A cantora Iolanda edita esta quinta-feira o primeiro álbum, Quebranto, um trabalho no qual apresenta a sua “pop tradicional”, criado em comunidade e feito de memórias, crenças e tradições.

O álbum de estreia chega aos 31 anos, mas o caminho de Iolanda para fazer carreira na música começou bem antes.

Originária de São Pedro, no concelho da Figueira da Foz, mas com a infância passada em Pombal, Iolanda mudou-se para Lisboa aos 17 anos para seguir o sonho da música, começando por atuar em bares e tendo tentado a sorte em concursos televisivos de talentos. Mais tarde, mudou-se para o Reino Unido, para estudar composição na Universidade de Sussex.

Em 2023, editou o EP de estreia, Cura, e no ano seguinte ficou conhecida do grande público ao vencer o 56.º Festival da Canção com o tema Grito. A vitória fez com que representasse Portugal no 68.º Festival Eurovisão da Canção no mesmo ano, na Suécia, tendo conquistado o 10.º lugar.

Mais do que a Eurovisão, o Festival da Canção foi “o ponto de viragem” para o início de carreira que procurava, “porque o festival continua a ser algo que as pessoas consomem bastante em Portugal, e é um marco específico da música portuguesa”, contou, em entrevista à Lusa.

Dois anos depois chega Quebranto, álbum que mostra quem é artisticamente: uma artista de “pop tradicional”.

“Gosto desta expressão, esta procura, sem dúvida, pela tradição, mas associando também às coisas que ouço”, referiu, partilhando que cresceu com a música de Avril Lavigne e Alanis Morissette, porque eram os discos que a mãe tinha em casa, mas também com música tradicional portuguesa, que o pai adora, tendo inclusive integrado um grupo de cavaquinhos.

Em Quebranto, coexistem esses dois mundos. “Vamos a Fausto, à Brigada Vitor Jara e também a referências pop mais recentes, como a Rosalía e a Judeline”, disse.

Ainda que não o tenha escrito sozinha, Quebranto é um álbum biográfico, tal como os EP Cura e Olha p’ra baixo (2024).

Iolanda tende “a trabalhar cada vez mais em equipa”, mas no primeiro álbum “foi assim uma loucura”: “Quebranto” criado e produzido “em comunidade”.

O processo começou com um primeiro encontro de composição musical no estúdio dos Bateu Matou, em Lisboa, e incluiu uma residência artística de duas semanas, na zona de Ourém, que chegou a reunir uma equipa de 20 pessoas, incluindo o rapper Xtinto, as cantoras Bia Maria e Carolina Deslandes, a segunda a fazer letras a partir de Lisboa, e o produtor Luar.

“Vários artistas juntaram-se ali, todos de meios diferentes. Sou uma sortuda porque pude trabalhar com estas pessoas todas”, partilhou.

Numa fase seguinte, Iolanda foi gravar as vozes no estúdio do músico e produtor João Só, “que também foi uma pessoa super especial neste disco”.

Em “Quebranto” ouvem-se também as vozes de vários familiares de Iolanda, incluindo de uma das avós, cuja voz a cantora “queria muito eternizar”.

Além das vozes, a família está também na base do álbum, na vontade que Iolanda tinha de “abordar o campo, ter sons de campo”, de onde vem, ou na palavra que deu título ao disco.

“Sempre conheci a palavra quebranto, foi uma palavra que sempre viveu na minha vida e na minha família de forma muito presente”, partilhou.

Nos dois EP que editou, o título veio depois de ter as canções feitas, no álbum “o nome veio logo”.

“Pensei logo e Quebranto e depois: ‘o que é que isto quer dizer? Por que é que quero falar sobre isto? Então fui pesquisar muito, porque sabia as coisas corriqueiras da aldeia, sabia que a minha mãe me tinha levado à Maria do Sacristão, uma senhora da nossa zona, que fazia esta coisa de virar o bucho às crianças, quando não comiam muito. Fui lá, virei o bucho, que era uma reza com azeite e mexer na barriga, volto lá e comi tudo. Se aquilo teve ou não influência, a gente não sabe. Mas a verdade é que aquilo me ajudou e eu saí de lá a comer”, recordou.

Já mais tarde, a mãe mandou rezar-lhe o responso: “A minha mãe manda sempre a outras pessoas fazer e depois essas pessoas, por vezes, até mandam outras. Isto é uma cadeia que ninguém sabe ao certo quem é que fez, porque além de misticismo, acho que ainda há um certo tabu, e são coisas que sempre tivemos”.

A dada altura percebeu que o tema tinha pano para mangas, e começou a pensar como poderia transformá-lo num disco.

Iolanda não queria que fosse um trabalho pesado: “Queria que me divertisse, que me levasse a casa, que fosse também, de certa forma, às vezes picar um bocadinho com o dedo na ferida, na minha e na dos outros. Há muitas canções que escrevo ali que são para mim, claramente, que são coisas que não tenho coragem para me dizer ou para dizer aos outros”.

A cantora sente que o novo trabalho é quase como “ir a uma festa de aldeia e viver a noite inteira, com várias coisas que vão acontecendo”, mas admite que quem ouvir “se calhar não vai achar nada disto”.

Com o disco já praticamente pronto, Iolanda quis juntar um fado ao alinhamento. Após alguma pesquisa chegou a Maldição, um Fado Cravo de Alfredo Marceneiro, que “fazia todo o sentido no alinhamento de ‘Quebranto'”.

Na versão que gravou, em vez de guitarra portuguesa, Iolanda optou pela viola braguesa, um instrumento muito parecido sonicamente, “que de certa forma é disruptivo mas sem destruir o que o fado é na sua génese”, e que mantém a ligação aos outros 12 temas do álbum.

“Não sei se é um fado a 100%. Acho que não. O meu objetivo é criar essa sonoridade portuguesa, essa ‘pop tradicional’, e, se possível, levá-la mais longe”, referiu.

Depois da aventura de Quebranto, Iolanda e a equipa estão já mergulhadas noutra: o concerto de apresentação do álbum, marcado para 7 de dezembro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

“Estamos a preparar um espetáculo em que o disco esteja completamente refletido, quase colocar o Coliseu numa perspetiva de comunidade também”, contou.

Por isso, o espetáculo terá o conceito 360º, com o palco no meio da plateia, “a forma mais fácil de ter toda a gente junta, quase de mão dada, a ver exatamente a mesma coisa e a trabalhar em conjunto para chegar a um sítio”.

Quebranto está disponível nas plataformas digitais e terá, mais tarde, edição física.