Quem deambulasse junto às imediações do Estádio da Luz pelas 13h30 desta terça-feira podia ficar com a perceção — errada — de que não estávamos a meras horas de um dos concertos do ano, com a estreia adiada de Bad Bunny em Portugal. As estradas cortadas e o rigoroso controlo de segurança aludiam à magnitude do concerto que se seguiria, mas a ausência dos acampamentos que vimos noutras ocasiões, já passado o primeiro portão, do recinto aparentava contar outra história.
Desengane-se, no entanto, quem ficou com essa impressão. Nestes dias 26 e 27 de maio, Lisboa vai ser palco de uma das maiores estrelas pop do mundo, protagonista de uma das mais meteóricas ascensões de que há memória, goste-se ou não do perfume latino da música de Benito Antonio Martínez Ocasio. E já o reconhecemos em mais do que uma ocasião: quer por alturas do lançamento do mega sucesso Debí Tirar Más Fotos, no início de 2025, quer quando esse disco fez história ao ser o primeiro álbum do ano nos Grammys cantado apenas em espanhol.
A questão é que, não obstante a fidelidade que muitos fãs têm pelos seus artistas de eleição, é injusto pedir-lhes que se aventurem a estar sujeitos à combinação medonha de falta de sombra com mais de 30 graus de temperatura. Quem esteja minimamente familiarizado com a obra do artista porto-riquenho sabe que pode esperar uma subida do calor durante as suas atuações, mas Bad Bunny não foi por modas e optou por trazer o verão inteiro consigo.
Por esta hora, algumas dezenas de pessoas já se encontravam a marcar lugar nas filas, aproveitando todas as nesgas de sombra passíveis de ser aproveitadas. Sabendo à partida que os teriam de deixar para trás, alguns dos presentes trouxeram guarda-sóis e cadeiras de praia (mas as de pano, não as que Carlos Moedas espalhou pela cidade) para fazer da espera mais suportável. Outras, menos precavidas, tiveram de encetar planos de contingência: “tenho de comprar uns óculos, está bueda sol”, ouvimos desabafar.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Entrar pelo primeiro portão de controlo, note-se, obrigava também a passar o Rubicão e entrar numa prova de resistência sem volta a dar, visto que os seguranças tinham ordens estritas quanto a quem entra, mas principalmente quanto a quem sai. Ao pedido de dois jovens para sair para ir buscar refrescos, o funcionário respondeu com rispidez: “só vai um, só se pode sair com pulseira e já há poucas”. Melhor sorte tiveram os que, ou por falta de pressa em marcar um lugar nas grades, ou por simples sensatez, optaram por aguardar languidamente nas sombras derramadas pelos edifícios nas imediações do Estádio da Luz. Face a este cenário, não surpreende a parca presença de vendedores ambulantes com refrescos e comidas, munidos talvez da perspicácia de pouco valer a pena sofrer desidratações e/ou insolações perante a falta de fregueses.
Com a passagem dos minutos, mais e mais putativos espectadores começaram a avolumar-se perto das entradas e, com eles, gerou-se um quadro mais certeiro do que esperar do público de um concerto de Bad Bunny: muita juventude e estilo a preceito. Entre as almas expectantes era possível ver adereços alusivos às raízes boricuas do artista, desde as Pavas (os chapéus de palha tradicionais da ilha) até às flores de Maga usadas à lapela, não esquecendo os muitos casacos, t-shirts, tops, lenços e até bandeiras de Porto Rico.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Houve, no entanto, quem tenha trazido a sua própria indumentária feita à medida para este concerto. Foi o caso de Beatriz (23 anos), Sara (25 anos), Maria (24 anos) e Pedro (24 anos), os quatro envergando nas suas t-shirts e tops uma imagem do Sapo Concho — símbolo de Porto Rico que passou a fazer parte da iconografia de Bad Bunny — acompanhado das letras DTMF (Debí Tirar Más Fotos).
Já tinham feito merchandising assim quando vieram ver o brasileiro Luan Santana a Lisboa em 2025, tal como quando foram celebrar o Carnaval. Oriundos da Madeira, espalhados entre o Funchal e Câmara de Lobos, vão para a zona sul do relvado, lugar de custo acrescido mas que se justifica com o sacrifício feito para estar aqui. “Precisámos de tirar férias do trabalho numa má altura e as passagens [aéreas] foram caras”, justifica Beatriz ao Observador. A atuação que Bad Bunny trouxe ao intervalo do Super Bowl aguçou-lhes em particular o apetite, com Maria a esperar “um espetáculo gigante, com muita dança”.
Mas o investimento no artista porto-riquenho também se legitima na relação de longa data que têm com ele, entrando-lhes no radar em 2018 quando figurou no remix do êxito Te Boté. “Somos todas heartbreakers”, admite Beatriz, sendo condição sine qua non para fazer parte deste grupo que se sabe divertir. Tití Me Preguntó — canção em que Bad Bunny admite partir corações às suas amantes, não estando disposto a assentar com nenhuma — é, por isso, uma canção que lhes diz bastante. “Ainda por cima saiu quando estávamos todos de Erasmus”, acrescenta Pedro.
Não vindo de tão longe mas ainda assim obrigando a elevadas doses de devoção, junto a uma escadaria encontramos Maria, a sua melhor amiga Catarina e a sua prima galega Sara, oriunda de Santiago de Compostela. As duas primeiras (com 17 e 16 anos, respetivamente), vieram com a terceira (que, com 18 anos, é a “adulta designada” do grupo) de Braga num autocarro fretado especificamente para trazer espectadores a este concerto e levá-los de volta, pelo que a viagem de regresso será para adormecer enquanto se recorda o concerto.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Dada a partilha da língua entre Porto Rico e Espanha, as três registam com naturalidade que Sara tenha sido a primeira a apreciar a música de Bad Bunny, mas Maria seguiu-lhe as pisadas pouco depois. Só Catarina é que apresentou alguma resistência de início. “Ela julgava-nos por ouvirmos esta música latina”, provoca Maria. No entanto, ficou rendida a Un Verano Sin Ti, de 2022, e agora diz tratar-se do seu “cantor favorito”, mesmo que Debí Tirar Más Fotos tenha “demorado a entrar por ser menos imediato e mais eclético”, admite. Ainda assim, a jovem, munida de um chapéu bootleg de Bad Bunny (“é da Shein”, conta entre risos), frisa que sabe as letras todas do mais recente álbum do artista e vai cantá-las.
Também Guilherme, de 26 anos, tem um boné não-oficial do artista, mas mandou fazê-lo em homenagem a Un Verano Sin Ti, o álbum que o fez colar em Bad Bunny, em particular porque estava “de férias pela costa espanhola quando foi lançado e estava em todo o lado”. A outra metade deste casal lisboeta, Raquel, de 24 anos, também tem uma t-shirt alusiva ao cantor. No entanto, mesmo que já trazendo estes artigos de casa, não resistiram a ir à banca do merch oficial, onde os preços vão desde o boné a 30 euros aos hoodies a 70, passando pelas t-shirts a 45.
Um dos artigos em destaque é o que Guilherme comprou e entende-se o seu cariz sedutor: é uma t-shirt com o Sapo Concho vestido com o equipamento da seleção nacional portuguesa, miminho que Bad Bunny tem dado a cada país nas diferentes datas da digressão. E se o custo parece elevado, podia ser pior: Guilherme já tentou ir ver o artista ao estrangeiro, mas essa iniciativa custava sempre “para lá de 1000 dólares”. “É de aproveitar que ele veio a Portugal”, remata Raquel.
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Ambos fãs de música latina — Raquel diz que a sua cantora favorita é a argentina Tini, conhecida do público português por tratar-se de Martina Stoessel, atriz afamada por entrar na telenovela Violetta —, recordam com saudade quando foram à edição de 2024 do North Festival. “O primeiro dia teve Alejandro Sanz, Myke Towers e Maria Becerra. Não havia muita gente ainda a gostar deste tipo de música, o que foi ótimo, porque não teve muita gente e conseguimos ir mais para a frente”, graceja Guilherme. Hoje não vão estar tão à vontade, dada a lotação esgotada do concerto, mas o mote é “sentir a vibe”, afirma Raquel.
Para quem não sabe, “vibe” — de “vibração” — é um de vários anglicismos que adotámos no nosso discurso corrente. Mas mesmo que tivéssemos mantido a nossa língua enxuta de estrangeirismos, não seria difícil ouvir falar outros idiomas junto ao Estádio da Luz, desde o espanhol proferido por um grupo que não parecia ter idade sequer para ter responsabilidade penal ao polaco falado por um casal que juntou o útil ao agradável: ele veio em trabalho, ela está de férias, ambos vão encontrar-se com amigos em Espanha. “Temos visto tantos estrangeiros que até nos questionamos se vamos encontrar mais polacos”, admitiram.
É possível, mas pouco provável. Mais certo é mesmo ouvir falar a língua franca do mundo, aquela falada por Leslie, Bailey, Tabitha e Taylor. Norte-americanos naturais da cidade de San Antonio, no estado do Texas, não estão em Lisboa por fazerem parte da cada vez maior comunidade de expats na capital. “Eu fui ao casamento da minha melhor amiga em Barcelona e, a partir daí, estivemos a ver a que concertos podíamos ir na Europa. Vimos que o Bad Bunny vinha aqui e ainda por cima no meu dia de anos”, conta a aniversariante Bailey, a celebrar três décadas feitas. Acompanhada da mãe, Leslie, de 59 anos, as duas encontraram-se no nosso país com Tabitha, de 25 anos, e Taylor, de 26, ambos a namorar há quase nove anos, para assistir a este concerto. Sem grandes surpresas, têm adorado estar em Portugal, realçando a simpatia das pessoas e a qualidade da comida.
Todos conhecem Bad Bunny há muito, não sendo de descartar o facto de viverem numa das cidades dos EUA com maior comunidade hispânica, sendo que o próprio Taylor tem ascendência mexicana. “Já passava em todos os bares”, aponta Bailey, notando também que o artista ganhou outro perfil mediático em 2018 quando entrou ao lado de J Balvin no hit I Like It, de Cardi B, e recrutou Drake para a canção Mía, do seu álbum de estreia, X 100pre. Já Leslie admite com grande sentido de humor que se apaixonou pela música do artista ao coreografar as suas canções nas aulas World Beats Dance Jam do seu ginásio, por si descritas como “zumba em esteróides”.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Ao contrário de grande parte do público presente, Bailey e Tabitha aguardam este concerto com enorme anseio porque já viram Bad Bunny noutra ocasião (os portugueses não tiveram a mesma sorte: o artista foi confirmado na edição de 2020 do Primavera Sound Porto, cancelada devido à pandemia). Ambas estiveram em 2022 num Alamodome esgotado e onde “ninguém esteve sentado durante todo o concerto”. “Ele cresceu tanto desde então, estamos ainda com mais expectativas”, afirma Bailey.
É a propósito desse concerto que Leslie recorda com alguma mágoa que parte da razão que impeliu o grupo a vir deve-se ao facto de Bad Bunny não estar a dar concertos nos EUA. Mas, por outro lado, não é a primeira vez que faz uma travessia destas, já que acompanhou Bailey e Tabitha numa viagem a Hamburgo em 2024 para ver Taylor Swift. “Adorámos em particular ir a um concerto estando imersos nessa comunidade, gostamos de ser cidadãos do mundo”, explicita.
Sem abordar diretamente a situação doméstica que os aguarda quando regressarem aos EUA, Bailey acredita que o concerto vai estar “ao nível do que vimos no Super Bowl”, esperando que tenha também “um cunho político, tendo em conta o atual clima a nível mundial”. Tabitha secunda-a dizendo que o que mais gosta em Bad Bunny é a sua “mensagem de afeto e de união”, mas é Leslie quem faz o remate para o golo: espera que este concerto seja “um festival de amor e de dança sem parar durante três horas”.
Mesmo sob um calor impiedoso, os espíritos estiveram em alta no tempo em que o Observador esteve no local — em particular quando Bad Bunny iniciou o seu soundcheck e era possível ouvir BAILE INoLVIDABLE do exterior do estádio. Mas nem toda a gente conservou o bom humor.
“Esta malta, quem é que pensa que é. Eu sou do tempo do Daddy Yankee e do Don Omar, sou um verdadeiro reggaetonero, isto não é brincadeira”, desabafou um homem presente no local, munido de uma garrafa de vinho branco meio vazia. “Mas não tenho bilhete e não tenho dinheiro, estou à espera de um milagre”, continuou, antes de, num acesso de clarividência ou puro otimismo, completar: “Mas ao menos vai dar para ouvir do lado de fora”.