Isto que se segue aconteceu no sábado: estava sentado com amigos numa esplanada de uma cervejeira em Lisboa, enquanto conversávamos e ouvíamos o DJ set de duas amigas e íamos tentando adivinhar as canções que elas iam passando – umas vezes conseguíamos, outras recorríamos ao Shazam, o que é um pouco triste de reconhecer, se tivermos em conta que as quatro pessoas ali sentadas incluíam um músico e três pessoas que escrevem sobre a dita matéria em causa. De súbito, numa passagem, não foi necessário Shazam: “Bad Bunny”, disse o membro feminino do grupo, prosseguindo a cantar.
O entusiasmo era de tal monta que dei por mim curioso para saber de onde vinha tamanho amor. E a resposta surpreendeu-me: pensei que ouviria qualquer coisa como “Gosto das canções” ou “O ritmo dá para dançar”, mas o que se seguiu foi uma biografia altamente detalhada de Bad Bunny, uma reflexão sobre a música latina e alguns apontamentos sobre o lado político do músico, o que é inesperado porque – vamos ser sinceros – quantos portugueses perderiam um segundo das suas vidas a ler sobre a política de Porto Rico não fosse terem uma paixão por Bad Bunny (artista natural deste mesmo país).
Até há pouco tempo, as pessoas que estavam ligadas à música olhavam para o reggaeton e géneros aparentados com alguma condescendência: houve quem apreciasse as primeiras aparições do género (quando Gasolina, de Daddy Yankee explodiu), mais como um exercício de etnografia do que com verdadeiro prazer; quem aderisse à versão sofisticada, mostrando, por exemplo, apreço pelo admirável single Con Altura, de Rosalía e com participação de Bad Bunnny – que no seu novo álbum, DeBÍ TIRAR MáS FOToS, a cita, em VOY A LLeVARTE PA PR (um reggaeton).
[o álbum “DeBÍ TIRAR MáS FOToS” na íntegra no Spotify:]
Mas o apreço do melómano por esta música era, na melhor das hipóteses, semi-irónico – uma forma de mostrar que apreciar o exótico não retira credibilidade ao gosto. Sem que os críticos se apercebessem, algo mudou: a barreira entre música boa e azeiteira caiu – o funk brasileiro e o reggaeton tomaram conta do mundo. E para as gerações abaixo dos 40 não é raro que pessoas que apreciam o indie-rock Fontaines DC ou a folk de uma Julia Jacklin dediquem hoje uma boa parte do seu tempo a ouvir as maiores estrelas da música latina – não a música latina experimental (as Mabe Frattis, as Montañeras) mas os mesmos exatos artistas que passam nas rádios mais comerciais e são ouvidas pelos comuns mortais.
Bad Bunny nasceu Benito Antonio Martínez Ocasio, na cidade de Bayamón (a segunda maior de Porto Rico, depois da capital, San Juan) em março de 1994, o que lhe garante quase 31 anos. É apelidado de “Rei do Trap Latino”, um género musical que lhe permite misturar variantes do hip-hop com géneros tradicionais e eletrónicas várias, é hoje uma estrela global que participa em singles de gente mais do que famosa como Cardi B ou tem mega-estrelas como Drake a fazerem aparições nos seus singles. Não é um cometa nem caso único, como o demonstram o sucesso de J Balvin e de Rosalía, entre outros. De há anos para cá, tanto as tabelas de vendas (ou de escutas nas plataformas online, melhor dizendo) como as ondas hertzianas das rádios de todo o mundo foram tomadas pela música eletrónica latina, na forma de variações de reggaeton.
Um relatório da indústria musical, publicado em julho deste ano, indica que a música latina (um chapéu de chuva largo para o que no fundo é reggaeton) é aquela cujas audições mais têm crescido nos serviços de streaming nos Estados Unidos – não é só lá: aqui enchem pavilhões e qualquer rádio comercial está repleta destes artistas, ouvidos não apenas pelos melómanos ou entusiastas das músicas do mundo, mas por todos, da divorciada quarentona ao adolescente de 12 anos – estas canções estão no supermercado, no ginásio (em todas as aulas de todos os ginásios), na hidroginástica; estão, efetivamente, em todo a parte, mesmo que (presumivelmente) nem todas as pessoas percam tempo a ler sobre a atividade e as opiniões políticas de Bad Bunny.
O relatório revelava que nos EUA uma boa parte do crescimento se deve a música mexicana, o que é natural, dada a proximidade entre os dois países – mas o artista latino mais ouvido ali citado era Bad Bunny. A conclusão do relatório era que se a música latina vinha a ser cada vez mais ouvida há cerca de uma década, neste momento pode-se especular que há uma adoção (ou aceitação) da cultura latina – ou seja, chegámos àquele ponto em que as pessoas não ouvem apenas as canções, mas imitam as roupas, o estilo, os passos de dança das estrelas e (lá está) discorrem sobre a situação política dos respetivos países.
[o vídeo de “BAILE INoLVIDABLE”:]
Bad Bunny detém um recorde impressionante: o seu disco de 2022, Un Verano Sin Ti, é o disco mais streamado de sempre do Spotify e foi o disco que mais tempo passou no topo da tabela da Billboard 200 nos últimos dez anos – Bad Bunny não é o futuro da pop, não está em ascensão: ele é o presente, é ele que neste momento dita as regras.
Para os fãs, ele é mais que uma estrela pop (ou do trap-reggaeton): tal como a minha amiga demostrou com a sua resposta detalhada, Bad Bunny granjeia respeito não só pela sua música, mas também pelo orgulho que assume pelas suas raízes, a sua cultura, pela sua desconfiança da visão tradicionalista de género (no vídeo de Yo Perreo Sola ele aparece em drag) e pela sua dedicação a causas sociais. Isto é ainda mais notório em países com comunidades latinas fortes, onde ele é, de facto, um ícone político e não apenas um músico.
Em 2019 ele desceu às ruas com o povo para exigir a demissão de Ricardo Rosselló; para acompanhar os protestos lançou a canção Afilando los Cuchillos (Sharpening the Knives). Anos depois editou El Apagón, cujo vídeo documentava os problemas de habitação, iluminação e corrupção em Porto Rico, cinco anos depois do Furacão Maria. As pessoas de ascendência latina veem-no como um deles, um homem do povo com o coração no sítio certo, preocupado com a vida dos seus.
Mas dificilmente isto teria impacto nas pessoas se não fossem as canções – canções como a provcadora Yo Perreo Sola, com o seu synth maroto por cima da batida lenta, a muito pop Mía (em que Drake canta em espanhol), canções como Vete, um reggaeton lento sobre o fim de uma relação amorosa, ou Un día, com J Balvin, Dua Lipa e Tainy, uma balada reggaeton etérea e com produção minimal.
[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]
DEbí TIRAR MáS FOToS, não fugindo muito ao que Bad Bunny fez no passado, é demonstrativo de como alcança o seu êxito: o disco vai da sua habitual fusão entre reggaeton e trap (logo a abriar, com NUEVAYoL), a quase eletrónica pura (em EL CLUB, que apropriadamente tem partes que roçam o techno de clube de dança), passando por tangentes à música tradicional, tanto em TURiSTA como em BAILE INoLVIDABLE.
Pelo meio, tanto canta sobre condições sociais como sobre problemas amorosos, sempre com a mesma intensidade e entrega – cada beat está imaculadamente trabalhado, imaculadamente colocado, feito para provocar um ligeiro dano na roupa, para motivar calores, por vezes óbvios, noutras ocasiões subtis, até serem indesmentíveis; para levar as pessoas a abandonarem as suas inibições, até chegarem ao ponto em que as questionam, sem respostas para a sua origem.
▲ Bad Bunny ao vivo em San Juan, capital de Porto Rico, em junho de 2024
Getty Images
É o disco lançado no auge da popularidade de Bad Bunny, quando todos (e por “todos” entenda-se a indústria, os fãs, os curiosos, os que o odeiam e os que ainda não o ouviram mas nunca vão poder escapar-lhe, mais tarde ou mais cedo) esperavam para saber o que Benito Ocasio faria desta vez. Chega-se à frente no início do ano, para acumular balanço e assumir-se como banda sonora inevitável de 2025, marcando agendas, festivais, faturando milhões em digressão e alimentando a etapa que lhe falta: os concertos para conquistar a Europa em definitivo.
E sabendo disso, neste DEbí TIRAR MáS FOToS, junta dois mundos: aquele que é feito de uma lista de produtores e colaboradores extensa e intensa (como quem se mostra democrático e curioso e, ao mesmo tempo, se assume gabarolas em formato “todos me querem”); e o que representa o diplomático mas sentido “artista de raízes”, que admite mais plena e jibaro, tradições porto-riquenhas, expressões musicais terrenas, a adiantarem-se à mudança que 2025 pode lançar no mundo, defendendo-se enquanto ataca.
[o vídeo de “EL CLúB”:]
Os cidadãos de Porto Rico têm também a nacionalidade americana desde 1917, naquele é uma espécie de extensão territorial sem serem “de facto” um estado da União. É uma realidade que não é entendida de forma unânime pelos porto-riquenhos — e ouvir Bad Bunny misturar mais história caribenha na sua música enquanto canta contra a gentrificação é coisa para concentrar atenções. Ao mesmo tempo, o sucesso de Bad Bunny é, em simultâneo, banda sonora e produto dessa mesma gentrificação, o que lhe dá lugar de protagonista numa espécie de “catch 22” sem saída óbvia. Ou melhor, a saída é um álbum como DEbí TIRAR MáS FOToS: Bad Bunny manipula o jogo a seu favor, com toda a salsa possível, os músicos do seu país, os instrumentos reais, a imagem de um verdadeiro patrão da pop que já não corre atrás — agora é ele que define a lei da partida.
A música latina já não é uma curiosidade escutada por meia dúzia de entusiastas de músicas do mundo, nem está confinada ao especialistas em reggaeton – é hoje uma das forças mais poderosas da indústria musical e Bad Bunny, com o seu bling de rapper americano e discurso de proletário porto-riquenho, é o seu profeta.