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Emmys, ou a crónica da noite de glória de Jean e Matthew: para onde vais, Netflix?

À vitória de "Widow's Bay", Matthew Rhys juntou uma vitória dupla nunca antes vista. Jean Smart ganhou tudo com todas as temporadas de Hacks. Quanto à Netflix: será que o gigante adormeceu?

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▲Se o esmorecer da Netflix ou a glória de atores queridos marcam esta cerimónia dos Emmy, uma outra caraterística da gala da noite passada será mais subtil, mas mais marcante como um sinal dos tempos: a apresentadora — Mariska Hargitay — não foi uma comediante

Variety via Getty Images

▲Se o esmorecer da Netflix ou a glória de atores queridos marcam esta cerimónia dos Emmy, uma outra caraterística da gala da noite passada será mais subtil, mas mais marcante como um sinal dos tempos: a apresentadora — Mariska Hargitay — não foi uma comediante

Variety via Getty Images

Existem atores que parecem estar sempre a fazer o mesmo papel. Pior: existem atores que constroem uma carreira sempre a fazerem deles próprios, muitas vezes até com bastante sucesso (Al Pacino, se estiveres a ler, um grande beijinho). E depois, existem atores que, numa só noite, ganham um prémio pelo papel de um tonhó presidente de câmara numa ilha bizarra e outro por um gélido herdeiro suspeito de matar a mulher. E que, quando sobem a palco para agradecer, revelam um sotaque, um tom de falar e um bouquet de maneirismos em tudo diferentes das suas versões na ficção. Matthew Rhys fez história nos Emmy deste ano — e bem a mereceu.

Rhys tornou-se no primeiro intérprete de sempre a ganhar dois Emmy de representação numa mesma cerimónia — Melhor Ator em Série de Comédia por Widow’s Bay e Melhor Ator em Minissérie, Série de Antologia ou Telefilme por The Beast in Me. Dois papéis muito diferentes, celebrados num sotaque cerrado que continua a surpreender — ao ponto de a pessoa real parecer mais uma personagem do que as suas atuações. É que apesar de fazer sobretudo papéis de americano, Rhys é orgulhosamente galês, algo fácil de esquecer no visionamento do seu trabalho. O seu tom de voz real é doce, autodepreciativo, particularmente simpático, tão diferente de todas as vezes que o vemos a representar. Não esquecendo as raízes, dedicou um dos prémios ao País de Gales, com direito a palavras em galês: “we are a small but mighty nation, diolch yn fawr” (“somos uma nação pequena mas forte, muito obrigado”). Depois de Sir Anthony Hopkins, haverá outro galês pronto a conquistar o mundo? Bom, se Gales sempre avançar para a independência, poderia ter presidentes piores do que Rhys.

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▲ Rhys tornou-se no primeiro intérprete de sempre a ganhar dois Emmy de representação numa mesma cerimónia — Melhor Ator em Série de Comédia por "Widow’s Bay" e Melhor Ator em Minissérie, por "The Beast in Me"

AFP via Getty Images

Coube-lhe também a ele servir (quase) o único prémio de consolação numa noite dura para a Netflix. Se tempos houve em que o pioneiro do streaming dava cartas e parecia estar a ditar o futuro do meio televisivo, chega a 2026 com pouco mais do que galardões de consolação. O outrora colosso Stranger Things chegou à última temporada tão desinteressante que só ganhou pelos efeitos especiais; o querido da crítica Beef chegou à segunda temporada só a vencer categorias de som e de guarda-roupa. A Netflix pode até estrangular a concorrência na dimensão do seu catálogo, que cospe conteúdos a uma velocidade tal que parece um daqueles funcionários de caixa do LIDL que não nos dão tempo para guardar as compras, mas parece perder o barco da chamada “televisão de prestígio”. Excepções: Rhys pela minissérie Beast In Me (um thriller psicológico carregado às costas pelo galês e por Claire Danes que ganhou em banda sonora, mas perdeu na categoria charneira para DTF St. Louis da HBO); Allison Janney como Melhor Atriz Secundária de Drama por A Diplomata; e Sally Field pelo filme Remarkably Bright Creatures.

Também Jean Smart fez história ao tornar-se a primeira pessoa a vencer uma estatueta por todas as temporadas de uma série televisiva — neste caso, as cinco temporadas de Hacks a equivalerem a outros tantos prémios. O recorde não é surpreendente, sobretudo se tivermos em conta que esta era a temporada de despedida e ninguém ia negar a Smart uma “last dance”, como se diz no desporto. Porém, além de fazer melhor figura de Cristiano Ronaldo no Mundial 2026, também lhe corre mais de feição o drible à idade. Se CR7 estava muitas vezes com os bofes de fora para jogar com a Colômbia, Smart mostra como se pode estar em pico de forma aos 75 anos, num meio tantas vezes cruel para as mulheres em crise de colágeno na pele. Uma nota também para o prémio de atriz principal em drama, que finalmente vai habitar numa prateleira do IKEA em casa de Rhea Seehorn. Chegou pela primeira temporada de Pluribus, mas os fãs de Better Call Saul consideram uma espécie de prémio a posteriori de todas as vezes que foi roubada, senhor árbitro.

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▲ Também Jean Smart fez história ao tornar-se a primeira pessoa a vencer uma estatueta por todas as temporadas de uma série televisiva — neste caso, as cinco temporadas de "Hacks" a equivalerem a outros tantos prémios

Variety via Getty Images

Mas se o esmorecer da Netflix ou a glória de atores queridos marcam esta cerimónia dos Emmy, uma outra caraterística da gala da noite passada será mais subtil, mas mais marcante como um sinal dos tempos: o apresentador não foi um comediante. Nos últimos anos (décadas?), todas as cerimónias de prémios do género (Emmy, Globos, Óscares, até os Grammy) são tendencialmente apresentadas por alguém do campo do humor. De Billy Crystal a Ricky Gervais, de Tina Fey a Trevor Noah, todos eles tiveram uma difícil missão — a de serem o fiambre que embrulha o comprimido de uma cerimónia longa e geralmente chata. Mas como o clima nos Estados Unidos do segundo mandato de Trump é tão tenso que é fácil meter o pé em ramo verde, a escolha deste ano recaiu na atriz Mariska Hargitay, protagonista do nada cómico (bom, às vezes é, mas involuntariamente) Lei e Ordem: SVU.

Emmys 2026: a noite que deu um recorde a “Widow’s Bay”, com 14 prémios, e que inscreveu Matthew Rhys na história

O site Vulture descreveu a prestação de Mariska como tendo “a autoconfiança inabalável de uma madrinha num casamento onde, na verdade, não conhecia muitos dos amigos da noiva, e estava ainda limitada por um material monótono e demasiado óbvio”. Justiça seja feita, a atriz fez o que pôde. Transpareceu simpatia e à-vontade, sem nunca deixar de parecer que estava ali a safar a cena porque mais ninguém se quis meter naquela situação. Não se pode dizer que tenha estado mal (é uma figura bastante consensual no meio televisivo), mas parecia mais estar a desempenhar o papel de uma apresentadora engraçadinha do que a ser, bom, uma apresentadora engraçadinha. O texto cumpria sem deslumbrar, com alguns números musicais forçados e um sketch demasiado longo se só serviu mesmo para mostrar Taylor Swift e o seu gato. Toda a gente parecia estar demasiado autoconsciente de que uma piada mais ousada lhes daria o mesmo destino que um dos vencedores da noite: Stephen Colbert, que venceu Melhor Programa de Variedades por um talk show alegadamente cancelado por pressão de Donald Trump (um claro prémio de consolação, que acabou com um longo reinado de John Oliver nessa mesma categoria).

Mariska Hargitay saiu ainda mais fragilizada pela entrada em cena do apresentador da categoria para ator em drama. A chegada de John Mulany foi como quando o professor substituto é tão mais fixe que a stôra habitual que temos vontade que fique para sempre. Fez piadas, teve a sala na mão, soube gerir a tensão e o riso. Talvez apresente em 2027. Ou talvez não esteja para ser alvo de posts em Caps Lock de Trump.

[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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