Não tenho a certeza absoluta disto, mas acho que a primeira vez que vi – ou, no caso, li – alguém a dizer que Jorge Palma era um gajo porreiro foi no libreto de , um daqueles discos que nos vêm de imediato à cabeça quando alguém nos pergunta qual o nosso álbum de música portuguesa preferido. Não sei se é o melhor disco – mas é, sem dúvida, o mais comovente.

Passaram-se depois anos a ouvir que o Jorge era um gajo porreiro e dava por mim a perguntar porque é que tanto músico se lembraria de descrever assim um artista tão qualificado como Palma. Julgo que foi Zé Pedro que tirou as minhas dúvidas, dizendo simplesmente “Porque é”. E a minha memória vogou para os milhentos concertos em que o vi e as inúmeras ocasiões em que dei por ele nos concertos dos outros.

Memórias avulsas, absurdas, como há uns 30 anos, em Aveiro, quando foi numa bicicleta de criança pelo palco adentro, enquanto os Ena Pá 2000 tocavam. Ou há nem sei quantos anos no Hard Club no Porto, ao piano, num concerto que se tornou um conjunto de discos pedidos escolhidos pela audiência.

Um gajo porreiro.

Não devia ser permitido escrever que morreu um gajo porreiro – há algo de ontologicamente errado em morrer um gajo porreiro, em particular quando o gajo porreiro tinha um talento sobrenatural para cantar a vida da gente. Esse é um pormenor pouco falado: o talento de Palma não estava só no piano, não estava só nas melodias, mas na escolha das palavras, capazes de dizer de forma clara o que a gente sentia de forma confusa, dolorosa – ele punha cá para fora, sob a forma de beleza, o que nós nem nos atrevíamos a olhar.

Jorge Palma morreu aos 76 anos: do conservatório ao rock, mais de 50 anos a fazer parte da história da música portuguesa

Quer dizer, ao fim e ao cabo ele literalmente escreveu “A gente vai continuar”. Porque é esse o fado dos humanos: a gente sofre, a gente perde ao amor, a gente perde um amigo, e no dia seguinte a gente vai continuar.

As suas canções estavam cheias de fins: gente que se ia embora, quartos vazios, amores perdidos, copos bebidos demasiado tarde, manhãs em que era preciso começar outra vez. As pessoas iam embora. As noites acabavam. Os sonhos corriam mal. O corpo traía-nos. E depois havia sempre uma estrada. A gente iria continuar. Custa pensar que não podemos usar agora a frase com o seu criador.

Jorge Palma morreu. Nos últimos anos estivera menos presente mediaticamente, mas foi fazendo o que sempre fizera: tocar, escrever, regressar ao piano. Em 2023 editou VIDA; nos últimos tempos subiu ao palco com os filhos Vicente e Francisco – lembro-me de isto acontecer com o mais velho, há muitos anos, e da alegria de ambos. A três deve ser ainda melhor. Em abril deste ano recebeu o Prémio Carreira dos PLAY, embora eu desconfie que o grande prémio da vida dele era o profundo amor que tantos tinham pelas suas canções e por ele (um gajo porreiro).

Curiosamente, nunca foi uma instituição, naquele sentido de músico respeitável que os políticos citam. Uma lenda? Sim, claro, épica. Mas não uma instituição. Nada nele foi domável. Nada nele era solene. O êxito manteve-o trigo limpo farinha amparo. Podiam condecorá-lo, premiá-lo, celebrar aniversários da obra, organizar antologias, chamar-lhe mestre. Depois sentava-se ao piano e reaparecia aquele homem desalinhado, com a voz imperfeita, a cambalear de palavra em palavra, o rosto de quem não dormia há dias.

Era demasiado bom para precisar de parecer respeitável.

Jorge Palma nasceu em Lisboa em 1950 e começou a estudar música aos seis anos. Aos dez entrou no Conservatório. Em 1963 ficou em segundo lugar num concurso internacional de piano em Palma de Maiorca. Poderia ter existido outro Jorge Palma: pianista clássico, disciplinado, intérprete de repertório, homem de conservatório, mas a adolescência estragou o plano.

É que lá lhe deu ser adolescente na altura em que chegaram os Beatles e os Rolling Stones e Dylan e Cohen. E o piano clássico que aprendia deu lugar a bandas e depois as bandas deram lugar a uma simples guitarra, quando para fugir à guerra foi por aí, a tocar na rua, Europa fora, versões dos tais Dylan, Cohen, Led Zeppelin.

Voltou com Abril e em 1975 apareceu Com uma Viagem na Palma da Mão. Depois Té Já, Qualquer Coisa Pá Música, Acto Contínuo, Asas e Penas. São os anos em que se vai construindo o compositor que Portugal aprenderia a reconhecer: musicalmente culto, mas desconfiado do virtuosismo pelo virtuosismo; cosmopolita, mas profundamente lisboeta; herdeiro da tradição do cantautor, mas apaixonado pelo rock; capaz de escrever uma progressão sofisticada e de a fazer parecer tão natural que ninguém reparava nela.

Haverá quem explique todas as qualidades técnicas de Palma; do ponto de vista de quem ouve interessa aquilo que ele fez com o que os dedos lhe permitiram: escrever sobre a condição humana, do ponto de vista de quem falha. Nas suas letras não havia heróis – estávamos todos nas trincheiras, sujos, a comer latas de atum, mas caramba, depois de uma noite sem dormir esse atum sabia a salmão.

Escreveu sobre o homem que promete e não cumpre, sobre quem chega tarde, sobre quem ama mal, quem bebe mais um copo porque ainda não quer ir para casa. Talvez por isso, porque tudo isto ainda é de agora, as canções tenham envelhecido tão pouco e chegado a tanta gente diferente.

Os anos 80 trouxeram O Lado Errado da Noite, de 1985, de onde constava Deixa-me Rir, Quarto Minguante, Bairro do Amor, o incrível Bairro do Amor de Frágil, Bairro do Amor e Estrela do Mar. O que é engraçado é que nesta altura ele decide voltar para a escola e acabar o curso superior de piano.

E em 1991 apareceu , uma espécie de best-off só com ele o piano. Esse que ainda é o disco da vida de muita gente. Sem banda para se proteger, sem produção para esconder a idade das canções, só dedos e voz. E de repente aquelas canções pareciam maiores do que nunca e pareciam pertencer a mais gente que nunca.

É talvez aí que se percebe definitivamente a dimensão de Jorge Palma como compositor. Retira-se o contexto, retira-se a época, retiram-se os arranjos e fica uma arquitetura melódica extraordinariamente sólida. A formação clássica que Palma tantas vezes escondia atrás da informalidade reaparece.

Nos anos seguintes podia desaparecer durante algum tempo e regressar sem verdadeiramente ter estado ausente. Houve Palma’s Gang, com Zé Pedro e Kalu dos Xutos & Pontapés e Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau. Houve Rio Grande, música para teatro, composições para outros, concertos, colaborações.

Houve o álcool, que fez parte da sua história, tal como a boémia. Houve períodos difíceis, de excessos e desorganização. Mas reduzir Palma à personagem do génio embriagado seria injusto. Porque o que impressiona na sua obra não é o álcool. É o que sobreviveu ao álcool e aos excessos – a vida contada do lado errado da rua.

Vieram prémios (o José Afonso, em 2001), vendas (Voo Nocturno, de 2007), Encosta-te a Mim, que não era um jovem a escrever sobre a vertigem do amor, antes um homem envelhecido a pedir proximidade. E veio essa coisa de tocar com Vicente e Francisco, os filhos, e possivelmente as grandes obras de Jorge.

É certo que este texto vai acabar com a ideia de continuar; mas também cuido que, antes de o fazermos, não nos fica mal uma pausa para deixar sair uma lágrima pelo tipo que encontrou as palavras para explicar o que sentíamos, muito antes de nós sermos capazes de o fazer, o tipo sem o qual ainda hoje não saberíamos o que sentíamos.