1229,7kWh poupados 1229,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Glockenwise: se tudo falhar, teremos sempre os miúdos de Barcelos

“Vale Tudo para Chegar a Algum Lado” é o sexto álbum de estúdio dos Glockenwise. Ao vivo, será apresentado a 10 de outubro, no Theatro Circo, em Braga, e a 16 de dezembro, na Culturgest, em Lisboa.

"Vale Tudo para Chegar a Algum Lado" é, nesse sentido, um álbum de base impressionista, feito da sonoridade inconcreta do rock psicadélico, do pós-punk e do shoegaze, à qual é aplicada um glacé de indie rock em momentos muito precisos
i

"Vale Tudo para Chegar a Algum Lado" é, nesse sentido, um álbum de base impressionista, feito da sonoridade inconcreta do rock psicadélico, do pós-punk e do shoegaze, à qual é aplicada um glacé de indie rock em momentos muito precisos

Créditos Renato Cruz Santos

"Vale Tudo para Chegar a Algum Lado" é, nesse sentido, um álbum de base impressionista, feito da sonoridade inconcreta do rock psicadélico, do pós-punk e do shoegaze, à qual é aplicada um glacé de indie rock em momentos muito precisos

Créditos Renato Cruz Santos

Há algo curioso que acontece com os Glockenwise semelhante à teimosia fofa dos pais em chamarem aos filhos de “miúdos”, mesmo quando os miúdos já são adultos com conta no portal das finanças. Por muitos anos que passem — e já são 20 de carreira — continuamos a olhar para eles como os miúdos de Barcelos.

Convém explicar que não existe nada de condescendente nisto. Estamos perante um fenómeno que se retroalimenta: se, por um lado, temos uma certa nostalgia com lágrima embevecida no canto do olho, por outro os Glockenwise mantêm-se fiéis a si mesmos desde o momento em que começaram a brincar às possibilidades na garagem da avó de Cristiano Veloso (ex-baterista da banda). Sempre que se juntam para criar novas canções, é como se fosse a primeira vez.

O salto em queda livre e o esticar da corda são, para eles, mais fortes do que a tentação de repetir uma fórmula de sucesso segura. Isso explica o porquê do seu som ser tão mutante e, ainda assim, tão marcado, ao ponto de entrarmos em Vale Tudo para Chegar a Algum Lado com a certeza absoluta de que este é mais um álbum dos Glockenwise. Ou melhor, que este é mais do que só mais um álbum dos Glockenwise.

Um comboio em movimento perpétuo

Podemos dividir a história dos Glockenwise em dois capítulos: no primeiro temos Building Waves (2011), Leaches (2013) e Heat (2015), todos eles com uma matriz indie rock dominante, cantados em inglês e lançados sob a alçada da Lovers & Lollipops. Plástico (2018), escrito em português, marcou o virar da página e a assinatura de um contrato com a Valentim de Carvalho, que lhes deu um som mais redondo e os consagrou em definitivo para lá das margens de Barcelos.

O passo seguinte foi tudo menos óbvio. Gótico Português (2023) veio com selo independente da editora Vida Vã, por eles criada, e encheu-se de pós-punk e canções às quais muito dificilmente conseguimos meter o rótulo de single, mas que em conjunto resultam num disco com estatuto de culto. Vale Tudo para Chegar a Algum Lado, o sexto-longa duração agora apresentado, é a continuação do caminho independente que iniciaram com o trabalho anterior e, ao mesmo tempo, um olhar dos Glockenwise sobre o barro que os moldou nos últimos 20 anos.

“Será que qualquer dia vamos estar à vontade / com tudo o que fizemos?”, questionam na faixa título e primeira do disco, um tema de 6:28 minutos que dispensa prelúdios instrumentais longos e que nos põe logo aos 9 segundos a seguir na roda das palavras de Nuno Rodrigues, como se nunca os tivéssemos deixado de ouvir desde o último álbum.

Neste detalhe encontramos o dedo de produtor de Pedro Augusto (Ghuna X), ele que tem a mania desconcertante de nos empurrar para uma canção como se ela fosse um comboio em andamento, para depois nos largar num apeadeiro e seguir viagem (veja-se o que ele fez em 2019 com os Black Bombaim, outros miúdos bem recomendáveis made-in Barcelos). Com Pedro Augusto, a música não tem passado ou futuro, é um movimento perpétuo tão fatalista quanto libertador, algo que casa lindamente com a condição sisífica dos Glockenwise.

Entre o desencanto e a esperança

Vale Tudo para Chegar a Algum Lado é, nesse sentido, um álbum de base impressionista, feito da sonoridade inconcreta do rock psicadélico, do pós-punk e do shoegaze, à qual é aplicada um glacé de indie rock em momentos muito precisos, como em Lua, tema-desabafo sobre “as dores de ser grande” e em que a voz de Nuno Rodrigues se aventura na androginia de um Brian Molko, embora com mais suavidade, arrasto e distância.

Há uma aura de leveza no disco que contrasta com Gótico Português, mais amarrado às linhas do baixo e ao rock gótico de uns Joy Division, e que se revela para lá da interpretação. Dedilhados e melodias brilhantes insinuam-se a meio de canções, justapondo-se à tormenta de versos como os de Vai Dar: “Passei o dia a hipotecar / os futuros que restam (…) cancelada a minha vida / entrego-me à cantiga / e à macia convicção de que / vai dar”. Encontramos laivos de The Brian Jonestown Massacre e também Low, eles que em 1994 batizaram um álbum com uma expressão que se poderia aplicar a Vale Tudo para Chegar a Algum Lado: I could live in hope.

"Vale Tudo para Chegar a Algum Lado", o sexto-longa duração agora apresentado, é a continuação do caminho independente que iniciaram com o trabalho anterior e, ao mesmo tempo, um olhar dos Glockenwise sobre o barro que os moldou nos últimos 20 anos

Créditos Renato Cruz Santos

É entre o desencanto e a esperança que se escreve o novo trabalho dos Glockenwise. Às vezes consegue ser claustrofóbico, como em A Guerra do Caulino, faixa que nos atira para o absurdo de estarmos constantemente a batalhar pelas mesmas causas, sem fim à vista — o caulino de ontem, que gerou uma revolta popular em 1988, em Barcelos, é o lítio de hoje, do Barroso, ou os combustíveis fósseis que levantaram protestos estudantis em Portugal e em toda a Europa.

Mas depois também há luzes que se abrem e que nos dão consolo quando achamos já não haver solução possível, tal e qual o primeiro sol depois de longos dias de chuva. Veja-se Tudo o que eu Posso — “se este mundo é nosso / não serei refém / serei tudo o que eu posso” — ou Intenção, tema que fecha o disco numa opressão Kafkiana, mas que, graças à voz de Mafalda Matos, dos Marquise, nos mantém vivos, apesar de todo o absurdo existencialista. Se nada mais fizer sentido, teremos sempre os miúdos de Barcelos para nos deixarmos levar. Assim, vale mesmo tudo “para chegar a algum lado / para chegar a lado nenhum”.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.