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Danny Boyle levou “Ink” a Veneza: quando o jornalismo cedeu ao “jornalixo”

Competição aberta com o encontro de Rupert Murdoch e Larry Lamb e a transformação do The Sun em tablóide. Londres, Fleet Street, Outubro de 1969. Mas Danny Boyle não agarra por inteiro esta história.

Jack O'Connoll em “Ink”, de Danny Boyle: até onde estás disponível a descer para vender mais?
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▲Jack O'Connoll em “Ink”, de Danny Boyle: até onde estás disponível a descer para vender mais?

Nick Wall

▲Jack O'Connoll em “Ink”, de Danny Boyle: até onde estás disponível a descer para vender mais?

Nick Wall

Não faltarão argumentos a quem defende que Ink é um retrato da ambição desmedida do ser humano, disposto a tudo para chegar ao êxito. A partir da peça homónima de James Graham que o filme adapta, Boyle confronta as suas personagens com uma pergunta: até onde estás disponível a descer para vender mais? Assim começou a competição de Veneza.

Estamos em Outubro de 1969, com as vendas do The Sun na mó de baixo em Fleet Street. Aquele que reina é o Daily Mirror. O magnata australiano Rupert Murdoch (interpretado por Guy Pearce) pega então naquele jornal e contrata um director com pêlo na venta e sede de conquista, Larry Lamb (Jack O’Connoll). A história é mais ou menos conhecida até à “infâmia” (assim lhe chamaram então) da célebre página 3 do The Sun, a da pin-up despida, em topless, que Larry introduz em Novembro do ano seguinte, já o Homem tinha pisado a Lua, contra a própria vontade do dono do jornal. Cai o Carmo e a Trindade em Londres, o próprio Murdoch diz-lhe que foi longe de mais, mas Lamb salva a sua pele, por mais uns tempos: o The Sun destrona finalmente o rival. E chega ao topo de vendas.

Boyle “agita” o filme como se estivesse em Edimburgo, trinta anos antes, com o “gang” de Trainspotting de 1996. No fundo, tenta espectacularizar o seu cinema a partir de triunfos passados, cortes abruptos, ritmos febris, e a opção é mais do que discutível. Ink esperneia e põe o elenco a mostrar que tem garra, mas não convence nem na proposta dramática, nem na reconstituição histórica. Há sempre uma ilustração a tender para o espalhafatoso, que acaba por tomar conta dos planos e compromete a potência das cenas. Pior que isso: o filme não encontra um ponto de vista.

Ink era um projecto de filme com potencial imenso e Danny Boyle soube preparar a lenha, os fósforos e as acendalhas. Mas este fogo não queima, como queima ainda O Grande Carnaval de Billy Wilder, um dos maiores filmes sobre jornalismo e jornalistas de todos os tempos. Falta-lhe rasgo, acidez, cinismo. Ou então, falta-lhe o rigor e a frieza de um Alan J. Pakula e de uma tradição liberal americana que encontrou o tom certo para tratar temas como este no último quarto do século XX.

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▲ Guy Pearce (Rupert Murdoch) e Jack O'Connoll (Larry Lamb) em “Ink”. E Danny Boyle, esta quarta-feira, no photo call de Veneza

Lá para a frente, Ink tenta legitimar-se, fazer uma ponte com o presente. Mas é gancho fácil. O filme atira-nos isto à cara: não se esqueçam que é graças a Lamb e a Rupert que as redes sociais triunfaram agora e inundam as nossas vidas. Nem tanto pela menina nua da página 3, que já não escandaliza nada nem ninguém (o “pudor” de empresas como a Google e a Meta até adoram desfocar a nudez). Falamos de coisas mais sérias: este estado de controlo, escrutínio e devassa da vida privada a que estamos sujeitos. Contas feitas, temos em Ink um filme fascinado pelas criaturas que retratou. Afinal, o ponto de vista é este. Não tem especial valor.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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