Um primeiro livro é um parto. E este vem ainda com cordão umbilical: uma faixa que diz “autora distinguida com a primeira edição da bolsa literária Penguin” e que é preciso cortar para aceder às páginas. A autora é Catarina Barros (n.1984), licenciada em Filosofia e pós-graduada em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Nova de Lisboa, onde trabalha atualmente, cofundadora da livraria Trama (que existiu durante quatro anos na capital) e colecionadora de trabalhos temporários ao longo de vários anos – tantos que aqui servem de título para os 20 capítulos do livro: secretária, empregada de mesa, agente de operações aeroportuárias, vendedora de candeeiros, copywriter, assistente de galeria de arte, animadora sociocultural, anfitriã de alojamento local, empregada de limpeza…

A escolha do título do livro certamente também não é inocente: Labor significa trabalho em português mas também parto em inglês, e os dois temas que tanto suor arrancam às mulheres atravessam as páginas, desde o início.

Com uma belíssima capa que reproduz a obra Two stage transfer drawing (1971), de Dennis Oppenheim, neste ensaio autobiográfico sobre a maternidade e a escrita, a autora recua ao tempo em que soube que ia ser mãe, aos 21 anos. São anos de formação, mas também de sobrevivência, entre trabalhos temporários como operadora de call center ou empregada de balcão em lojas de centro comercial, sem “rede familiar segura” e sem pai para o filho. O futuro adiado.

Em todo o lado encontro mulheres que criaram sozinhas: têm as gavetas cheias de coisas que não conseguiram fazer.” (Labor, p.107)

Entre os buracos na memória e as preocupações mundanas mas essenciais – pagar uma casa, prover ao filho, sobreviver na precariedade – um ato sobressai: a necessidade de escrever para se perceber, para se pacificar com as suas escolhas – ou com a impulsividade delas –, para agarrar o presente, ainda que de forma fugidia. Mas a escrita também é uma enguia: escrever é assumir o medo de falhar, começar, abandonar, recomeçar mais uma linha. O trabalho mais difícil de todos.

Não sei quem sou – escrevo sobre isso a toda a hora –, o que também se percebe nos meus cadernos de tamanhos e materiais diversos, uns lisos, outros pautados, sem critério nem coerência.” (p.12)

(…)

“Nos períodos em que não escrevo, sinto-me desaparecida. Escrevo para que as coisas me aconteçam, para que não passem tão depressa, para serem mais do que, caso não as escreva, acabarei por achar que foram.”

À vontade de escrever opõe-se a pouca certeza de que a sua vida mereça ser contada. “É embaraçoso escrever na primeira pessoa”, confessa Catarina Barros, que, ainda assim, escolheu a coragem de fazê-lo, sem maquilhar o pouco glamour de uma vida de mãe solteira preocupada com dinheiro, ou o fracasso de um negócio (o da livraria) que não vingou.

Título: “Labor” | Autora: Catarina Barros | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 144

Enquanto faz a travessia dos trabalhos precários que estruturam o livro, e enquanto reflete sobre as dores da escrita e da maternidade – os dois grandes temas que mais lhe oferecem resistência e, como tal, fazem a vida parecer “longa, palpável e memorável” –, a autora vai partilhando as leituras que fez ao longo dos anos que levou a escrever e a abandonar estas linhas, que acabaram mesmo por dar um livro: Marie Darrieussecq, Clarice Lispector, Hannah Arendt, Joan Didion, Elena Ferrante, Rachel Cusk, Zadie Smith, Marguerite Duras, Annie Ernaux, Adrienne Rich, Sylvia Plath, Anne Boyer, Simone Weil, Jane Juffer, Susan Sontag, Joanna Russ, Virginia Woolf ou Lucia Berlin, com quem partilha o currículo rocambolesco de trabalhos. Quase sempre referências femininas, não só literárias mas também familiares e da cultura popular: a mãe, a avó materna, a série Girls de Lena Dunham, a mãe polvo que fica no fundo do mar a morrer para que os seus filhos nasçam.

Porque aqui reflete-se sobre o lugar das mulheres, o seu corpo e a sua liberdade:

Começarei por ser fascinante e, em seguida, farei o jantar. Viverei sem saber quem sou, mas nunca terei dúvidas acerca do que me cabe fazer.” (p.12)

(…)

“Sou aconselhada a escrever na primeira pessoa, mas a evitar o plural. O ensaio autobiográfico ressente-se de qualquer pretensão coletiva, que lhe subtrai precisão e verdade. ‘Nós’ é uma palavra perigosa, uma transgressão. Um livro não é um comício: ‘nós’, as que somos emprenhadas, as que abortamos, as que ficamos sozinhas com os nossos bebés não formamos uma classe. Um livro deve ser uma coisa volante – cada um tira o que quer.” (p.77)

Reflete-se também sobre o trabalho invisível que é o cuidado materno, sem prémios nem progressão na carreira, tão mais doloroso quanto o fruto da dedicação constante não para de crescer e de mudar:

À medida que o meu filho cresce, sinto-me usada. O meu corpo, criatividade, capacidade de concentração, silêncio – tudo terra queimada. Nada é meu, fui espoliada. Entreguei o meu tempo à necessidade de prover e cuidar. Presto os mais variados serviços ao patrão que eu própria fiz. Quando o meu filho sair de casa, mais ou menos acabado, não vou ser promovida. Não há, para mim, prémio de carreira; não darei a última lição. Não espero fitas nem medalhas. Escrever sobre o meu filho está longe de ser igual a ser mãe do meu filho, mas é por escrever sobre ele, e não por ser mãe dele, que o meu trabalho será valorizado.” (p.91)

Ou, mais à frente, noutra das muitas passagens para sublinhar:

No tempo que vai de um nado-vivo a um homem feito, ninguém sabe quantas vezes se foi pôr o quarto a arejar. O que hoje cansa não deixa marca – havemos de ter pena disso.” (p.110)

(…)

“Há no passado uma falência que me repugna. Embora não lhes seja imune, aborrecem-me a rememoração, a nostalgia, e até as saudades. Sofro, isso sim, com as faltas que hão-de vir, com tudo o que acabará por se perder. Se me comove a fotografia do bebé que já não há, é porque a imagem me lembra que também o filho que escreve na varanda está calmamente a deixar de ser. Magoa-me não poder preservá-lo, como a tantas versões deste texto, não poder salvá-lo como filho_1, filho_maio, filho_rev, não poder abri-lo no ponto em que o deixei.” (p.111)

E ainda, outro malabarismo:

Faculdade de manhã, consultório de medicina antroposófica à tarde, escrita à noite. Do nascer-do-filho ao pôr-do-filho, muito há a fazer. E depois também, no escuro. Sou gerente da pequena empresa que são as nossas vidas, gestora do prejuízo que todos os anos registamos. Responsável pela programação cultural, contabilidade, cozinha, limpeza, secretariado, costura. Para complementar o salário, escrevo para uma agência de publicidade que me contratou para manter o blogue de uma marca. É um blogue inventado com uma história inverosímil, mas não me deixam dizer a verdade: tudo deve acabar bem.” (p.59)

E é precisamente na lucidez não romantizada que este ensaio de estreia encontra o seu lugar. Labor não é um livro de histórias, de grandes descrições de personagens, diálogos ou cenários de viagens (Catarina Barros chama-lhe, às tantas, um “drama estático”). É um livro franco, filosófico e muito bem escrito de uma mulher que não desistiu, apesar de tudo, e ousou assumir as suas culpas, partilhar a sua carga, continuar sempre a laborar na escrita – o único trabalho não temporário – e mostrar-se para não desaparecer. Ao fazê-lo, ainda criou um espelho: há sempre qualquer coisa, em qualquer página, em que outra mulher finalmente se verá.