Os grandes festivais de cinema costumam incluir acrescentos às suas selecções, uma prática comum em Cannes, menos frequente em Berlim, e pouco habitual em Veneza. Mas o que aconteceu este ano, se não foi inédito, esteve lá perto, com a Mostra a anunciar ao mundo, faz hoje 8 dias, que um novo título se juntaria aos 20 filmes apresentados a concurso. NAZA foi realizado por Yuval Abraham e Rachel Szor, a “metade israelita” do oscarizado documentário No Other Land, sobre a crescente ocupação israelita da Cisjordânia (este último, recorde-se, assinado por quatro cineastas: Basel Adra e Hamdan Ballal foram a parte palestiniana).
Vai ser preciso esperar até dia 10 para ver NAZA. O que se sabe desta produção britânica (que envolveu o jornal The Guardian) é que, antes de mais, resulta de um trabalho de investigação e que o filme foi rodado à noite, nos telhados de Telavive, revelando “com detalhe” (diz a nota de intenções) a estratégia dos ataques israelitas à população de Gaza. O termo “Naza” é um acrónimo militar hebraico utilizado pelos serviços de informação e forças armadas israelitas para estimar o número de vítimas civis (os ditos “danos colaterais”) que se prevê que resultem de um ataque aéreo.
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Mais não se acrescenta para já, a não ser que Veneza inscreve outra vez uma intenção política na sua selecção um ano depois de A Voz de Hind Rajab, distinguido, de resto, com o Grande Prémio do Júri e exibido posteriormente em todo o mundo. Ainda assim, o movimento de artistas Venice4Palestine, do qual fazem parte a escritora Annie Ernaux, o músico Roger Waters e cineastas como Matteo Garrone, exigem que a Bienal de Veneza, de uma vez por todas, tome “medidas concretas em apoio da Palestina”.
O assunto estendeu-se à acção do júri da edição deste ano, depois do norte-americano Alexander Payne, na edição passada, ter deixado meio festival de boca aberta por admitir a verdade: a de que não se sentia “preparado” para responder a questões relacionadas com os massacres em Gaza. Aliás, a conferência de imprensa do júri deste ano esteve para ser cancelada por “dificuldades de calendarização”, disse o Festival sem grande convicção. Voltou atrás. Afinal, a conferência vai acontecer esta quarta-feira.
▲ “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor (a “metade israelita” do oscarizado documentário “No Other Land”)
NAZA não será o único foco de potencial conflito. É que Veneza (tal como Cannes, em Maio, com Minotaur, de Andrei Zvyagintsev) tem na competição deste ano um filme de um cineasta russo, rodado em Moscovo, embora a co-produção europeia não envolva financiamento do país de Putin. Dau é o novo episódio do desmesurado e performativo projecto homónimo que Ilya Khrzhanovski tem vindo a desenvolver há vários anos sobre a “imitação da vida” (recriada em estúdio) na URSS. O novo trabalho foca-se na vida dos físicos que construiram a bomba atómica soviética. Não é assunto que o Ocidente goste de ver tratado neste momento — mas o festival manteve-se firme na escolha.
Em Julho de 2026, a Comissão Europeia cancelou um financiamento de 2 milhões de euros, originalmente destinado a apoiar, ao longo de três anos, projectos da área de cinema da Bienal de Veneza, em resposta à decisão do presidente da Biennale, Pietrangelo Buttafuoco, que aprovou a reabertura do pavilhão nacional da Rússia nas exposições deste ano.
Como se não bastasse, também a polémica de género bateu à porta do festival desde que Alberto Barbera anunciou que, no lote de 20 filmes (agora 21, com NAZA) selecionados para a disputa pelo Leão de Ouro, apenas um era realizado por uma mulher. Woman Unknown, da artista dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, foi a feliz — e única — contemplada. Felizmente, não faltam realizadoras nas programações paralelas (na secção Orizzonti, por exemplo), facto que em nada disfarça aquele desequilíbrio gritante.
Entretanto, sai homenagem para Tinto Brass
Veneza cultiva há anos uma cerimónia de pré-abertura na véspera do arranque, nas noites de segunda-feira. É uma soirée festiva, um amuse bouche para quem chega cedo ao Lido. Por vezes, a preapertura — como eles lhe chamam — é bem mais valiosa que isso e até traz obras-primas, como aconteceu no ano passado com o restauro e reconstrução (incluindo fotos de rodagem e novos intertítulos baseados no argumento original) do inacabado e maldito Queen Kelly, o derradeiro filme de Erich von Stroheim. Coppola estava na audiência dessa sessão-concerto. Salvo erro, este Queen Kelly recauchutado está ainda por ser mostrado em Portugal, talvez a aguardar uma vaga na programação da Cinemateca.
O eleito deste ano — mais modesto, convenhamos, para a história do cinema — foi Col cuore in gola, um giallo pop, também recém-restaurado, e realizado pelo maestro Giovanni “Tinto” Brass em 1967, na capital inglesa, em plena Swinging London. As devidas cenas eróticas que eram hábito do género e nada têm de exagero — Brass, de resto, foi sempre mais herético que erótico — foram suficientemente “inspiradas” para a censura portuguesa da época lhe ter dado nega — se é que chegou a vê-lo.
Col cuore in gola é um dos primeiros filmes de Brass e dá bem conta da versatilidade descomplexada de Jean-Louis Trintignant, que por esta altura a filmar com Robbe-Grillet, Chabrol e, pouco depois, com Costa-Gavras e Rohmer (no incontornável A Minha Noite em Casa de Maud). O filme é muito inspirado pela Pop Art de Roy Lichtenstein e pelo então êxito comercial recente de Blow-Up de Antonioni — que Tinto cita directamente no seu filme, de resto, e com devoção sincera. Entre o preto e branco e a cor, dos split screens aos zooms vertiginosos, prepara a filmografia iconoclasta que estava para vir.
▲ Jean-Louis Trintignant e Ewa Aulin (à esquerda) em “Col cuore in gola”, de Tinto Brass (à direita)
Na história, baseada num livro de Sergio Donati, Trintignant começa a proteger uma jovem e rica herdeira de boas famílias, acusada de ter assassinado um homem, e enrola-se com ela, claro está, à medida que rasteira uns mafiosos com tronchas muito pouco recomendáveis. O papel é da sueca Ewa Aulin, uma “brasa” nos seus tempos áureos, como então se dizia. Não só fez o filme (e as cenas íntimas) com apenas 17 anos como interpreta uma personagem que, às tantas, diz sem pudor ter a mesma idade. Havia de ser hoje.
Brass, que embora nascido em Milão é veneziano de família e de crescimento (“Veneza é a minha mãe, a minha mulher, a minha amante”, escreveu ele em nota lida na Sala Darsena), ficou na sua casa de Roma, por problemas de saúde, e não pôde estar presente no Lido, onde Col cuore in gola se estreou há quase seis décadas. Bom de cabeça mas mal das pernas, fez-se representar, aos 93 anos, pela mulher, Caterina Varzi, e por Ewa Aulin. O SNGCI, sindicato de jornalistas cinematográficos italianos, atribuiu-lhe o Prémio Pietro Bianchi. Foi o primeiro deste Veneza 2026.
O autor escreve segundo a antiga ortografia