1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Intervalo da Super Bowl: o sonho americano de Bad Bunny levou Porto Rico (e não só) ao estádio, com Lady Gaga, Ricky Martin e um casamento

Este artigo tem mais de 6 meses

Depois da noite vitoriosa nos Grammys, seguiram-se 15 minutos de revolução transmitidos pela TV. Na Califórnia, Bad Bunny protagonizou um momento de produção irrepreensível e de contundência política.

GettyImages-2260107816
i

▲Bad Bunny no Levi's Stadium: ou Benito Antonio Martínez Ocasio, o porto-riquenho

Getty Images

▲Bad Bunny no Levi's Stadium: ou Benito Antonio Martínez Ocasio, o porto-riquenho

Getty Images

A terminar os seus cerca de 13 minutos de atuação, Bad Bunny exclamou para os 70 mil presentes no Levi’s Stadium em Santa Clara, na Califórnia, e aos muitos milhões a ver o pela televisão espetáculo de intervalo da 60ª Super Bowl a frase “God bless America”. Seria esta uma surpreendente demonstração de patriotismo e um piscar de olho a Donald Trump? O cantor porto-riquenho de 31 anos provou rapidamente que era o oposto, ao enumerar de seguida todos os países que compõem os continentes americanos, acompanhado de um batalhão de pessoas a carregar as respetivas bandeiras desses estados.

“Together, we are America” (“Juntos, somos a América”), leu-se na bola de futebol-americano que trazia consigo. Se dúvidas houvesse, o ecrã no topo do estádio foi ainda mais explícito: “The only thing more powerful than hate is love” (“a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”). No final, o resultado foi o esperado: uma atuação poderosa, uma produção ao nível da popularidade global que o artista conquistou e uma manifestação política contundente (e que pode ser vista aqui na íntegra).

Fossem estes tempos menos revoltos e a escolha de Bad Bunny para protagonizar o espetáculo de intervalo do Super Bowl teria causado pouco ou nenhum celeuma. Trata-se “apenas” do artista mais ouvido do mundo em 2025 no Spotify (o quinto mais ouvido nos EUA), à boleia de DeBÍ TIRAR MáS FOToS, o seu sexto álbum de estúdio, que venceu na semana anterior a este jogo o Grammy de Álbum do Ano e projetou-o para a estratosfera da pop e para uma digressão à escala planetária. Sendo este um dos momentos mais mediáticos do globo, há muito que a NFL escolhe as maiores estrelas que consegue para protagonizá-lo. Tinha-o sido assim no ano anterior, com a “victory lap” de Kendrick Lamar em Nova Orleães, tal como o fora desde 1991, quando os New Kids on the Block inauguraram a norma de ter grandes nomes em palco e não apenas espetáculos temáticos.

Intervalo da Super Bowl: Kendrick Lamar no centro da América, “Game Over” para todos os outros (sobretudo Drake)

Todavia, estes são tempos conturbados, particularmente nos EUA, onde está em curso uma acirrada guerra identitária de cunho racial, étnico e cultural quanto ao que significa ser um cidadão do país, materializada na enorme campanha de deportação de imigrantes por parte do seu Serviço de Imigração e Alfândegas, conhecido como ICE. Neste contexto, de pouco valeria a Bad Bunny ser, de facto, um cidadão norte-americano, visto que Porto Rico é um território sob administração de Washington desde 1898: só o mero facto de ser o primeiro cantor de sempre a ter uma atuação maioritariamente em espanhol ou de tocar em géneros musicais como reggaeton e trap latino faria soar as críticas quanto à NFL ceder a políticas de diversidade ou ser “woke”.

GettyImages-2260128686

▲ Bad Bunny em palco, como quem comanda um pelotão de unidade pela paz entre povos

Getty Images

A isto, todavia, juntou-se um caldo já bem apurado nos últimos anos. Sendo um artista sem papas na língua, Bad Bunny levantou ondas na sua estreia na televisão norte-americana em 2018, ao criticar a Administração Trump quanto à sua conduta desleixada perante os efeitos destrutivos do furacão Maria em Porto Rico. Foram-se somando tomadas de posição que desembocaram em DeBÍ TIRAR MáS FOToS, álbum que não só celebra a cultura da ilha caribenha, como reivindica a sua manutenção, melhoramento e que ele e os seus conterrâneos deixem de ser tratados como cidadãos de segunda categoria. Tal ficou demonstrado numa canção como Lo que le Pasó a Hawaii — contra a gentrificação e o desvirtuamento cultural — ou no videoclipe de NUEVAYoL, que não só apresenta a Estátua da Liberdade envolta numa bandeira porto-riquenha como inclui uma voz a imitar a de Trump que diz “quero pedir desculpas aos imigrantes na América… Este país não é nada sem os imigrantes”.

A gota de água junto dos conservadores americanos, porém, chegou quando se soube que Bad Bunny não ia levar a sua digressão pelo território continental dos EUA, preferindo organizar uma residência de 31 dias em Porto Rico. A justificação para tal, afirmou o artista à revista i-D, não foi por não gostar de atuar nos EUA, mas por temer que os agentes do ICE visassem especificamente os seus concertos e os seus espectadores maioritariamente latinos.

Foi por isso que, quando foi anunciado no final de setembro que a honra de atuar no Super Bowl recairia em Benito Antonio Martínez Ocasio, muito celebraram, mas a reação por parte de influencers e comentadores MAGA não se fez esperar, criticando a NFL pela sua escolha de um artista caracterizado como alguém que odeia Trump e que se recusa a cantar canções em inglês. A própria líder do Departamento de Segurança Nacional, Kristi Noem, prometeu que os agentes do ICE estariam “por todo o lado” no evento — o que, de resto, não se veio a verificar — e que a direção da NFL “não presta”.

GettyImages-2260616479

▲ O casal convidou Bad Bunny para o seu casamento e este retribuiu o gesto convidando-os para se casarem ao vivo no palco durante o espetáculo

Kevin Mazur/Getty Images for Roc

Às críticas juntaram-se os pedidos de boicote, cuja principal manifestação esteve na organização de um evento paralelo organizado pela Turning Point USA, a organização conservadora fundada por Charlie Kirk. Apelidado “All-American Halftime Show”, contou com vários artistas próximos de Donald Trump, como Kid Rock. Já o presidente dos EUA, depois de ter-se tornado no primeiro chefe de Estado do país a ir assistir a um Super Bowl ao vivo no ano passado, fez saber que não compareceria desta vez, por decorrer “demasiado longe”. Não obstante, Trump também quis sublinhar que não aprovava a escolha de Bad Bunny ou de Green Day, que tocaram antes do jogo. “Sou anti-eles. Acho que é uma escolha terrível. Tudo o que isso faz é semear o ódio”, afirmou.

Da parte de Bad Bunny, começou por reagir com humor a esta oposição. Quando foi convidado a participar no programa Saturday Night Live em outubro, aproveitou o seu monólogo para dirigir-se ao público em espanhol e dizer que a sua participação no Super Bowl era a prova “que ninguém pode remover ou apagar” a “a marca e as contribuições” dos latino-americanos “para este país”. “Se não compreenderam o que acabei de dizer, têm quatro meses para aprender”, acrescentou em inglês. Mais recentemente, porém, a postura foi bastante mais séria. Quando foi receber um dos três Grammys que venceu a 1 de fevereiro, começou logo por afirmar “Fora o ICE”, seguindo com “não somos selvagens, não somos animais, não somos estrangeiros, somos humanos e somos americanos”.

Numa edição anti-ICE, Bad Bunny faz história nos Grammys com primeiro álbum do ano cantado apenas em espanhol (e Kendrick bate recordes)

Face a toda esta situação, o Comissário da NFL, Roger Goodell, foi pressionado mais do que uma vez a trocar Bad Bunny por outro artista, recusando-o e defendendo a decisão de escolher o porto-riquenho. “Ele é um dos artistas mais populares do mundo. Eu diria que não tenho a certeza se alguma vez selecionámos um artista sem que houvesse alguma reação negativa ou crítica. Temos centenas de milhões de pessoas a assistir, mas tenho total confiança de que será um bom espetáculo. Ele compreende a plataforma em que está e acho que será um momento emocionante e de união”, afirmou em outubro.

Talvez de forma a tentar aliviar tensões, Bad Bunny optaria por destacar na conferência de imprensa de antevisão a este concerto que, mais do que tudo, queria que toda a gente “se divertisse”. “Vai ser uma grande festa. Quero levar o que as pessoas esperam de mim e muito da minha cultura”, prometeu — e foi exatamente isso o que aconteceu.

Um casamento, duas surpresas e muita cultura latina

Durante o intervalo do Super Bowl, o relvado onde minutos antes homens de densa massa muscular haviam-se degladiado em busca do troféu Vince Lombardi tornou-se num pedaço de Porto Rico, das suas linhas elétricas deficitárias aos seus terraços e às suas plantações. Foi precisamente aí onde Bad Bunny iniciou a atuação, cantando Tití Me Preguntó enquanto carregava uma bola de futebol-americano e passava por trabalhadores de foice na mão a cortar arbustos (que, viemos a saber, não eram meros adereços mas pessoas disfarçadas).

GettyImages-2260608658

▲ Sozinho entre bananeiras, Ricky Martin, a primeira grande estrela masculina latina da pop moderna, também ele oriundo de Porto Rico, cantou emocionalmente breves trechos de "Lo que le Pasó a Hawaii"

Getty Images

Tal como o fizera na sua residência artística na terra natal, todo o cenário e figurantes foi pensado para evocar a ilha, passando por idosos a jogar às cartas e esteticistas entediadas. Foi quando chegou à “casita”, a pequena casa que foi o nexo das suas atuações em Porto Rico e que foi recebendo celebridades nos concertos. Aqui não foi diferente, já que a transmissão mostrou claramente figuras como Cardi B, Pedro Pascal, Karol G e Jessica Alba a dançar enquanto Bad Bunny cantava o hino de empoderamento feminino Yo Perreo Sola no teto da casa. Este, todavia, “desabou”, fazendo-o cair na mesa de uma família e que lhe amparou a queda.

Numa das mais impressionantes demonstrações cénicas dos últimos anos, Bad Bunny foi apresentando alguns dos seus maiores êxitos enquanto os pormenores de excelência iam-se somando. Estes foram desde passar samples de Dale Don Dale e Gasolina dos seus precursores Don Omar e Daddy Yankee antes de EoO (cantada como numa rave, no topo de uma carrinha pick-up) até interromper NuevaYOL para entregar o seu Grammy a um jovem figurante muito parecido com Liam Ramos, a criança detida à porta de casa pelo ICE em janeiro e cujo paradeiro é ainda incerto.

O mais impressionante de todos, porém, foi mesmo o casamento que decorreu num terraço, com os meios de comunicação a confirmarem junto dos representantes do cantor que não foi uma encenação: aquelas duas pessoas casaram-se mesmo no meio do Levi’s Stadium, visto que o casal convidou Bad Bunny para o seu casamento e este retribuiu o gesto convidando-os para se casarem ao vivo no palco durante o espetáculo.

GettyImages-2260131068

▲ Lady Gaga, presente para cantar uma versão de "Die With a Smile" infundida de salsa

PA Images via Getty Images

Foi durante essas núpcias, de resto, que surgiu a primeira surpresa musical da noite. Depois de o padre os declarar marido e mulher, ambos se afastaram para revelar Lady Gaga, presente neste concerto para cantar uma versão de Die With a Smile infundida de salsa. O simbolismo é evidente: mais do que ser também ela descendente de imigrantes (italianos, neste caso), a cantora é uma mulher tradicionalmente branca. Cantando e dançando com Bad Bunny, homem latino de tez mais escura, faz a ponte entre comunidades que não se querem isoladas mas sim em comunhão. “Dancem sem medo, amem sem medo”, pediu Benito, depois de se deter por momentos a cantar BAILE INoLVIDABLE.

A outra surpresa surgiu pouco depois. Sozinho entre bananeiras, Ricky Martin, a primeira grande estrela masculina latina da pop moderna, também ele oriundo de Porto Rico, cantou emocionalmente breves trechos de Lo que le Pasó a Hawaii, antes de passar de novo a bola a Bad Bunny. Este, subindo um poste de eletricidade, recordou El Apagón, tema a roçar o techno que critica diretamente a governação de Porto Rico pelos frequentes apagões resultantes da infraestrutura elétrica decrépita da ilha. Foi depois disto que se deu o momento apontado no início do texto. Numa demonstração de pan-americanismo, as bandeiras de todas as nações do outro lado do Atlântico empunhadas, com Bad Bunny à frente a comandar um pelotão de unidade pela paz entre povos.

Quando foi escolhido para atuar neste Super Bowl, Bad Bunny reagiu com esta declaração: “O que estou a sentir vai além de mim mesmo. É por aqueles que vieram antes de mim e correram inúmeros metros para que eu pudesse entrar e marcar um touchdown… isto é pelo meu povo, pela minha cultura e pela nossa história”. Neste noite, marcou mesmo esse touchdown ao tirar a bola ao chão, antes de ser abraçado pelos amigos e do estádio cantar Debí Tirar Más Fotos. Se este não é a verdadeira definição do sonho americano, então é porque este já morreu.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.