Mês após mês fazemos um esforço: trazer as melhores histórias sobre os melhores discos daquilo a que podemos chamar pop (mas também, chamamos pop a tudo). O mundo, no entanto, não é justo – e todos os meses há excelentes discos sobre os quais nunca falamos. E é para colmatar essa injustiça que todos os meses descrevemos os melhores discos de que não falámos no mês que passou ou está a acabar.

E sabem a parte boa? São todos ótimos.

“WOR$T GIRL IN AMERICA”

Slayyyter

Se apreciam pacatez e boa educação, nem vale a pena perderem um segundo com WOR$T GIRL IN AMERICA. Slayyyter (é uma rapariga, para quem não sabe) sempre construiu a sua carreira à margem do bom gosto, sempre foi moça dada aos excessos e à provocação e desde os primeiros lançamentos, foi notória a sua capacidade de levar a espécie de hiper-pop que cria a cúmulos de sexualidade e caos. A sua imagem era exagerada e controversa, mas acima de tudo deliberadamente exagerada e controversa, sem grande espaço para subtilezas.

WOR$T GIRL IN AMERICA, como o próprio nome indica, reforça ainda mais essa imagem: o som é ainda mais agressivo e cru do que o habitual, repleto de elementos que tanto vão pescar ao rock mais sujo como à eletrónica e à cultura clubbing mais debochada. Se os discos anteriores eram pop, pop, pop, este é trash, trash, trash.

A moral desta história amoral é que se de um artista esperamos o melhor, no caso de Slayyyter há razões para esperar o pior. Claro que nos podemos perguntar se a estética “quanto pior melhor” que domina com WOR$T GIRL IN AMERICA tem espaço para reinvenção, mas por agora vamos só fruir esta javardice gloriosa.

“Little Wide Open”

Kevin Morby

Será que Kevin Morby alguma vez fez uma má canção? Sou moço para arriscar que não. Morby nunca explodiu da noite para o dia, nunca acordou para de repente ser o centro das conversas – simplesmente foi criando, paulatinamente e disco após disco, uma obra sólida, que herda da folk e do rock do passado e os transporta para os nossos dias, e com isso alargou a sua base de fãs, que inicialmente era de um artista de culto.

Curiosamente, em Little Wide Open, Morby colabora com Aaron Dessner, o guitarrista dos National que nos últimos tempos se tem destacado pelo seu trabalho de produção, em particular o que realizou com Taylor Swift. O som é mais polido que em discos anteriores, mas isso não o torna insosso – um exemplo semelhante seria o da sua namorada, Waxahatchee, que se foi tornando mais e mais pungente à medida que os discos se aproximaram de um som mais clássico e refinado.

Há espaço para a reflexão, que se torna pungente – e ao mesmo tempo catchy – em Javelin, quando ele se pergunta Am I a has-been? / Am I a husband?. Isto é uma das forças de Morby: a capacidade de inquirir sem perda de valor melódico. Grande parte do álbum é inspirada pelas paisagens e pela cultura do centro dos Estados Unidos, região que continua a desempenhar um papel importante na vida de Morby. Os temas pessoais misturam-se com referências ao quotidiano americano, criando narrativas que parecem simultaneamente íntimas e universais.

Em Little Wide Open, Kevin Morby volta a demonstrar a sua maturidade criativa. O álbum consegue equilibrar simplicidade e profundidade, futuro e finitude em canções emocionalmente ressonantes.

“Inferno”

Boards of Canada

Nunca trabalhei na indústria musical, mas estou certo que nunca alguém que teve a seu cargo a gestão da carreira de um artista achou boa ideia que este demorasse 13 anos a fazer um disco. Mas são exatamente 13 os anos que distam entre Inferno e Tomorrow’s Harvest (2013), o quarto álbum dos Boards of Canada. Valha a verdade, eles sempre foram lentos: Campfire Headphase, o terceiro disco, era de 2005.

O som da dupla escocesa ficou definido logo nos dois discos iniciais, Music Has the Right to Children (1998) e Geogaddi (2002): uma mistura de sintetizadores e sons analógicos vintage, que criava uma eletrónica psicadélica, simultaneamente sonhadora e nostálgica (na minha cabeça imagino-os sempre como familiares dos Broadcast, mas menos próximos do registo canção). A grande qualidade dos Boards of Canada é criarem paisagens sonoras inquietantes: por alguma razão, acreditamos que há um significado naquela sequência de notas, nas toalhas de sintetizadores, e contemplamos cada tema com o fascínio de quem espera uma revelação. E esse dom permanece intacto.

“Train on the Island”

Aldous Harding

É curioso como, partindo de um género explorado quase até à exaustão, Aldous Harding consegue sempre soar única, ou mesmo confundir-nos, como se uma canção fosse um enigma em que a cada melodia ou arranjo nos perguntamos “Porque é que isto é assim?”. Além disso, ela também não é propriamente clara em termos líricos – a sua carreira é marcada pela mencionada transformação constante mas também pela ambiguidade da escrita.

Se há quem componha como quem expõe uma emoção exata, Harding parece lançar peças de um puzzle invariavelmente incompleto. No meio disto há aquela voz magnífica e sempre um one liner que nos inquieta. Train on the Island não foge a essa abordagem, antes a aprofunda, como se Harding quisesse ser mais Harding que nunca. Que instrumento é aquele em Coats, que fecha o disco? Será um theremin – só ela saberá dizer, nós só registamos a surpresa. Train on the Island, que por vezes nos lembra Joni Mitchell, é um conjunto de canções delicadas, evocativas e profundamente intrigantes.

“Crayola Circles”

Fatboi Sharif & Child Actor

O amigo não aprecia coisas esquisitas? Não lhe dá para misturas inusitadas? Para si o hip-hop tem de ser uma batida 4 por 4 e uma voz e acabou? Então, vá, mais vale fechar a página porque nada aqui é propriamente normal – nem seria de esperar que fosse, tendo em conta que Fatboi Sharif tem construído uma das discografias mais estranhas do hip-hop alternativo contemporâneo. Ingrediente essencial desse modus operandi é o desconforto – imagens surreais, humor sombrio e reflexões sobre alienação, saúde mental e caos social. Em Crayola Circles, o rapper de Nova Jérsia mantém essa identidade, apenas que ligeiramente menos agressiva que trabalhos anteriores. Se me é permitido: tudo aqui é esquisito mas é estranhamente apelativo.

Em parte isso deve-se à colaboração com o produtor Child Actor, que mistura elementos de jazz e loops minimalistas para criar atmosferas nebulosas. O resultado é a mencionada mistura entre melodia e estranheza – as canções oscilam entre momentos de aparente serenidade e passagens onde tudo parece prestes a desmoronar-se.

Curto, sem participações especiais, Crayola Circles demonstra que a estranheza pode ser tão expressiva quanto a narrativa tradicional. Discão.