A nova temporada da Gulbenkian Música decorre entre setembro de 2026 e junho de 2027, num cruzamento entre repertório sinfónico, música coral e de câmara, recitais, cine-concertos e músicas do mundo. É a primeira sob a direção do sueco Fredrik Andersson, que sucede a Risto Nieminen após 16 anos à frente da direção artística. Entre os grandes marcos do repertório sinfónico destacam-se obras como a 9.ª Sinfonia de Bruckner, a Sinfonia Dante de Liszt e a 4.ª Sinfonia de Tchaikovsky, num programa em que o maestro titular Hannu Lintu mantém uma presença central, dirigindo mais de uma dezena de concertos.

A criação nacional ocupa também um lugar de relevo nesta temporada, com a interpretação de obras de compositores portugueses como Joly Braga Santos (em três peças distintas), bem como de Andreia Pinto Correia, Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes-Graça e Luís Tinoco. Sobre esta aposta, o diretor artístico sublinha a importância de “abraçar a história que é daqui”, lembrando que, sendo Portugal um país de dimensão reduzida, “não tem um Ravel ou um Sibelius que seja habitual no repertório de uma orquestra internacional”. Cabe à instituição, sustenta, destacar a música dos compositores portugueses: “É parte do nosso ADN e da nossa história e isso pode abrir portas noutros países”.

A temporada contará ainda com diferentes vozes da direção musical, entre presenças habituais e estreias na Gulbenkian, com nomes como Lorenzo Viotti, Paweł Kapuła, Luca Guglielmi ou Joshua Weilerstein. Destaca-se igualmente a presença reforçada de maestrinas como Agata Zając, Charlotte Corderoy, Corinna Niemeyer, Izabelė Jankauskaitė, Joana Carneiro e Tabita Berglund, entre outras.

Centenários e programação de arranque

O arranque da nova temporada acontece a 5 de setembro, como habitualmente no Parque do Vale do Silêncio, com a Orquestra Gulbenkian dirigida pela maestrina checa Alena Hron, estreante em concertos da fundação, num concerto integrado no programa Festas na Rua. Promete ser, como explica a Gulbenkian em comunicado, uma “imperdível viagem musical” pelas óperas de Bizet, Puccini e Verdi, até às composições do século XX de George Gershwin e Florence Price.

A temporada prossegue depois, a 9, 11 e 12 de setembro, com um ciclo de três concertos de entrada gratuita dedicado aos compositores György Kurtág e Betsy Jolas, ambos nascidos em 1926. O programa inclui Fragmentos de Kafka, a mais longa obra do compositor húngaro, escrita para soprano e violino, e Little Summer Suite, da compositora franco-americana, entre outras peças.

Ainda em torno desse ano simbólico de 1926, a Gulbenkian apresenta a ópera-oratória Édipo Rei, de Igor Stravinsky, concluída em 1926 e estreada no ano seguinte. Baseada na tragédia homónima de Sófocles, a obra, com libreto de Jean Cocteau, não era apresentada em Portugal desde 2016. O espetáculo assinala também o início da quarta temporada de Hannu Lintu à frente da Orquestra Gulbenkian, cujo contrato se estende até 2030, tal como sucede com Martina Batič na direção do Coro Gulbenkian.

Sublinhando a ideia de continuidade, Fredrik Andersson explicou num encontro com jornalistas que o objetivo passa por “trazer um pouco mais de variedade no repertório e nalguns dos artistas”. “As coisas estão a funcionar bem, mas é importante trazer caras novas ou voltar a apresentar intérpretes que já não tocam aqui há algum tempo”, afirmou o novo diretor artístico.

Além da ligação aos centenários de György Kurtág e Betsy Jolas – e da recorrência simbólica do ano de 1926 ao longo da programação – Andersson defendeu também uma maior diversidade estética na temporada. “Não queremos apenas o romantismo tardio, mas também música do período clássico inicial e criação contemporânea. Tem de haver equilíbrio no repertório e variedade de compositores e artistas. É isso que procuro, até porque as pessoas esperam a melhor qualidade possível da Gulbenkian”, afirmou.

Já marcada pela época natalícia, um dos momentos singulares da temporada será o espetáculo The Nutcracker and I, com a pianista Alexandra Dariescu e a bailarina Désirée Ballantyne, que protagonizam uma abordagem original ao clássico bailado O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Em palco nos dias 21 e 22 de dezembro, Dariescu cruza a sua história com a de Clara, a jovem protagonista da obra, num espetáculo que combina música ao vivo, dança e animação digital.

Por sua vez, o Concerto de Ano Novo contará com uma dupla de estreantes no Grande Auditório, o maestro Domingo Hindoyan, à frente da Orquestra Gulbenkian, e a soprano Erin Morley. O início do ano prossegue com a projeção do filme Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg, cuja banda sonora de John Williams será interpretada ao vivo pela Orquestra Gulbenkian, dirigida por Anthony Gabriele.

Piano, grandes intérpretes e música de câmara

A nova temporada apresenta, tal como habitualmente, o Ciclo de Piano, que reúne nomes como Grigory Sokolov, Daniil Trifonov e Seong-Jin Cho. No âmbito do Ciclo Grandes Intérpretes, os pianistas Evgeny Kissin e András Schiff juntam-se para interpretar obras para dois pianos e para quatro mãos de Mozart, Schumann, Smetana e Dvořák; o barítono Matthias Goerne apresenta-se com a pianista Tamara Stefanovich para dar a ouvir canções de Brahms, Schumann e Wolf; e o violinista Leonidas Kavakos, com o pianista Enrico Pace, aborda um programa dedicado a Beethoven. Este ciclo inclui ainda duas orquestras especializadas no repertório barroco, Il Pomo d’Oro, com a violoncelista Anastasia Kobekina, e Apollo’s Fire, que se apresenta com a soprano Jeanine De Bique. Ainda neste quadro, o pianista Igor Levit apresenta um recital a solo.

A Música de Câmara marcará forte presença, com a atuação de algumas das mais reconhecidas formações da atualidade. É o caso do Quarteto Belcea, do Quarteto Van Kuijk, do Quinteto de sopros Les Vents Français, do trio formado por Javier Perianes, Jean-Guihen Queyras e Tabea Zimmermann e de um duo composto pelo pianista Benjamin Grosvenor e pelo violoncelista Sheku Kanneh-Mason.

Sons de diferentes geografias voltam a ecoar no Grande Auditório no Ciclo Músicas do Mundo. O génio de uma das figuras mais inovadoras da história do tango, Eduardo Rovira, é evocado pelo Ensemble Sonico; a música tradicional sul-coreana é apresentada por Ha Suyean e Hwang Hyeyoung; as concertinas do grupo português Danças Ocultas fazem-se ouvir no espetáculo Flúmen; e a música da região de Salento associada ao tarantismo é apresentada pelo Canzoniere Grecanico Salentino. Este ciclo inclui ainda um recital do Quarteto Béla com o Duo Sabil, a que se juntam Laila Mahmoud e Moslem Rahal; um programa de música clássica persa pelo Ensemble Sepidar; e o Ensemble Constantinople, com um concerto inspirado no poeta místico Rumi, em colaboração com a cantora Ghalia Benali.

Nesta temporada serão ainda transmitidas produções da Metropolitan Opera, entre as quais Così fan tutte, de Mozart, Macbeth, de Verdi, Sansão e Dalila, de Saint-Saëns, La Fanciulla del West, de Puccini, Silent Night, de Kevin Puts, Manon, de Massenet, Otello, de Verdi, e Parsifal, de Wagner.

Nesta apresentação de temporada à imprensa, Fredrik Andersson realçou ainda que a Orquestra Gulbenkian, em linha com o que já tinha sido anunciado pelo maestro Hannu Lintu, vai regressar às gravações. Em fevereiro, a orquestra irá gravar a Sinfonia Dante, S.109, de Franz Liszt, ainda sem editora anunciada.

O diretor de música sublinhou igualmente que está em curso um reforço da formação orquestral, com destaque para as cordas. “Estamos a contratar mais músicos de cordas e queremos ter um ensemble maior. Isso vai melhorar a nossa qualidade, mas há hoje uma competição muito grande. É preciso integrá-los e misturá-los com o que já temos. Esse é o desafio do futuro. Vai levar alguns anos, mas estamos a trabalhar nisso”, afirmou.