pantaraxia retrata uma visão crítica quanto ao modo como foi interpretada a vontade do testador no que à criação da Fundação respeita, e ao impasse que se gerou entre Lord Radcliffe e Azeredo Perdigão – os dois advogados de Calouste Gulbenkian – que mantinham diferentes interpretações sobre a forma como deveria ser executado o testamento do magnata arménio, e sobre se a fundação, criada em 1956, deveria ou não fixar-se em Lisboa. Salazar, como se sabe, interveio no processo.
▲ Entrou nos negócios do petróleo por “obediência patriarcal”, mas que a certa altura percebeu que “tinha mais do que suficiente para viver uma vida autónoma com aquilo que mais gostava”
Mirrorpix via Getty Images
Foi justamente este aspeto que interessou o editor português a querer fazer uma tradução portuguesa: “Estranhei que um livro publicado há mais de 50 anos não tivesse uma edição por cá, sobretudo sendo tão crítico em relação ao início da Fundação Calouste Gulbenkian”. A partir da sua leitura, diz José António Barreiros, percebe-se que Nubar se sentia defraudado e que, no seu entendimento, o pai “queria uma fundação em Portugal, mas que não fosse apenas para os portugueses”.
Os últimos dias de Uncle Nubar
Especialmente depois da passagem pela Shell, Uncle Nubar – como é retratado agora no cinema – dedicar-se-ia aos prazeres da vida, deixando para trás os negócios do petróleo. Dono de uma considerável fortuna, era conhecido por usar uma orquídea fresca na lapela todos os dias, símbolo da Legião de Honra francesa que lhe fora atribuída e a sua vida continuaria a suscitar o interesse por parte da imprensa. Entre factos pouco esclarecedores e alguns mitos criados à volta da sua figura – como o suposto papel numa rede de repatriamento que ajudou soldados aliados e exilados durante a Segunda Guerra Mundial – diria que a sua única recreação real, quando pressionado a nomear um passatempo, era “pantaraxia” – uma palavra que dizia ter inventado a partir do grego, significando “manter as pessoas em alerta”.
Nubar Gulbenkian, sublinha o editor português, acaba por ser uma “personagem secundária” de uma história maior – a do seu pai – mas não deixa de ser alguém que acrescenta muitos aspetos interessantes à análise desta época tão particular. “Ele assiste, no fundo, ao verdadeiro incremento de fortunas através do petróleo e a uma redefinição no papel que o Médio Oriente e a região envolvente vai ter na economia mundial”. Na sua opinião, Nubar foi alguém educado e que entrou nos negócios do petróleo por “obediência patriarcal”, mas que a certa altura percebeu que “tinha mais do que suficiente para viver uma vida autónoma com aquilo que mais gostava”.
Mas não deixou de alimentar polémicas. Em 1962, processou a BBC por não lhe fornecer, como prometido, uma gravação de uma entrevista onde criticava os gestores da Fundação Gulbenkian. Recebeu duas libras de indemnização, que nunca descontou. Mandou emoldurar o cheque e colocou-o sobre a lareira. Cada vez mais distante do legado familiar, torna-se num reconhecido gourmet e organizador de grandes festas, apreciava as melhores refeições, muitas das quais preparadas especialmente por renomeados chefs. “A gastronomia é uma arte tão difícil como a música ou a pintura e, para mim, muito mais gratificante”, dizia. “Tiro mais prazer de compor um menu e discutir cada prato com um chef competente do que de ouvir a melhor sinfonia de Beethoven.”
▲ “Era claramente um personagem à espera do seu próprio filme", diz o editor da versão portuguesa da autobiografia de Nubar Gulbenkian
Bettmann Archive
Certa vez, quando lhe perguntaram se preferia um conhaque velho ou mulheres jovens, cavalos ou Rolls-Royces, vida citadina ou vida no campo, acariciou pensativamente a barba e respondeu com simplicidade: “Prefiro tudo”. Mesmo nos últimos anos de vida, passados sobretudo na Riviera Francesa, Nubar Gulbenkian manteve-se fiel à figura de dandy. Dava tanta importância ao vestuário quanto à comida, e os seus fatos, provenientes da melhor alfaiataria de Savile Row, eram elementos essenciais do seu dia a dia, independentemente do custo. De monóculo, chapéu de coco, cachimbo ou charuto, era — apesar de todos os prazeres — reconhecido pelo seu percurso com méritos próprios, e que, apesar de diversos constrangimentos, permaneceu uma figura de destaque na família Gulbenkian.
A impossibilidade de ter filhos tornou-o, como salienta Jonathan Conlin, um tio dedicado aos filhos da irmã Rita. Mesmo em relação à Fundação, “é de louvar o seu interesse, porque sabia que estava fora dessa herança, mas não deixou de se preocupar com o legado Gulbenkian”, afirma o biógrafo. Nos anos que antecederam a sua morte, Nubar dedicou-se aos seus prazeres favoritos: a boa comida, o vinho, as odes de Horácio, o mergulho (que começou a praticar depois dos 65 anos), a equitação e a caça à raposa. “Se algo for demasiado aborrecido para ser feito com entusiasmo, mais vale não o fazer.” Talvez seja esta a melhor descrição do primogénito de Calouste Gulbenkian: um hedonista por natureza, como defende José António Barreiros, que viveu com extravagância, ousadia e uma certa melancolia elegante. “Era claramente um personagem à espera do seu próprio filme.”