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Um filme perturbador, sobre a França colaboracionista de Vichy, vira de pantanas o curso do festival: “Notre salut”

É um filme que fazia falta à França, hoje como há 80 anos. Realizado por Emmanuel Marre, confronta o país com o seu período histórico mais negro do século XX: os anos da ocupação nazi.

Swann Arlaud interpreta Henri Marre em “Notre salut”, de Emmanuel Marre
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▲Swann Arlaud interpreta Henri Marre em “Notre salut”, de Emmanuel Marre

▲Swann Arlaud interpreta Henri Marre em “Notre salut”, de Emmanuel Marre

Na França de 1940, estava o país ocupado pelo III Reich, Henri Marre, simpatizante fascista, deixa mulher e filhos em casa e parte para Vichy, com o intuito de divulgar um ensaio de gestão da sua autoria, com título eloquente, igual ao deste filme. É um texto já subjugado à capitulação, focado na divisa “trabalho, família e Pátria” do marechal Pétain. Com alma de contabilista e meiguice de moço de fretes, Henri Marre lá se encaixa, subindo na hierarquia do Estado, empregado pelo Ministério do Trabalho. Obedece caninamente às hierarquias e adapta-se à enlameada linguagem administrativa dos escritórios que têm o destino do país nas mãos.

Notre Salut desenvolve a história do bisavô do cineasta, Emmanuel Marre, que leu a correspondência do seu antepassado, sigilosamente guardada por uma tia. É um filme que confronta a França com o seu período histórico mais negro do século XX: os anos da ocupação nazi. Um espelho da cobardia do país e da sua maior ignomínia. Mas Notre Salut é, sobretudo, um filme sobre a solidão da sua figura central, que é terrível, vazio moral incrustado no rosto cansado de Swann Arlaud, em prestação impressionante. A mise en scène adapta-se à natureza titubeante da personagem, com a estranheza do filme a dever muito ao trabalho de câmara (ao ombro) e a certos momentos bruscos, entradas de luz invulgares: vacila a imagem porque, quase sempre, vacila também a personagem desde o seu interior.

▲ A França de Vichy ocupada pelos alemães em “Notre Salut”

A infâmia está dissimulada, como tão bem a fixou Jacques Becker em Falbalas (1945), filme passado no mundo da moda, na frívola Paris da Ocupação, que tão bem mostrava como os franceses preferiram entregar-se para manter intactas as belas fachadas dos prédios do seu conforto. Já em Notre Salut, a infâmia não tem escala. No Ministério que enche os bolsos do homem que chegara a Vichy depauperado, Henri percebe que lhe passam na secretária notas de despesa relacionadas com o transporte de judeus da Occitânia para os campos de concentração alemães, levados como animais, em contentores forrados a palha. O filme não precisa que se lhe aponte o dedo: o olhar de Swann Arlaud diz tudo. De facto, não é a um julgamento que Notre Salut incita. Nunca é o monstro que é dado a ver, antes o ser humano iludido, cobarde, incapaz, por fim, de travar a sua queda.

O concurso de Cannes 2026 não tem sido mau — mas convenhamos que está longe de ser memorável. Para uma clara subida de forma de James Gray face ao trabalho imediatamente anterior, não podemos deixar de sublinhar que autores como Farhadi, Koreeda, Mungiu, Zvyagintsev e até mesmo Almodóvar já foram mais contundentes do que as obras apresentadas este ano. Já em relação aos estreantes a concurso, invulgarmente muitos (incluindo Emmanuel Marre), só L’Inconnue, de Arthur Harari, e Hope, de Na Hong-jin, trouxeram realmente novas propostas estéticas e risco acrescido, independentemente do maior ou menor valor dos filmes. Ora, neste enquadramento, Notre Salut ganha ainda mais evidência. Só não se digeriu ainda os momentos musicais anacrónicos que polvilham o filme, às tantas é Live Is Life, hit dos anos 80, que sai dos altifalantes: Emmanuel Marre explicar-se-á ao Observador em breve, em entrevista

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▲ Sandrine Blancke, Emmanuel Marre e Swann Arlaud no “photo call” de Cannes, antes da conferência de imprensa

Getty Images

De resto, este cineasta já havia agitado as águas, em 2021, com Rien à Foutre (um filme prejudicado pelo período da pandemia e que se estreou mais tarde em Portugal, com o título Geração Low-Cost), em que Adèle Exarchopoulos, a encarnar uma hospedeira de bordo, pintava a manta entre aeroportos e retratava uma nova existência “em suspenso” nos nossos dias — a mesma Adèle que se bate com valentia num filme deste concurso que falha o alvo: Garance, de Jeanne Herry. Rien à Foutre tinha outra qualidade: era um filme em tudo desalinhado dos modelos do cinema francês corrente. Já em Notre Salut, o salto qualitativo do cineasta de 45 anos é tão notório, e o filme tão eficaz a definir aquela período turvo e podre da história da França, que se torna impossível não encarar Emmanuel Marre como a revelação deste festival.

Para já, é profunda a marca que deixou. Tão cedo não sairão da memória as cenas em que aqueles esbirros de Vichy, levados pela crença de “uma nova França alemã” e tolhidos pela sua própria indigência moral, são informados de que, numa certa parte da Normandia, um desembarque de tropas aliadas está a acontecer a uma escala nunca vista (seria a maior operação aero-naval da história). Agitados que nem toupeiras, ficam aterrados de medo com o Dia-D. Emmanuel Marre, destemido, fixa esse pânico no rosto dos seus actores. É um grande momento deste Festival de Cannes, seguramente de tudo o que ainda se verá no cinema em 2026.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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