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Será possível sair do labirinto de Arthur Harari?

“L'inconnue” parte de uma ideia fascinante e deixou meio festival de Cannes à porta enquanto “Hope”, blockbuster sul-coreano de acção e sci-fi, pasmou a outra metade.

“L'inconnue”, de Arthur Harari
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▲“L'inconnue”, de Arthur Harari

▲“L'inconnue”, de Arthur Harari

L’inconnue era um filme muito aguardado em Cannes depois do excelente Onoda — 10 000 Noites na Selva e da consagração de Anatomia de uma Queda, que Arthur Harari escreveu com a sua companheira na vida, Justine Triet. L’inconnue adapta uma BD co-escrita por Harari e o seu irmão Lucas: Le cas David Zimmerman. É a história de um fotógrafo sorumbático (David Zimmerman/Niels Schneider) que, em certa festa, toma um comprimido alucinogénico; em seguida, tem um encontro sexual com uma mulher que lhe prende o olhar (Eva Helsinger/Léa Syedoux) e acorda no corpo da desconhecida do título.

Este dispositivo narrativo, a que os anglo-saxónicos chamam de body switch, embora pouco frequente, nada tem de inédito, desde uma comédia como Turnabout (filme de Hal Roach dos anos 40) ao muito recente A Substância, de Coralie Fargeat (a estes junte-se Face/Off, de John Woo), passando pelo universo muito particular de David Lynch (que ao método recorreu em diversas ocasiões). No filme de Harari, esta atracção pela mutação e pela máscara está também relacionada com a persona de Bob Dylan, que também é Zimmerman de baptismo e aparece na banda-sonora.

Contudo, muito poucos são os filmes que, recorrendo ao body switch, agitaram tanto a percepção espontânea que o espectador tem de uma personagem. Na sua primeira metade, L’inconnue é simplesmente brilhante a fazer passar a angústia existencial de David Zimmerman parta a audiência, convencendo-nos plenamente no seu inquérito (abre-se aqui um tom de filme policial) à identidade do corpo que ele agora habita e a uma obra entrada no cinema fantástico que nos vai permitindo acreditar no inverosímil. O espectador é, nesta fase, livre para admitir todas as hipóteses: pactos demoníacos, influências alienígenas, metáforas de epidemias sexualmente transmissíveis…

▲ David no corpo de Eva (Léa Seydoux) em "L'Inconnue"

L’inconnue “não se explica”, recusará sempre fazê-lo, com uma tenacidade impressionante e até ao seu último fôlego, perseguindo aqui, nem por isso as obras citadas, mas o lastro de um filme como Blow-Up, de Antonioni (em que também um fotógrafo se envolvia num crime relacionado com o mistério de uma imagem), um filme que perseguia vestígios. Enquanto fotógrafo, percebemos que o trabalho de David se relaciona com esta ideia.

David, já no corpo de Léa Seydoux, põe-se então no encalço da identidade da mulher loura que ele agora vê quando se olha ao espelho, uma mulher alemã que vive em Paris e se chama Eva. Se a encontrar, julga ele, talvez a destroca seja possível. Acontece que o corpo que era o dele é mais à frente habitado por uma terceira personagem, uma adolescente recém-desaparecida de casa, chamada Malia (Lilith Grasmug). Ou seja, personalidades e corpos ficam irremediavelmente condenados àquela obscuridade sem correspondência e o espectador preso neste labirinto, como se o filme, de certa forma, fechasse a sua última porta desde dentro, submetendo quem o vê ao seu feitiço.

E o que provoca o feitiço? Um distúrbio que nos obriga a pôr em causa o modelo binário como relacionamos uma identidade a um corpo. Este distúrbio é tão sentido pelas personagens (exigindo aos actores uma forma de representação inusual e complexa) como pela audiência. Nada popular como ideia, esta desestabilização deixou imediatamente metade dos festivaleiros à porta e a sensação de que o drama se perdeu pelo caminho, numa espiral infinita.

“Hope”, de Na Hong-jin, blockbuster sul-coreano: tomara o “Avatar”…

O mais incomum dos filmes de Cannes 2026, aquele que mais espanto causou, é um filme de género com monstros e combates de toda a espécie, galvanizados pelo CGI e pelo topo de gama do aparato tecnológico. O seu realizador, Na Hong-jin, distinguiu-se há uma década com The Wailing e regressa agora com a mais dispendiosa produção da cinematografia sul-coreana, história de um lugarejo não muito afastado da fronteira entre as Coreias que começa a ser dizimado sem explicação, por todo o lado em fora de campo, só ao fim de uma hora, já com a conta perdida aos cadáveres e a tanto estrago, tem o espectador direito a ver o “monstro”, que está a arrasar tudo por onde passa. Alguns dos intérpretes do filme são estrelas de topo do show-biz sul-coreano.

▲ “Hope”, de Na Hong-jin: um blockbuster sul-coreano em competição pela Palma de Ouro

Hope (a palavra não vem da “esperança” em inglês mas do lugar em que o filme decorre), aposta tudo no seu exercício de ação, espectáculo frenético de encher o olho e “para lá de Mad Max”, levando a narrativa associada às práticas do jogo de vídeo a um patamar inédito de sofisticação coreográfica. E contudo, é um filme que não sabe, ou não quer (nem tem tempo), desenvolver personagens tal como Bong Joon-ho o o fez há 20 anos, quando realizou The Host. Temos aliens novos para os próximos anos e franchise asiática, sem parábolas nem sentimentalismos, a fazer concorrência com o Ocidente (tal como acontece com a indústria automóvel).

O autor escreve segundo a antiga ortografia. 

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